Lia - Capítulo 70 | Jornal Plural
1 nov 2020 - 12h16

Lia – Capítulo 70

Onde Lia é finalmente vista

O nome dela é Yoshie. Trabalha no balcão do café da esquina. Que esquina? Qualquer esquina.

Ela gosta dali, fez muitos amigos entre os moradores da quadra. Moradores moradores e moradores por emprego. Vários prédios comerciais por ali. Gente jovem, gente velha. Gente.

O pessoal começa a chegar cedo, assim que o café abre. Assim que Yoshie abre o café.

O seu Oswaldo da banca. As duas irmãs do prédio da quadra de cima. Velhinhas velhíssimas, uns amores. Tanta gente. A menininha das tranças, que quer sempre comprar doce e a mãe não deixa.

Mas depois dessa primeira leva de clientes, que inclui também muita gente que ela mal reconhece ou nem conhece mesmo, gente mal humorada (talvez somente antes daquele café que vão receber da Yoshie?) e menos disposta a puxar conversa, gente apressada… Depois dessa primeira onda vem sempre uma longa hora de pasmaceira, em que pingados são os clientes, um a um, esparsos e espalhados.

Nesse tempo, nessa janela vazia é que ela de fato abre os olhos e presta atenção nos passantes, na vida verdadeira que transcorre entre o meio dia e a parede do supermercado, que é tudo que ela consegue ver enquadrado pela porta estreita do café, entre o degrau coberto de lajota e o acúmulo da porta de metal enrolada por trás da placa. Nesse tempo ela se sente uma planta, num vaso, virada pra aquele único ponto de sol, a luz refletida no branco da tinta da frente. Planta atenta. Planta viva.

E é nessa hora que ela repara de verdade nas diversas figuras que passam por ali, nos segundos que cada uma leva para surgir de uma parede escura e ser engolida pela outra. Os poucos segundos de exposição de cada corpo contra a parede clara. Seu retrato.

Percebeu Lia logo que começou a trabalhar ali.

Não sabe que Lia é Lia. Nem imagina.

Nunca lhe serviu um café, nunca ouviu alguém se dirigir a ela. Nada.
Só sabe que aquela mulher passa por ali todo dia, em algum momento diferente do dia. Em algum momento diferente, na verdade, do turno de Yoshie no café. (Sabe, também, que nos raros dias em que não vê a mulher, acaba chegando em casa com a sensação de que alguma coisa ficou oca, alguma coisa não viveu.)

Sabe que percebeu a mulher desde o começo, e sabe que não sabe por que a separou do fluxo dos outros corpos que percorrem o quadrado iluminado à sua frente. Sabe que depois de um tempo, em busca de algo que justificasse a atenção que devotava àquela pessoa, percebeu, ou julgou perceber, que a mulher sempre tinha algo de vermelho. Na roupa, no pacotes que porventura levava. Em torno de si.

E passou a tentar descobrir o que havia de vermelho em Lia a cada vez que ela passava por ali. Naqueles poucos segundos de que dispunha a cada dia. Foi seu esporte durante quase dois anos. Examinar rapidamente a figura da mulher dos pontos vermelhos enquanto tentava supor sua história, sua vida, seu estado de espírito a cada dia. No mínimo isso.

Dois, quem sabe três dias antes de Lia passar pela última vez, alguém pichou a parede do mercado com um palavrão. Em tinta vermelha. Yoshie trocou de emprego três meses depois, sem jamais poder saber.

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