Entrevista com o Diabo | Jornal Plural
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6 fev 2019 - 0h00

Entrevista com o Diabo

Fagner Zadra conta que, depois de se aposentar, o Diabo decide vir morar na Terra. Escolhe Colombo como lar por se sentir “estranhamente em casa”. Veja a entrevista completa.

Eis que um dia o Diabo resolveu deixar de ser diabo e veio para a terra para viver como um cidadão comum. A notícia se espalhou rapidamente, muita gente começou a cometer crimes, sem temer a punição pós-morte. Começaram os questionamentos e, prevendo que teria que se explicar para todos eternamente, o que seria pior do que estar no Inferno – basta um encontro de Natal com toda a família para saber disso – ele resolveu aceitar um dos inúmeros convites que recebeu para dar entrevista depois de ter largado mão de ser o “Senhor Das Trevas” e dar as caras por aqui. Aceitou o convite do programa de maior audiência do momento, o Programa do Armando.

O letreiro vermelho escrito “NO AR” ascende. Alguém fala:

– Entramos no ar em 3…2…1…

Começa o programa e o apresentador já inicia dando as boas vindas.

A – Sejam todos bem-vindos ao Programa do Armando. E já vamos começando, pois nosso ilustre convidado já está chegando!

O jingle toca e o Diabo entra. Diferente do que todos esperavam, que ele viria de terno e gravata, no mínimo, ou usando um sofisticado smoking, na verdade entrou vestindo uma camisa havaiana florida, bermuda e chinelo de dedo.

A – Seja bem vindo, Lúcifer, é um prazer te conhecer.

D – Tranquilo, nosso encontro era inevitável, iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

A – Sério?

D – Fica susse, estou aposentado.

O Diabo falou isso dando um tapinha nas costas do apresentador, já sentando no sofá ao lado da longa mesa, ficando bem à vontade, com as pernas cruzadas, como se estivesse relaxado.

A- Te chamo de Lúcifer, mesmo?

D – Pode ser, mas só Diabo já está ótimo.

A – Ok, então, Diabo, conte aqui para a gente, o Elvis tá no Céu ou no Inferno?

D – Acredite, o Elvis não morreu. Não é porque vocês não veem que não existe. Vocês tem complexo de Tomé, olha eu aqui, muita gente não acreditava que eu existisse, agora uns até se converteram e hoje rezam de joelhos para não cruzarem comigo.

A – E o que aconteceria com eles se cruzassem com você?

D – Hoje em dia nada, larguei essa vida, tô de boa.

A – Mas e quem vai ficar no seu lugar lá no inferno? Quem vai torturar os pecadores?

D – Não sei e nem quero saber. Mas tem bastante candidato postulante, como o Ustra, por exemplo, que tem uma certa experiência no meu ofício.

A – Onde você está morando agora?

D – No momento estou hospedado na casa de um amigo no Boqueirão, mas já tô procurando um apê em Colombo, me sinto bem lá. Por algum motivo me sinto em casa.

A – E porque logo na região de Curitiba?

D – Cansei do calor, e vocês sempre diziam que aqui fazia um “frio do Djanho”, pois bem, eu vim. E convenhamos, muita coisa bizarra acontece por aqui. É uma cidade divertida.

A – Sei. Agora que encerrou sua carreira, avaliando todos esses milhares de anos em uma das funções mais importantes do Universo, o que você se arrepende de ter feito?

D – Hummm, deixa eu ver, acho que a Lambada foi um erro, não deu muito certo e a música acabava incomodando um pouco os ouvidos das pessoas, assim como a Banda Calypso. De onde você acha que vem o nome “Chimbinha”?

A – O que faz com que uma pessoa vá para o inferno?

D –Basicamente cometer pecados ou ficar enviando mensagens pelo WhatsApp, dando bom dia no grupo da família ou do trabalho.

A – E pornografia no grupo dos amigos é pecado?

D – Não.

A – Mas isso não faz sentido algum. Bom dia não pode, mas pornografia pode?

D – Qual deles é o mais chato?

A – É, acho que vou ter que concordar com isso. Mas afinal, o que realmente é pecado? Por exemplo, roubar é pecado?

D – Claro que é! No Brasil isso virou banal, brasileiro geralmente acha que não vai dar em nada. Teve uma vez que tive que punir um indivíduo que roubou um jumento e tentou fugir montado nele, foi preso 16 metros depois. Puni mais por causa da burrice do que pelo crime cometido.

A – E trair, é errado? Quem trai vai para o inferno?

D – É lógico! O pioneiro foi Judas, estou torturando ele até hoje.

A – Mas ele não se arrependeu? Não deveria ser perdoado?

D – O cara traiu Jesus, não a Ana Maria Braga. Se ligue!

A – Entendi, entendi…E Fazer bacanal, pode?

D – Se for bem organizado, pode.

A – Quem fuma maconha vai para o inferno?

D – Não! Quem disse isso? E outra coisa, essa história de “Cigarrinho do Diabo” é um erro, quem foi mesmo que criou as coisas da natureza? Hein? Hein?

A – E quem faz tatuagem, vai?

D – Se for daquelas verdes, de palhaço, feitas na cadeia, vai.

A – É verdade que você fez um pacto com a Xuxa? Dizem que ela fez um LP dedicado a você.

D – Não. Na verdade fiz o pacto com uma banda de rock de thrash metal. Quando tocamos o disco deles ao contrário, saiu a voz da Xuxa e as músicas que agora fazem parte do repertório dela.

A – Qual a tortura mais eficiente que você já aplicou?

D – Teve uma mulher que falava coisas horríveis dos outros, tão horríveis que nem vou citar aqui ao vivo, mas tive que inventar uma tortura especial para ela. Deu supercerto.

A – O quê você fez?

D – Fiz um looping. Cada vez que ela tenta falar algo de alguém, entra a voz do Faustão interrompendo ela.

A – O que você faz para as pessoas que não acreditam em você?

D – Eu, nada.

A – Ué, você não pune elas por não acreditarem em você?

D – Quem tem este costume aí é Deus.

A – Mas nem pessoas insistentes como o Padre Quevedo, que dizia que “demônios não existem”?

D – Intriga da oposição.

A – É verdade que você fez um seguro de vida?

D – Sim. Como eu disse, vou morar em Colombo.

A – Para finalizar, agora que você não é mais o diabo, o que você vai fazer da vida?

D – Vou abrir um escritório de advocacia. “Lúcifer e Advogados Associados”.

A – Bom, e com isso chegamos ao fim do programa (ouve-se um som de “aaaaahhhh” vindo da plateia que queria mais tempo de entrevista), estivemos aqui com ele, Lúcifer, o Diabo…

O Diabo interrompendo diz:

D – Espera, tenho um presente para você. Tó, estes são meus chifres, vão lhe caber direitinho.

O Cramunhao dá seus chifres nas mãos do apresentador.

A – Mas e porque eu usaria isso?

D – Pergunte para a sua mulher.

A – Ué, mas ela é puritana na cama e totalmente fiel a mim, confio plenamente nela.

Aí o Diabo levantou e saiu dando sua inconfundível gargalhada. Não adianta, a humanidade jamais vai aprender.

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