4 nov 2021 - 8h45

Pé na areia

A prosa fluiu como se tivéssemos nos visto dois ou três dias antes e como se tudo fizesse pleno sentido

Com a praticidade vivaz de quem criou sete filhos, a vó Inês desatou os cadarços de minhas botinhas de couro, livrando meus pés dos incômodos – e inseparáveis – calçados. À beira da área em que ficava o gira-gira – o brinquedo do parquinho de que eu mais gostava –, olhei para o chão de areia e perguntei: “Posso, vó?”, fazendo menção de pisar os grânulos. Ora, pisar a areia… Que bobagem! Sim, poderia parecer banal para qualquer criança, mas não para mim, que, com os pés ligeiramente tortos, passei meses e meses preso a botas ortopédicas. Aos cinco anos, eram raríssimas as vezes em que me era dado tatear o solo com a sola descalçada.

“Pode, sim”, assentiu a vó. Fui aos poucos, tentando degustar ao máximo a sensação provocada pelo contato de cada grãozinho com a pele tão acostumada ao claustro dos sapatos que corrigiam minha pisada. Quando, enfim, tive os dois pés metidos na areia, gargalhei um riso desatado, desses de que só as crianças são capazes. Hoje, não sei se as imagens são fruto de minha própria lembrança ou se se formaram a partir dos relatos de minha avó – que cumpria o papel de guardiã da memória da família. Fato é que a historieta se deu mais ou menos assim e revela que a fronteira entre o extraordinário e o prosaico depende das circunstâncias e da vivência de cada um. Até hoje, quando me recordo da passagem, solto o mesmo riso pueril. Mais ou pouco e eu seria capaz de sentir os pés na areia.

A história me veio às ideias dias atrás, quando saí para celebrar o aniversário da Tai, a quem eu não via desde antes do início da peste e que estava de passagem pela cidade. Optamos por um botequinho pé-sujo, desses em que os clientes ficam ao ar livre, do lado de fora. Sentamo-nos à sarjeta, com o Allan e a Elisa (e, posteriormente, com a Helô), compartilhando um litrão de cerveja pilsen em copos de plástico, como convém. A prosa fluiu como se tivéssemos nos visto dois ou três dias antes e como se tudo fizesse pleno sentido. De quando em quando, no entanto, um arrepio me corria pela a espinha, quando as máscaras me traziam de volta para o contexto inegável: ainda estamos em uma pandemia, puxa vida.

Enquanto eu voltava para casa, mais de uma hora da manhã, ponderei sopesando cada variável, mas sem chegar a conclusão definitiva. Embora estivéssemos com a segunda dose da vacina em dia e as curvas de novos casos e de mortes estivessem em queda abrupta, a sombra dos mais de 600 mil mortos (entre os quais, minha tia Andréia e o primo Roberto) se impunha de forma quase palpável. Foi, é claro, sublime rever os amigos sem a interface de uma tela e conversar sobre quaisquer amenidades, mas, vez ou outra, sobrevinha certo mal-estar, como se não soubéssemos muito bem o que fazer com as próprias mãos ou se sentíssemos um tanto de vergonha por estarmos ali, celebrando em um período ainda obscuro.

Dias adiante, também me lembrei da passagem do “pé na areia”, enquanto vestia as luvas de boxe pela primeira vez em mais de um ano e meio. Pois é. Apesar dos pesares, resolvi voltar aos treinos da “nobre arte”, agora com a máscara incorporada como item de material esportivo e tão importante quanto os protetores bucais. Feito um carro a álcool da década de oitenta, custei a aquecer e quando, por fim, me espertei, não fui capaz de aguentar mais do que quatro rounds, ainda que tivesse conduzido o combate de forma branda, mais mantendo o oponente à distância, com jabs insossos. Tomei um cruzado, mas acertei um direto, saboreando as dores e delícias do ringue – tão contraditórias quanto o próprio momento histórico. De um lado, podia sentir as partículas de endorfina passeando pela minha corrente sanguínea, comprovando o quanto a prática esportiva me fazia falta. De outro, o gosto esquisito das incertezas e a paúra da peste permaneciam na boca, como se eu tivesse sido acertado em cheio por um direto na ponta do queixo.

É isso. Meses e meses depois de a pandemia ter começado a assolar o país – com o agravante de estarmos à mercê do pior governo da História –, encontro-me perdido entre essas contradições tão heterogêneas quanto água e areia. Talvez você também esteja e me entenda. Não sei bem, mas percebo-me um pouco como quem tenta se descalçar, após uma temporada aperreado pelas botas ortopédicas. Talvez seja ocasião de ir devagarinho: tatear o solo aos poucos e ver no que dá. Se for caso, recuar. Mas com o mínimo de bom senso e segurança, minha gana é, aos poucos, enfiar o pé na areia.

PS: Ao Sandovas, meu vizinho neste Plural: quiçá possamos marcar aquele conhaque em breve?

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