O mercado das emoções - Jornal Plural
6 out 2021 - 8h45

O mercado das emoções

Gostaria de olhar o rio sem pensar em nada específico, divagando a esmo

O sol de outono tremula sobre as águas do Tejo, produzindo um efeito de escamas douradas em sua pele semovente.  

– Uma pessoa pode viver a maior parte da vida de emoções industrializadas. Isso acontece cada vez mais. Principalmente com aqueles que têm dinheiro para comprá-las à vontade, diz meu amigo.

O rio-serpente desliza pelo Cais de Alcântara, passa sob a ponte 25 de Abril e abre a boca para o sorvedouro maior do mar.

Meu amigo e eu estamos num dos bares para turistas à margem das docas.

O ambiente é clean, ou seja, anódino. O tipo do lugar em que jovens descolados fazem a vez dos velhos garçons eficientes das tascas tradicionais. Um desses jovens, tatuado, de bermuda e camisa hipsters, acaba de levar à mesa errada uma caríssima e inexpressiva sandes de rúcula e queijo de búfala. Bebemos imperiais a dois euros, quando poderíamos beber a um, em alguma birosca antiga de calorosa atmosfera decadente. Resolvemos fazê-lo pelo simples prazer de ver os veleiros singrando ao sol.

Europeus do norte e do leste, japoneses, norte-americanos, brasileiros, espanhóis, quase todos usando roupas e tênis de marca, desfilam pelo passeio das docas, param à nossa frente para tirar selfies idênticas (as caretas risonhas, a ponte ao fundo).

– Então eles inventam as emoções, digo, meio aéreo, enrolando um cigarro.

Eles propriamente não. O mercado faz isso por eles. Há emoções para todos os gostos no comércio. Por exemplo esta aí, de viajar para as mesmas cidades abarrotadas de turistas, buscando na internet alguma informação sobre elas… coisas como “o Mosteiro dos Jerônimos é um ponto culminante da arquitetura manuelina”. Pronto, deu. O resto é comer bacalhau e tomar porres de vinho. As emoções não podem ser profundas, é uma lei do mercado. Quanto mais superficiais, mais descartáveis, o que contribui significativamente para aumentar seu consumo.

Tenho que abrir um sorriso irônico, embora neste momento o sarcasmo habitual do meu amigo me canse um pouco. Gostaria de olhar o rio sem pensar em nada específico, divagando a esmo. Mas ele preme as pernas cruzadas, beberica a imperial e saboreia o travo mais amargo das ideias:

– É claro que a coisa não se limita à compra de entretenimento, que é só a batata frita. Há emoções de um sabor rico e complexo como caviar beluga.

Ele então, enquanto o sol recobre de sangue as velas de um catamarã, arrola uma breve lista.

Formar-se numa boa faculdade da elite, por exemplo, em algum curso da moda. Isso não dará à pessoa identificação nenhuma com o que faz, explica; a dose necessária de superficialidade está garantida. Mas, com um diploma e um grupo de amigos reluzentes, a criatura certamente logrará fruir os fortes prazeres de andar por cima da carne seca, num Audi ou, se tudo der muito certo, numa Masserati. E poderá, casado/a com a pessoa certa, consumir mulheres e/ou homens wannabe lindos e/ou lindas, que por sua vez o/a consumirão, num frenesi estonteante que ocupa, sem transbordamentos afetivos, o lugar das emoções laboriosas do amor e da solidão.

Ele ergue o dedo, pede mais duas imperiais a uma jovem tatuada com franja de demente. Volta-se para mim, faz com a mão direita o gesto de quem descarta mais uma possibilidade.

– É possível também comprar um futuro imagético, um delírio narcísico de espelhos.

Para isso, conta-me, um caminho é associar-se ao YouTube virando um youtuber com centenas de milhares de likes. Aqui não é necessária a faculdade; basta abastecer-se de um grande arsenal de informações mais ou menos rasas e falar obsessivamente, envolto numa aura de grande sinceridade mundana, sobre algum tema de nicho, o que quer dizer algum setor muito frequentado pela insônia mundial provocada pela internet. Claro, é preciso carisma e eloquência, coisas que hoje em dia sempre andam juntas. Trabalha-se como um cavalo, há ataques de hackers e opositores, mas a emoção de ser famoso é um dos melhores absintos do mercado.

Meu amigo me fala de mais alguns substitutos perfeitos para as emoções verdadeiras, que costumam ser mais lentas, fundas e despertam indesejáveis reflexões nos indivíduos. Menciona a pornografia e o ativismo político virtuais, formas de conquistar, sem a exaustão de um esforço físico nas ruas, a sublimação da fúria corporal e uma consciência tranquila. Recorda os filmes de ação, a tantalizante vitória da justiça, cujo motor é a violência extrema (“desde que destrua o vilão, a ambiguidade adulta do self, não importa que você exploda duzentas pessoas tontas no caminho”, ele diz). Isso o leva aos games, que dão às crianças os mesmos revólveres de espoleta de antigamente, mas agora (ufa!) livres da imaginação barulhenta, em silêncio submisso de claustro.

Replico, um pouco hesitante, mas atravessado por um certo fastio de seu ceticismo, que a coisa toda não pode ser resumida assim.

– Sempre haverá emoções verdadeiras.

Minha frase fica no ar como frase publicitária puxada por avião monomotor.

Meu amigo pede a conta.

– Sem dúvida, sem dúvida.

Antes de nos despedirmos, ele me diz que, dali a dois dias, voltará para a China, a “nova fábrica”.

Vejo-o afastar-se, meio corcunda, com seu paletó cinza de eterno demissionário próspero.

Um casal de namorados passa por mim num patinete elétrico, e eu digo para as águas, cada vez mais escuras, que o vento em nosso rosto é real.

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