A feira - Jornal Plural
22 set 2021 - 8h30

A feira

Como se o sistema súbito falhasse, uma rês desgarrada estaca diante de mim. É uma mulher de uns trinta anos. Avalio sua expressão neutra; não consigo definir se poderia ser um dos raros leitores de poesia que passam por aqui

Como todos os dias, a banca de Elizabeth está apinhada de gente. As crianças na ponta dos pés, pra ver o que acontece acima dos livros coloridos do expositor; as mães ao seu lado, segurando sacolas, mochilas, carrinhos de bebê. No interior da banca, como personagens de um teatrinho de bonecos, Elizabeth e o marido fazem seu número. Ela, bem maior do que ele, ostenta um vistoso vestido florido e tem os cabelos negros atados num rabo-de-cavalo de linhas exatas, sem um fio solto. Segura o livro aberto diante do peito, as páginas voltadas para a plateia, e o vai folheando conforme avança a história da canção, que ela entoa num inglês impecável:

“There was an old lady who swallowed a fly.
I don’t know why she swallowed a fly – Perhaps she’ll die!”

As crianças, entre encantadas e intimidadas, às vezes se dispersam, às vezes acompanham a performance. As mães parecem mais absorvidas pela cena, ou nostálgicas. Elizabeth faz expressões caricatas de espanto e consternação, espalmando a mão livre ao lado da cabeça, pondo-a na cintura com o punho cerrado.

“There was an old lady who swallowed a spider
That wriggled and jiggled and tickled inside her!”

Ao lado e abaixo dela, com a camisa de estampas havaianas de hipster barbudo, o marido pequenino lembra um autômato, cuja cabeça inexpressiva olha ora para as caretas da esposa, ora para a plateia. A cintura fina e a bunda grande de Elizabeth, que fazem a saia abrir-se num rodado perfeito, mais a fixidez de seus grandes olhos a saltar de expressão em expressão, me dão a ideia de que ela saiu de alguma página de um de seus livros nórdicos fartamente ilustrados.

Quando termina a canção, as mães avançam sobre os livros. Então, na mãozinha do marido, a maquineta do multibanco não para de expedir comprovantes de venda, como se mostrasse insistentemente a língua para mim.

Estou na banca em frente, sozinho com meus empoeirados tomos de poesia. Entre nós, pelo corredor da feira de livros, passa um rio de gente, a maioria bem vestida e de mãos abanando. Aqueles que vão para baixo caminham em direção aos estandes das grandes editoras, onde hoje há uma fila imensa de adolescentes que buscam um autógrafo da influencer do momento. Os que vão para cima procuram a praça de alimentação; comerão hambúrgueres e bifanas e tirarão selfies com o Parque Eduardo VII e o Tejo ao fundo.

Como se o sistema súbito falhasse, uma rês desgarrada estaca diante de mim. É uma mulher de uns trinta anos. Avalio sua expressão neutra; não consigo definir se poderia ser um dos raros leitores de poesia que passam por aqui. Não tem nada de excêntrica ou melancólica, ou maluca, um desses sinais luminosos de deslocamento que permitem a uma pessoa “ler na vertical”, como me disse um amigo filólogo. Mas pode ser que faça parte do grupo dos disfarçados, das criaturas meio gélidas que recalcam o inconformismo sob uma capa de amenidades sociais. A mulher folheia alguns livros, lê uma coisa aqui, outra ali. Aperta os lábios num ligeiro estranhamento.

– São poetas brasileiros, explico, antecipando-me.

– Pois… Eu percebi. São giros.

Ela abandona o livro no expositor, me olha:

– Não há traduções?

– Traduções? Estão escritos em português…

Ela parece embaraçada, mas distingo uma faísca de afronta em seu olhar.

– Desculpe! Versões. Não há versões para o português de Portugal?

Explico-lhe que não fazemos isso com poesia, gênero em que as palavras são escolhidas e esculpidas com tanto rigor. Além do mais um português pode entender tudo perfeitamente, embora, claro, algum esforço possa ser demandado, o que faz parte dos prazeres do jogo.

– Pelo mesmo motivo, também não fazemos versões de Camões ou de Pessoa no Brasil.

Ela me agradece (uma sombra de desprezo passa-lhe pela face) e vai embora.

Depois de uns trinta minutos, Elizabeth recomeça a cantilena para um novo ajuntamento de clientes:

“There was an old lady who swallowed a fly.
I don’t know why she swallowed a fly – Perhaps she’ll die!”

A velhinha engole a mosca, depois uma aranha para pegar a mosca, então um pássaro para pegar a aranha… e assim segue a onívora senhora, até bater as botas. Mas é uma fênix, volta sempre a viver na voz melodiosa de Elizabeth.

A tarde se arrasta. Dois livros são vendidos para a poeta eufórica de Cabo Verde. Como devagar um pedaço de empadão que trouxe de casa. Vendo mais um (aquele de que mais gosto) para uma silenciosa jovem de olhos meigos e riso infeliz. Tomo suco de laranja enquanto a velhinha da canção engole a cabra.

Já anoitece quando vejo surgir lá de baixo, em meio ao movimento crescente de passantes, um homem de uns setenta anos, alto, encurvado. É quase um mendigo. Sua forma de andar, a passos largos e pesados, difere em tudo dos modos erradios e sem compromisso da burguesia que passeia pelo parque. Ele parece saber para onde vai, ainda que talvez carregue o peso do mundo. Aproxima-se de mim, para. Os cabelos e a barba, brancos, longos, foram chamuscados por algum fogo interno. Veste um paletó puído que já foi preto, ou azul, com dois saquinhos frouxos nos cotovelos. A velha calça jeans termina na altura das canelas, e os pés lanhados saem de sandálias crestadas pelos desertos deste mundo. Observo discretamente o dedão do pé esquerdo, dividido por um talho fundo na ponta. Ele me encara como se me desse um breve aceno e pousa os olhos de um azul antigo, obstinado, em um dos livros. Suas garras encarquilhadas folheiam o tomo com delicadeza imprevista. O homem lê, longamente, um poema qualquer. Fecha o livro, tira um punhado de notas amassadas do bolso e me estende uma, sem dizer palavra. Depois, no mesmo passo que o trouxe do começo das eras, sobe a ladeira do parque, sem sequer olhar para os devoradores de hambúrgueres.

Saio da banca, vejo-o sumir no cimo da colina. Faço um gesto em sua direção, como se ele houvesse esquecido alguma coisa. Então percebo que o que ele deixou foi um vazio agudo à minha volta.

– Adeus, Walt Whitman, digo-lhe, um pouco antes de Elizabeth curvar-se, enfiar as mãos cruzadas entre as coxas e encerrar mais uma vez a canção:

“There was an old lady who swallowed a horse…
She’s dead, of course!”

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