Lia - Capítulo 4 | Jornal Plural
5 fev 2019 - 0h00

Lia – Capítulo 4

Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance…

Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.
Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance pode ser lido em qualquer ordem: o que lhe dá sentido (nos dois sentidos) é a vida que registra.
Lucília Paula Kappelhoff, a Lia.

Lia guardou para sempre.

Foi um dos momentos mais lindos que teve na vida. A sensação tátil, aquela impressão visual. Como que a suspensão dos barulhos das vozes em volta. Um carinho. A imensa felicidade, o espanto: novidade. Estranho calor que lhe correu a espinha, do topo do crânio ao quadril. Imensa felicidade. Era como lembrava, pelo menos. Essas coisas são traiçoeiras.

O restaurante era caótico. Domingo, muita gente. 

Famílias todas juntas, adultos, crianças, bagunça. Aquela curiosa sensação de que cada mesa segue independente ao mesmo tempo em que divide o ruído branco geral. Compõe. Um lugar coletivo de espaços que se pretendem individuais, e que individuais se mantêm, quase sem esforço, e sem nem dar por isso. Um coletivo de bolhas para casais. Grupos de colegas. Famílias. Cada grupo, cada par no centro da sua própria experiência, contra o pano de fundo do barulho dos outros. Cada grupo e cada par transformando em barulho sem sentido o que para os outros é conversa, é o centro da sua própria experiência. 

O restaurante era caótico.

*

Os técnicos de som do cinema usam um truque para fazer com que você consiga seguir uma conversa entre dois personagens no meio do rumor de uma dúzia de pessoas que falam ao mesmo tempo sem a consideração demonstrada pelos extras dos programas de televisão, que apenas mexem a boca produzindo uma fala silente. O que eles fazem é aproveitar uma tomada mais fechada, um close do par que conversa, e aumentar ligeiramente o som das vozes daquelas duas pessoas. Bastam poucos segundos, basta como que passar para você, que assiste, a ponta solta da meada inteira. 

Depois disso é possível retornar os atores todos ao mesmo volume na mixagem, e você continua sendo capaz de separar aquela conversa de entre as outras. Você aprendeu a isolar uma experiência do ruído, do pano de fundo.

E isso é importante. A experiência aumentou. Você cresceu um pouco também.

*

Lia não tinha essa chance no domingo no restaurante. 

Olhava em volta, desinteressada da conversa na sua própria mesa, mas não conseguia isolar palavras, frases das conversas alheias que, essas assim, geravam interesse. 

Contida ainda por um reflexo de não deixar que os outros percebessem que buscava prestar atenção, não queria ser mal educada, ser vista como mal educada. Mas discreta tentava entender o que os outros falavam. Famílias, casais, grupos de colegas. Uma festa, reunião, um rompimento. Uma alegria, tensão, uma rotina, restaurante.

Os pedidos estavam demorando. Lia tinha fome, e continuava isolada da conversa (que de fato não lhe dizia respeito) na sua mesa. Continuava desinteressada da conversa que de fato não lhe dizia respeito. Continuava. Perguntou onde ficava o banheiro. Era uma coisa para fazer enquanto esperava.

Logo ali atrás, está vendo aquela cortina de fitinhas coloridas?

Não tem porta, o banheiro?

Ali é só pra pia. Aí tem um banheiro de cada lado.

Lia levanta, olha em volta, segue até o banheiro. Nunca tinha visto isso de cortina de fitinha. Na casa dela, pelo menos, nunca teve. Olhava só aquilo. Aquela parede estável. Friável. Imóvel, móvel. Tinta.

Nos poucos metros que ficavam entre sua cadeira e a entrada no banheiro, nem lhe ocorreu prestar atenção nas conversas alheias, tentar entender o que segundos antes lhe pareciam vidas válidas, interessantes, expostas e inacessíveis. Queria apenas atravessar a cortina. Pensava apenas em atravessar a cortina.

Chegou ao limiar, parou por um segundo, já sentindo o cheiro de eucalipto na luz mais forte sobre a pia. Parou por um segundo diante da porta. 

E por alguma razão instintiva não usou as mãos para separar as fitas. 

Passou com o corpo reto, nariz, bochecha e testa entre as fitinhas de tantas cores. 

Tão leves.

Fechou os olhos sem nem pensar.

*

Foi um dos momentos mais lindos que teve na vida. Lia guardou para sempre. Aquela sensação tátil, a impressão visual. Como que a suspensão do barulhos das vozes em volta. Um carinho.

Era como lembrava, pelo menos. Essas coisas são traiçoeiras. 

Tinha quase seis anos de idade.

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