Lia - Capítulo 63 | Jornal Plural
9 nov 2020 - 16h01

Lia – Capítulo 63

Onde Lia vê um milagre

Ela estava passando ao lado do Passeio Público. Pela calçada do outro lado da rua. Trânsito leve, de manhã cedo. Dia frio. Céu cinzento. Passarinhos.
Um caminhão subiu a rua rumo ao Centro Cívico. Deve ter feito vento, só podia ser essa a explicação, num dia de tempo tão parado. Deve ter sacudido a folhagem das plantas todas do outro lado, dentro e fora da cerca do Passeio.

Mas não foi exatamente na mesma hora.

Levou uns segundos.

Ela não sabe se foi sua visão periférica que deu o alarme. Ou se ouviu um baque. Sabe no entanto que perdeu os primeiros milésimos de segundo da queda, mas acompanhou o restante da trajetória até o chão com a naturalidade de quem virou a cabeça sabendo o que espera. Embora ninguém pudesse esperar.

(Não havia mais ninguém na rua.

Ninguém à vista dentro ou fora da cerca do Passeio. Ninguém por perto)

Quando a bolinha de tênis saiu do meio dos galhos de um ipê, derramou-se em linha reta até a calçada, quicou três vezes e depois rolou, lentamente, até a sarjeta. Único ponto amarelo na cena inteira.

Rolando agora.

Como se quisesse vir até Lia.

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