As cores da depressão | Jornal Plural
2 jul 2020 - 18h03

As cores da depressão

Entre disfarces e talentos, o distúrbio mata sem culpa

Com a força de espessas camadas de tinta, o pintor russo Nicolas de Stäel (1914 – 1955) contribuiu para redefinir a pintura expressionista abstrata, elevando-a a um nível de autenticidade conceitual e técnica digna de um novo mestre. O pintor sofria de transtorno de ansiedade acompanhado de severa depressão desde muito jovem, sendo a pintura o esteio psíquico que o permitiu explorar a complexidade de seu pensamento.

Órfão aos 8 anos, sobreviveu às duas guerras mundiais, e a muitas faltas básicas. A duras penas, Stäel conseguiu estudar arquitetura e design de interiores, um feito sem dúvida para um jovem imigrante russo, numa Bélgica francófona onde residia nessa época da vida. Com todas as desventuras, ainda sim, o seu amor pelo belo não foi destruído.

“Minha paixão é apreender uma coisa maravilhosa que ocorre em uma fração de segundo”, disse Stäel.

Das pinturas com cores sombrias no início da profissão (mas sem a tristeza que sua depressão poderia impor), ao sublime colorista que roubou a cena artística europeia e americana no início dos anos 50. Stäel estava no auge de performance quando se suicida aos 41 anos, em 1955, na cidade de Antibes, litoral francês.

Viver em Antibes sozinho foi uma tentativa de minimizar os efeitos cada vez mais devastadores de seu transtorno de ansiedade e depressão. Sua esposa e seus quatro filhos não o acompanharam dessa vez. Sua patologia já atingira a insuportabilidade.

Nos últimos três anos de sua vida, o pintor é um ser obsessivo, produzindo mais de 700 quadros entre 1953 e 1955. Era um sucesso comercial, de crítica e público. Sem os remédios e terapia, a ansiedade deu força à depressão que esvaziou lentamente sua vida de sentido. Nem a cor, nem a família, nem o sucesso, nem o sol, nada segurou esse homem na vida.

“Durante toda a minha vida, tive a necessidade de pensar em pintura. Pintar para me libertar de todas as impressões, sentimentos e ansiedades. A única solução era pintar”, disse Stäel. Mal sabia ele que talento e tinta não curam, nem suavizam a depressão. Pelo contrário, pode até mesmo fortalecer o monstro. Arte não salva, ela mostra, elucida quem você realmente é.

Depressão é a absoluta solidão que corrói o indivíduo. Como um buraco negro, ela suga a luz que produz as cores da vida em direção a um nada sem fim. Ela erradica o belo, a beleza, deformando as emoções.

Mais uma vez, sem apoio medicamentoso e terapêutico, a desestrutura química cerebral soma-se às dolorosas lembranças do seu passado. No romantismo, seria chamado de melancolia, “as dores de sua alma”.

Um genuíno artista profissional necessita de solidão para executar seu trabalho com consistência. Para os não familiarizados com as expressões artísticas, é visto como se estivesse em mundo à parte. Entre erros e acertos, acessa com facilidade seu pensamento abstrato, intensificando a relação de sua cognição com o mais profundo interior do seu ser. Vivenciando o estado de limbo intermitente que a patologia produz, Stäel extraiu do seu inconsciente o máximo que conseguiu comunicar. Artistas como ele não existirão mais. Eles pertencem a um século de descobertas pragmáticas e sensoriais, que como tudo, foi assimilado por todos nós, mesmo que de forma reducionista.

Em 1937, Staël escreveu uma carta a seu amigo, o poeta René Char, com uma previsão, “minha vida será uma viagem contínua em um mar incerto”. Marcado pelo sentimento de perda desde a infância, bebia e fumava em excesso; uma clássica parceria que nada favorece os ansiosos e depressivos. Buscando alívios fugazes, acessíveis e prazerosas que dificultam a aceitação por parte da pessoa de suas doenças psiquiátricas. Essas escapatórias demandavam cada vez mais uso de substâncias alcoólicas e tabaco, que anestesiavam paulatinamente por menos tempo o desconforto. Entre tintas, telas e doses crescentes de atitudes de destruição, a roda da morte já estava girando para Stäel.

“A dor é a primeira experiência de desamparo no mundo, e ela nunca nos deixa. Com uma fé religiosa ou não, a depressão se mostra um dos grandes testes da crença que a vida tem seu valor”, escreveu Andrew Solomon, em seu livro O Demônio do Meio-Dia.

Na mesma carta ao amigo, o pintor explica que suas angústias, frutos de constantes reminiscências doloridas, o obrigaram à opção pela reclusão social. “Só confio em mim mesmo, porque não confio em ninguém.” Com essa afirmação de possuir uma garantia de proteção apenas consigo mesmo, Nicolas de Staël testemunha para nós sua psicose, que o obriga a fazer-se de si mesmo um verdadeiro impulso à criação. 

A agonia de um artista que aprecia o belo, tem sua causa na constatação que ele (o belo) é transitório, finito. Freud considerou que o medo da perda, faz com que o poeta introjecte o objeto de amor e veneração (a pintura), se misturando com ele. Assim, num genuíno amalgama, ele se entrega psiquicamente à transitoriedade do belo, e a força da imperfeição da natureza cumpri sua parte.

Sua melancolia era uma eterna ausência de si, uma suspensão progressiva da capacidade de se amar, uma perda do “eu”.

A celebração tardia de seu trabalho o extenuou psicologicamente. Ela promoveu um conflito entre o homem que deseja reclusão, em contraposição ao pintor assediado por todos. Sem acompanhamento psiquiátrico nem terapêutico, Stäel entrou em psicose, e nem a cor, a família, o sucesso, o sol.… Nada segurou sua pulsão de morte.

“Leva tempo para um edifício com estrutura oxidada desmoronar, mas a ferrugem está incessantemente transformando o sólido em pó, afinando-o, eviscerando-o”, escreveu Andrew Solomon.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil em 2019, 12 milhões de pessoas tinham depressão. É coerente pensar que esse número seja muito maior, pois ele se baseia em registros de clínicas, hospitais e postos de saúde. É factível afirmar que uma outra massa de gente que possui a doença não a assume, até mesmo por desconhecê-la, nesse sentido não procura tratamento. A ignorância do portador (e de familiares e amigos), não aceitando que algo está muito errado em sua forma de lidar com a vida (seja no comportamento, nas emoções) dificulta e muito seu cotidiano, e do entorno, em curto e longo prazo.

 O tabu acerca da ação suicidária é frequente, seja do ponto de vista moral, seja religioso. Ocorre quem nem todo deprimido se suicida, porém a ideação suicida é frequente. Tomado por essa patologia, o indivíduo tende a achar no fim, na morte, a atenuação da agonia.  A intenção do suicida, que fique claro, é sua intenção em frear a imensurável dor psicológica e não sua existência como indivíduo.

Stäel já não poderia ter escolhido viver, a patologia tinha tomado todo seu ser.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Últimas Notícias