27 jul 2021 - 8h15

A lenda do nevoeiro do aeroporto Afonso Pena

O “trunfo de guerra” que só existe na imaginário do curitibano

“O aeroporto Afonso Pena está fechado para pousos e decolagens”, “A neblina fechou o aeroporto”, “O Afonso Pena foi construído ali como trunfo de guerra”, “O nevoeiro camuflaria o aeroporto contra os aviões inimigos”. Se você nasceu e cresceu em Curitiba, é bastante provável que já tenha ouvido alguma ou algumas dessas frases, ou ainda suas variações. É quase como um mantra do curitibano.

Gosto especialmente dessa de que o aeroporto Afonso Pena foi construído naquela região de São José dos Pinhais para que a neblina escondesse as instalações durante a Segunda Guerra Mundial. Gosto ainda mais quando fazem o adendo de que isso foi coisa dos Estados Unidos, porque foram eles que construíram o aeroporto.

Eu admito que essas afirmações têm lá seu grau de suspense e um charme todo especial, afinal são coisas assim que diferenciariam o nosso aeroporto dos outros. Só que vou precisar ser inconveniente, chato e um estraga-prazeres. Desculpe-me.

Não, o aeroporto Afonso Pena não foi construído ali para que os nevoeiros comuns na região fossem usados como camuflagem para que aviões inimigos do Brasil e dos EUA não avistassem o aeroporto. Ah, e não foram os americanos que levantaram o aeroporto.

É justo, então, que eu argumente. Pois bem. A Segunda Guerra Mundial começou em 1939, mas o Brasil entrou no conflito somente em 1942. E antes disso já se falava em um novo aeroporto na região de Curitiba, porque o Bacacheri não dava mais conta em termos de conforto e infraestrutura.

Um decreto-lei do então presidente Getúlio Vargas, de 12 de novembro de 1940, pedia a desapropriação de uma área onde hoje fica a Academia da Polícia Militar, no Guatupê, um local onde os nevoeiros também costumam aparecer com força. O objetivo era construir um novo aeroporto para uso civil, sem nenhuma menção a questões militares, mesmo com a guerra já rolando. O decreto ia assim:

“O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o artigo 180 da Constituição,

DECRETA:

     Artigo único. Fica o Departamento de Aeronáutica Civil autorizado a adquirir o terreno pertencente a Vicente Luiz Pereira, sua mulher Benedicta Alves Pereira, filhos e enteados, medindo 15.100.800 metros quadrados, representado na planta que com este baixa, rubricada pelo Diretor de Contabilidade da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas, necessário à construção do Aeroporto de Curitiba, Estado do Paraná.”

A família do seu Vicente Luiz Pereira e da dona Benedicta Alves Pereira ficaram com o terreno porque faltou grana para tocar o empreendimento.

Depois que o Brasil entrou na guerra, aí sim o dinheiro apareceu. Só que os planos mudaram e o Ministério da Aeronáutica – agora sim os militares entraram na questão – decidiu por um novo local, que fosse plano, estivesse mais alto do que os arredores e que permitisse a construção de duas pistas direcionadas para os ventos predominantes. E a região que permitia isso foi a Colônia Afonso Pena.

Ok, agora vão dizer que como a ideia era construir um aeroporto para uso militar, faria sentido a história do nevoeiro. Essa é fácil de derrubar. Primeiro que no Guatupê o problema era semelhante. E depois, o inimigo poderia não ver o aeroporto em dias de nevoeiro, verdade. Mas que tal aviões saírem para uma missão e não conseguirem encontrar o aeroporto na volta? Onde está a lógica disso?

Vale lembrar que na época não havia tecnologia tão avançada que permitisse pousos com baixa visibilidade, como hoje tem o tão falado ILS e afins. Seria quase como sair em uma missão suicida.

E o esquema dos Estados Unidos? Eles que construíram o aeroporto, então faria sentido, certo? Não, eles não construíram o Afonso Pena. O empreendimento, que foi levantado entre abril de 1944 e maio de 1945, era de responsabilidade do então Ministério da Aeronáutica. Ou seja, o governo brasileiro que pagou e executou a obra.

Como ainda o mundo estava em guerra, os americanos deram uma ajudada, é fato, mas apenas como consultores. Alguns oficiais do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA vieram para Curitiba para trabalharem juntos dos engenheiros brasileiros. E só. Nada mais do que isso.

No fim, o aeroporto Afonso Pena foi erguido em um ótimo terreno para um aeroporto, mas péssimo para pousar em dias de nevoeiro. Mas para resolver esse problema, só se Curitiba não estivesse em Curitiba.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “A lenda do nevoeiro do aeroporto Afonso Pena

  1. Porque não podemos melhorar as condições do Afonso Pena. Então países com neve não pousava e não aterrissava.
    Com Greca que nós temos DNA europeu ele não pensou que não instrumentação para pouso e calefação nas casas. Como podemos, nós curitibanos melhorar esta situação. E não é porque é inverno no verão Curitiba não tem teto.

  2. Muito bom. Adorei a explicação. Sou Curitibana e acho ótimo poder entender um pouquinho mais sobre nossa história econstruções.

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