Aquele ano em que a gente aprende a contar | Plural
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9 jun 2020 - 20h13

Aquele ano em que a gente aprende a contar

A já embolorada diferença entre história & estória não faz mais diferença, mas há, sim, ainda, versões & versões – aquelas até em que as narrativas ficcionais parecem previsões

Mas de repente é segunda-feira outra vez e nada parece começar de novo – ainda que muitas manhãs por aí inaugurem a portas abertas o que chamam de abertura. É um começo. Esse, que toda gente sempre adia e ancora em marcações temporais. Somos incapazes de viver sem contar – histórias & dias, ainda que a contagem se perca em fumaças de notícias ou cinzas do que temos visto queimar. Damos nomes aos livros a partir do tempo. Alguns óbvios: 40 dias, Meu ano de descanso e relaxamento, O fim da eternidade. Outros nem tanto, sob a mesma premissa: Odisseia, Jogo da amarelinha, Três vidas. As histórias começam com o automático Era uma vez ou um quando, seguido de uma explicação específica a exemplo do Kafka: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. É a partir dali que a gente conta a história que nos contam.

A já embolorada diferença entre história & estória não faz mais diferença, mas há, sim, ainda, versões & versões – aquelas até em que as narrativas ficcionais parecem previsões. As perguntas para o Google aumentaram nos últimos meses e equiparam nossa curiosidade a respeito da previsão do tempo para um outro tipo de previsão sobre o tempo: quanto tempo falta? Eu, que tenho me perguntado diariamente: quanto tempo resta?, percebo que não sou a única a me ocupar do tema. Quanto tempo sobra? também é uma das perguntas feitas ao Google no período da quarentena. Sabe-se lá. Nossos advérbios e adjuntos adverbiais de tempo em crise de identidade e as conjunções adversativas desempregadas nos lembram que não podem mais existir os entretantos e os ma(s), conjunção finalizada com um plural involuntário. Que (é)sse é esse que nos deixa sem saber calcular? Está tudo coberto de uma flexão de número. Sabemos que é mais de um, mas quantos? Sujeitos ocultos ocultando sujeitos, antes, determinados, nominados. Com nomes e famílias. Evoco aqui uma das mais comuns nas salas de aula que eu costumava frequentar: a dos advérbios. Não consigo mais lê-los (com suas locuções) de modo e não pensá-los como a única forma de contar nossos tempos, com o perdão do trocadilho: às pressas, às claras, às cegas, às escondidas, aos poucos, desse jeito, desse modo, dessa maneira, em geral, frente a frente, lado a lado, a pé, de cor, em vão. Tem ainda o provisoriamente, ambíguo, a frequentar duas famílias, que era pra ser de tempo e virou nosso modo. Um jeito de viver a política, ocupada por gente que sabe exatamente que dia foi ontem. Nenhuma oportunidade escapa a quem escreve, com as mãos sujas, odes à naftalina, incluindo a de recontar a história, valendo-se de uma calculadora própria.

Há quem esteja contando o tempo, há quem esteja contando farelos, há quem não esteja mais contando. Quando será possível pintar um céu de azul de novo sem chamá-lo de céu de brigadeiro? Esse céu que brilha imenso nos lembra uma crise hídrica, mas também acusa que, fosse lido em Portugal, esse adjetivo seria advérbio. As palavras rodopiam na nossa frente ostentando o passado. São as palavras o nosso único relógio possível e nem todas lavam as mãos antes de entrar no verbete para atravessar nossos dias. Afinal, agora, amanhã, amiúde, às vezes, de repente, de vez em quando, de quando em quando, a qualquer momento, de tempos em tempos, em breve, hoje, antes, ontem, breve, cedo, constantemente, depois, enfim, entrementes, hoje, imediatamente, jamais, já, sempre, outrora, primeiramente, tarde e nunca, nos disseram, delimitam o tempo na narrativa. Até que o amanhã aconteça, elas continuam pouco e resisto à tentação de cancelar 2020 da minha biografia. Este passado-presente-futuro é de todos nós e nossa memória precisa dele.

Nuno Ramos, em 2008, definiu 2020 como ninguém: “no topo do meu estômago, essa vontade de cantar e vomitar ao mesmo tempo”. Nesse desafio matemático, ético e estético, queria dizer que, em resistência, fui feliz este ano. Só não sei se serei capaz de mentir ano que vem. Também não sei se vem o tal do ano um do próximo século – agora, sim, dizem os historiadores -, do próximo milênio, esse ao qual nos encostamos, em todas as nossas previsões, com uma espécie de fascinação pelo futuro. Ele, que sempre se impôs, forçadamente, como uma promessa, como se fosse possível, um advérbio de modo, não passa de um substantivo composto. Ainda resta – se restar alguma coisa – descobrir de que. E enquanto tateio, persigo meu próximo texto, um jeito que me parece honesto para contar os dias, e ensaio, às cegas, um início de um outro jeito, imitando Saramago: “No dia seguinte ninguém morreu”, torcendo pra que não seja ficção.

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