Além do sangue de Taxi Driver | Jornal Plural
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21 ago 2020 - 19h23

Além do sangue de Taxi Driver

Como um roteiro brilhante fez de um pequeno filme uma obra prima do século 20

Completando 44 anos de vida, sem perder sua força e significância, Taxi Driver (1976 – Martin Scorsese) é uma obra perturbadora, portanto inesquecível. A história criada por Paul Schrader convida o espectador a observar a decadência de uma cidade (NY) pelos olhos de um jovem rapaz na década de 1970. A partir dessa premissa estrutural, o roteirista construirá a complexidade de Travis Brickle (Robert De Niro), o personagem principal.

Schrader foi muito feliz na sua audácia de escrever a história de um “personagem só”: tudo que se vê no filme é o que Brickle deseja que vejamos. Nos transforma em reféns de sua crescente instabilidade.

O filme transpassa a seara cinematográfica, mérito ao seu roteiro que possibilita as mais diversas interpretações psicológicas e psicanalíticas. Quando um trabalho fílmico se afirma no universo intelectual dos conceitos, signos e de relações com outros saberes, torna-se uma referência atemporal de estudo.

A história se desenvolve (bem resumidamente) em 4 atos, cada qual numa crescente exposição dos sintomas e patologias que o jovem Travis Brickle carrega.

1.° Ato

Não conhecemos nada do passado de Brickle, a não ser que ele serviu no Vietnã. Ele é um jovem calado, insone, solitário, morando em um apartamento sujo (permanecendo assim durante todo o filme). Um homem sem lugar, dissociado dos acontecimentos da cidade numa apatia crônica.

Sua vida se restringe a trabalhar como motorista de táxi na noite, ficar sozinho em casa, e frequentar cinemas pornôs nas horas vagas. O roteiro deixa muito claro que a vida do personagem principal é uma repetição do “sem sentido”, tão desinteressante quanto ele. Seu oposto radical é a Noite, uma entidade que exibe sua decadência, odores, cores, sons, depravação… vida.

O jovem taxista nada conhece além da janela do carro que dirige.

2.° Ato

Betsy (Cybill Sheppard) e Travis.

Uma tentativa idílica de viver o amor clássico dá início ao segundo momento do filme. O solitário Travis flerta com a angelical Betsy, numa idealização de união que se mostra improvável de acontecer. Betsy é uma mulher branca, bonita, se veste com decência e trabalha para um homem poderoso. Ela é a mulher “perfeita para casar” na idealização de Brickle. Seu despreparo afetivo põe tudo a perder. Tomado pela raiva da rejeição (e não entendendo seus motivos), ele se desorganiza emocionalmente, alterando o equilíbrio de seu aparelho psíquico, dando início às manifestações de psicose.

Jovem, solitário, traumatizado, deslocado socialmente, e agora, objeto de repulsa e medo pela mulher que desejou… O despertar para a destruição, para sua pulsão de morte é inevitável.

3.° Ato

Desse ponto em diante, as questões psíquicas e psiquiátricas do personagem ditam a narrativa, e começamos a entender com mais substância sua estrutura psíquica. Só existe o presente para Travis, não há menção de passado. Não há raiz, aterramento. Como taxi driver, ele vê a vida sempre em movimento, por intermédio de um não lugar, que é o automóvel. Com certeza a guerra foi traumática (como tem de ser), entretanto a apatia libidinal (possivelmente) é pregressa a esse acontecimento.

Justificativa: pois se tivesse vivido situações referenciais de afeto ou erotismo, estaria voltado a procurar recuperá-los na vida, e não é isso que se vê no filme. Tem-se a percepção que ele não diferencia pornografia de afeto, ou vê na atuação externa do outro, essa possibilidade de viver com a pessoa, em estado estático, o movimento que vê na tela

A rejeição feminina é impossível de suportar, sendo impossível administrar a emoção negativa que isso lhe causou. Como resultado, a evacuação dessa ira é transmutada em violência física, demonstrando que houve uma falta do amor primordial (mãe). O amor imaginado por Travis é um ódio, até então recalcado em seu inconsciente.

Sua tentativa de ter uma vida “normal” fracassou, sendo assim, assume a força da sua pulsão de morte e sente prazer com ela. O objetivo agora não é conquistar um amor, e sim, destruir o objeto que é admirado pela pessoa que rejeitou o seu amor (idealizado). Ele deseja assassinar o político para qual Betsy trabalha. Tânatos irá colocar a magnitude necessária para obter sua satisfação.

Um rito de passagem é feito para executar a destruição do objeto de desejo do outro. Numa regressão infantil, ele brinca com um revolver no espelho (cowboy), e logo em seguida se apropria da identidade de seu antagonista (índio), que na sua origem possui uma raiz tão antiga quanto o seu ódio. Travis raspa a cabeça e assume um penteado tribal ameríndio (moicano – signo de resistência) finalizando seu rito do “antiguerreiro psicótico”.

Infelizmente para Travis, sua tentativa de assassinato foi frustrada. Seu complexo de Édipo permanecerá insolúvel.

4.° Ato

Paul-Schrader-Martin-Scorsese-e-Robert-De-Niro.

A hora da catarse. Duplamente frustrado, Travis parte para a sua “redenção”. Não mais atacará a sociedade, agora é o momento de reabilitá-la, executando cafetões e “libertando” a prostituta adolescente “Easy” (Jodie Foster) do círculo do sexo e drogas.

Em cores renascentista, o taxi driver mergulha em seu ódio. Sua apatia desaparece, bem como sua inexpressividade social. Pela primeira vez detém o poder que pode modificar a vida das pessoas. Ele não conseguiu modificar nada indo para a guerra. Também não conseguiu nada pela palavra, nem pelo afeto, restando matar a escória como um justiceiro.

Paul Schrader criou uma história desoladora, sem rodeios, brilhante, fazendo de Taxi Driver um filme referência e atemporal.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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