Suspiros mitigados | Jornal Plural
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9 set 2020 - 21h54

Suspiros mitigados

O livro pode servir de alerta ao momento político que vivemos de ascensão do fascismo, obscurantismo e negacionismo da ciência

Quando escrevo nem sempre o título de um artigo ou crônica – romance, conto e poesia não sei – é a primeira coisa que me apresenta. Às vezes, surge no final. Às vezes, não surge, tem de ser inventado.

Felizmente não é uma dificuldade só minha. Mal comparando, Chico Buarque numa entrevista a Jô Soares, creio que no ano (1991) em que lançou Estorvo, disse que o nome do livro chegou quase no final. Trabalhou o tempo todo sem ter um título.

Será que isto foi um estorvo para o Chico?

Hoje foi fácil, o título veio ao abrir o livro.

Sentei-me para escrever e, claro, a primeira coisa que fiz foi abrir o livro. Ao abri-lo, além da dedicatória, esta escrito na orelha, assinada por Marco Lucchesi: “Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros (mitigados) e saudades”.

As pessoas suspiram de tristeza, saudade, melancolia, desejos, sonhos e utopias. Alguns suspiros são fortes e intensos, outros brandos e suaves. Depende da dor física, psicológica e/ou do recato. Tem gente que dá suspiros recatados.

Mesmo não tendo qualquer relação entre o título da crônica e a dedicatória, achei suspiros mitigados bonito.

Chovia e eu estava sem capa e sem guarda-chuva. Galocha já nem se fala. Creio que não existe mais. Às vezes, tenho a impressão que só gente da minha geração usou galochas e era bom, o sapato podia estar furado – pelas minhas condições, coisa que não era raro – que não entrava água.

Chovia e não tendo como caminhar entrei numa das lojas do Sebo Capricho (Curitiba) para esperar a chuva e o tempo passar. Tenha a certeza que um bom lugar para esperar a chuva parar e nem ver o tempo passar é um sebo.

Por causa da chuva, neste dia comprei dois livros. Um deles – sem dedicatória – só por uma frase (qualquer dia posso escrever sobre isso). E o outro, além de ser bom, pela dedicatória. São bons livros.

Não direi a frase, mas o que comprei em razão de uma única frase é o Essa História Está Diferente – Dez Contos para Canções de Chico Buarque. O outro livro é A Misteriosa Chama da Rainha Loana, Umberto Eco. Este é o que tem a dedicatória e é simples:

Feliz Aniversário, Mama

        Te amo! Beijo

                                J.

                                12/06/12

Foi um presente de aniversário da filha à mãe. Ao dar de presente um romance – ilustrado – escrito por Umberto Eco significa que, no mínimo a filha sabe de que tipo de literatura a mãe gosta. Ou será que é a filha quem gosta e quer modular um novo gosto na mãe?

Mas de qualquer maneira a mãe gosta de ler, caso contrário o presente não seria um livro.

O livro não tem característica de ser novo: capa um pouco amarelada e manchada, pouco desgastado, não devastado. Por não haver sinais – riscos, anotações, manuseio – não dá para saber se foi lido ou não. Isto não importa. Aliás, nada me importa sobre o comportamento de quem tem livros e o que vai fazer com eles. Há o que me “incomoda”.

Coloco a palavra incomoda entre aspas porque não sei se é a palavra correta. Mas vamos lá: o que me incomoda é porque um livro publicado em 2005 e presenteado em 2012 já estava no sebo no final de 2019.

A partir disso vem as minhas lucubrações: não pode ser briga entre mãe e filha. Se for há muita hipocrisia na dedicatória; pode ser que a mãe presenteada não tem apegos a livros, lê e vende-os. Neste caso, ela tampouco tem apego a dedicatórias, mesmo que seja feita pela filha. Não quero imaginar que não tenha apego à filha, neste caso confirma a primeira hipótese a da hipocrisia; imagino que a razão é a mesma que já escrevi em outras dedicatórias e que sempre prefiro acreditar: dificuldade financeira da proprietária do livro ou de quem ficou com a herança.

Além da dificuldade financeira há outra razão: há que se levar em consideração também que o herdeiro ou herdeira não goste de literatura ou não goste de Umberto Eco, ou pior, não goste de livros em geral.

Mas uma intriga me acompanhou desde que vi o livro até o momento de escrever esta crônica, o título: A Misteriosa Chama da Rainha Loana. De onde saiu?

Na página 251, encontro a explicação: era o título de uma revista – La Misteriosa Flamma dela Regina Loana – publicada na década de 1940 na Itália.

Segundo Umberto Eco, a revista continha a “história mais boba que uma mente humana podia conceber”. Uma “narrativa desarticulada, que fazia água por todos os lados, os episódios eram repetitivos, as pessoas ardiam em amores repentinos sem razão…”.

Em que momento Umberto Eco encontrou o título para seu livro?

Só quando chegou à página 251 ou já tinha a revista em mãos e a ideia na cabeça quando começou escrever o livro?

Ah! O livro faz um retorno ao período de Mussolini e ao fascismo. Mostra como as histórias em quadrinhos, a proposta pedagógica/educacional impunha uma ideologia: o fascismo.

O livro pode servir de alerta ao momento político que vivemos de ascensão do fascismo, obscurantismo e negacionismo da ciência.

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