O morto da marquise | Plural
5 jul 2019 - 6h00

O morto da marquise

Felippe Aníbal conta sobre a primeira vez que viu alguém partir desta vida

Meia dúzia de pessoas se postavam em um semicírculo sob a marquise de supermercado, um pouco adiante da ambulância do Samu, atravessada sobre a calçada e com uma das portas abertas. Desacelerei a bicicleta e me acheguei aos poucos, pé ante pé, como quem não quer incomodar – e, talvez, como quem se envergonha da própria curiosidade. De canto, vi o socorrista que suava em bicas dentro do macacão azul-marinho, mantendo compressões contínuas sobre o peito do homem corpulento, que jazia estirado no chão, em decúbito dorsal. Entre os populares, um sujeito esquálido de meia idade, que permanecia acocorado e de olhos vidrados na cena, foi o primeiro a vaticinar, balançando a cabeça com gravidade: “Não vai dar. Foi ataque do coração”.

“Você conhece?”, alguém perguntou. “É meu amigo. A gente tá no trecho”, respondeu o magricela, colocando-se em pé e passando a andar de um lado a outro, entre atônito e pesaroso. Fixei atenção no homenzarrão desfalecido, cujo tórax oscilava ao ritmo dos movimentos repetitivos da massagem cardíaca aplicada pelo paramédico, que, concentrado, não dava mostras de desistir. De quando em quando, parava e pressionava os dedos indicador e médio contra o pescoço da vítima, a fim de constatar se tinha pulsação. Na terceira ou quarta vez, animou-se. “Acho que ele tá voltando”, anunciou, retomando o ato de espalmar as mãos sobre o plexo do desconhecido, qual se quisesse puxá-lo de volta ao lado de cá.

Por um instante, agarrei-me àquele fiapo de esperança, como se torcesse com todas as forças pela vida daquele pobre-diabo. O peito do paciente desconhecido subia e descia, como se ameaçasse voltar a trabalhar por si – “feito um motor a álcool, que precisa se aquecer no inverno, antes de engrenar”, pensei. Eram, no entanto, meros reflexos involuntários ante a ação do socorrista. Desviei o olhar para os pés descalços do sujeito, já tingidos de uma palidez insossa. A boca, por sua vez, já apresentava aquela coloração violácea, que prenuncia a morte. Adiante, o rapaz do Samu se virou, exausto, e vociferou entre os lábios, como a quem amarga uma derrota vexaminosa. “Não deu. Acabou…”

O amigo se aproximou e, com modos nobres, pousou a mão sobre o ombro do socorrista e o agradeceu: “Obrigado, doutor”. Ato contínuo, fez o sinal da cruz diante do finado e balançou a cabeça, como se se conformasse com o fim. Com certa dignidade, arcou o corpo magro, alcançou os chinelos do morto e os depositou cheio de cuidados junto a uma mochila, ao lado da qual havia uma carteira e um moletom – provavelmente, o espólio do finado. “É… a vida é um supro”, disse. Ante o clichê, um a um, os espectadores deram aquele espetáculo mórbido por encerrado e foram se dispersando, alguns com semblantes lamentosos, outros nem tanto.

Enquanto pedalava de volta, veio-me à tona o primeiro contato que tive com a morte. Eu devia ter uns quatro anos e havia sido levado pela avó Inês a um sepultamento. Guardei apenas um flashes do episódio. Lembro-me que assim que desceram o caixão, algumas crianças pegavam punhados de terra e atiravam cova adentro, como se se divertissem. Quis me juntar a elas, mas a vó não deixou. “Tem que respeitar a morte”, disse. Quando nos dirigíamos à saída, topamos com entulhos de um túmulo em reforma. Encantei-me com um pedaço de mármore negro e quis levá-lo comigo, mas dona Inês não deixou. “Deixe isso aí. Não presta levar coisa de cemitério pra casa”, ordenou. Não me recordo, mas devo ter voltado contrariado. Criança não é dada a entender desses meandros da morte.

Algumas quadras à frente, passei em retrospecto os dois anos em que exerci o ofício de repórter policial (ou repórter de ronda), no qual me vi obrigado a conviver com “a indesejável das gentes”. A rotina incluía a cobertura em “locais de morte”, onde nos deparávamos com cadáveres de toda sorte, vitimados de todas as formas que se possa imaginar. No início, eu me impressionava. Com o tempo, no entanto, a gente tende a naturalizar tudo. Acabei por adquirir uma carapaça que ajudava a me manter impassível ante o sangue, defuntos ainda quentes e todos os elementos que assassinatos, acidentes e afins trazem a reboque. Só em casa, mais tarde, é que eu ia acusar, de fato, o golpe.

Quando cheguei em casa, minha mãe – que, então, me visitava – estava lidando com as coisas de cozinha. Ainda cismado, contei-lhe:

– Vi um cara morrer agorinha.

– Nossa! Quem?

– Morador de rua. Parece que teve um infarto…

– Puxa, que dó! Esse povo é sofrido.

Só então me dei conta de que era a primeira vez que eu presenciava o instante exato em que alguém morria. Permaneci um tempinho ali, parado, como se assimilasse a história. Logo, no entanto, peguei uma faca e me pus a fatiar legumes, juntando-me à mãe nos preparativos do almoço. Mudamos completamente o rumo da prosa, fazendo planos para o fim de semana. Era sábado e através da janela via-se um céu sem nuvens. Aos poucos, esqueci-me do finado. Como na poesia do Bandeira, estávamos voltados para a vida, absortos na vida, confiantes na vida.

 

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