Pinguim sobre a vitrola - Jornal Plural
7 out 2021 - 8h45

Pinguim sobre a vitrola

No fim das contas, o diálogo prosaico me provocou uma epifania, revelando-me a estratégia com a qual seguirei abraçado nos próximos dez anos

Quando cheguei ao restaurante, ele já estava lá, sentado a uma mesa junto à parede. Eu tinha vinte e poucos anos, acabara de debutar no jornalismo profissional num jornal de interior e aquele seria meu primeiro almoço com uma fonte – um vereador combativo daquelas paragens. Era um tipo simples, mas eloquente, desses que se forjam na militância dos sindicatos. Recebeu-me com um sorriso, fez com que eu tomasse assento e após jogar dois dedos de prosa chamou o garçom pelo nome. Pediu o prato do dia – risoto acompanhado de um escalope de mignon, se não me falha a memória –, acrescentando recomendações sobre o ponto da carne. Antes de levar o pedido, o garçom perguntou se o ilustre conviva gostaria de “harmonizar a refeição com um vinho”.

– Pode ser… – respondeu o vereador, com certa casualidade.

– E o senhor prefere o vinho mais frutado ou mais amadeirado? – quis saber o garçom.

– Mais amadeirado. – tascou o parlamentar, de bate-pronto e em tom firme.

A convicção com que a minha fonte redarguiu me chamou a atenção. A uma primeira vista, eu apostaria que o nobre vereador preferiria um churrasco com cerveja ouvindo um sertanejão brabo, a um prato refinadinho à la carte, num restaurante metido à besta ao som ambiente de cool jazz. (Posteriormente, vim a saber que estava certo na minha avaliação preliminar). Ainda assim, o edil permanecia ali, todo polido em seu paletó cinza e cabelos engomados, tentando se fazer parecer natural. De forma sutil, manifestei meu estranhamento.

– Eu não sabia que o senhor entende de vinhos. – comentei.

– E não entendo. Mas, na vida, a gente não pode titubear. – cravou.

Ainda não sei bem o porquê, mas lembrei-me desse episódio no mês passado, às vésperas do meu aniversário de quarenta anos. Sempre imaginei que quando a data chegasse, eu daria uma festa, reuniria dezenas de amigos das mais diferentes esferas e talvez tomasse um porre homérico. Imaginei que automaticamente uma grande transformação se daria dentro de mim, dividindo minha história entre a.Q (antes dos Quarenta) e d.Q (depois dos Quarenta). Eu me tornaria mais responsável, mais sábio, menos bagunçado e quiçá até mais blasé. Para meu suplício, talvez até passasse a ser chamado de “senhor”, e não de “moço”, por vendedores, garçons e afins. Mas o dia seguinte veio e me senti o mesmo tipo esquisito, que anda por aí como se não tivesse lugar no mundo e que, por pura troça, mente que tem trinta e três anos (e que revela a idade real, em seguida – registre-se).

Não fiz o movimento que seria senso comum, de tentar me imaginar daqui a dez anos – talvez porque em tempos em que o bolsonarismo desencavou o pior da humanidade seja no mínimo esquisito se pôr a mirar o futuro. Mas, ao contrário, olhei em retrospecto, me debruçando sobre uma década atrás. Ainda havia um entusiasmo geral, como se o Brasil pudesse reparar erros históricos e, quem sabe, dar certo. Enquanto isso, as pessoas ocupavam os espaços públicos, como se estivéssemos ostentando nossa cidadania. No plano pessoal, no entanto, eu seguia errando aqui, ali e acolá. OK, vá lá: talvez se me fosse dado escolher, eu erraria novamente. Foi, no entanto, inevitável recordar de uma entrevista que vi, tempos atrás, de Rubem Alves: “Eu sou o produto dos meus fracassos”, sentenciou o velho escriba. Vai ver, é um fenômeno universal. Tudo segue mais ou menos como antes.

Num desses dias em que estava metido nessas reflexões e ouvindo Cartola, na expectativa de que o imenso Angenor me desse pistas, fiz uma postagem em uma rede social. A foto mostrava a minha vitrola – um modelo antigo, de 1952 –, sobre a qual jaz um pinguim de gesso, à guisa de adorno. Rosana, uma amiga de quase duas décadas, apontou a incongruência da composição:

– Pinguim não tinha que estar na geladeira? Não tem muita lógica – disse.

– Pouca coisa na vida tem – respondi, disposto a não dar o braço a torcer.

– Certíssimo – concordou a boa amiga.

– Ou erradíssimo, o que é mais provável – ponderei.

– É só acreditar e ir até o fim. Fingindo saber o que não se faz ideia.

No fim das contas, o diálogo prosaico me provocou uma epifania, revelando-me a estratégia com a qual seguirei abraçado nos próximos dez anos. Em primeiro lugar, declaro para os devidos fins que vou continuar a colocar pinguins sobre as vitrolas da vida. Se alguém me questionar, comprovando que não há sentido, hei de aplicar a velha tática do vereador: responder sem pestanejar. “Na vida, a gente não pode titubear”. Já estou até vendo. Vai dar super certo. Ou não…

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