Dia 84 - A folgada do vinte e quatro | Jornal Plural
Clube Kotter
11 jun 2020 - 0h00

Dia 84 – A folgada do vinte e quatro

Eu inocentemente tocando minha vida enquanto o meio-ódio da casa lateral observava a fresca do vinte e quatro que observava meu carro parado de forma irregular

Um homem bateu em minha porta e eu abri, não sem antes desconfiar de que podia ser o vírus adotando uma nova tática para me contaminar. Mas o bom senso e uma segunda batida me fizeram repensar. Era o zelador do condomínio me orientando a mover meu carro, estacionado irregularmente diante de uma guia amarela.

Que vexame. Eu, que sempre fui um condômino exemplar, fazendo um papelão diante desse senhor tão gentil que zela pelo condomínio – dava para ver o constrangimento em sua expressão.

É um cantinho inútil, no fim da rua, não há trânsito: deve ser alguma regra nova, dessas que são decididas sem pensar muito em reunião de moradores. Mas regras são regras e eu sei que se eu quiser mudá-las terei que participar da próxima assembleia do condomínio, o que não acontecerá nem que o exército apareça aqui e me obrigue.

Fui até o veículo e o trouxe de volta à minha garagem, uma viagem de aproximadamente quatro segundos: foi tempo suficiente para que outro vizinho se aproximasse:

– Opa, mandaram você tirar o carro?

Que rapaz arguto. Um vizinho que, confesso, não lembro de ter visto antes na vida. Aparentemente mora a duas casas de mim e aproveitou para forçar um pouco de sociabilidade em minha alma a cada dia mais afeita à reclusão.

Olhei para ele e percebi que o moço, sem máscara, carregava no colo uma criança e no olhar uma expressão meio de ódio, meio de tédio. Confirmei seu chute: mandaram, sim, parece que não pode parar ali.

– Foi aquela folgada do vinte e quatro que te dedurou para o zelador.

Pronto. Tudo o que me faltava agora era ser envolvido em uma rede de intrigas. Eu nem estava chateado de mover o carro para o lugar certo.

– É uma gaúcha cheia de frescura.

Ah, não, gaúcha não… minha mãe é gaúcha, o que naturalmente me faz ter grande apreço pelo belo estado do Rio Grande do Sul, cheio de caudilhos, rios guaíbas, theatros são pedros, bandas boas, chimarrão, o Chuí: não… eu não podia permitir que uma só gaúcha assim futriqueira, um caso isolado, mudasse em meu coração a boa imagem que tenho daquele povo.

– Eu colocava meu carro aqui antes e ela vinha encher o saco mesmo.

Arrá! Eu bem imaginava que não era de graça o meio-ódio no olhar. Ninguém pega meio-ódio assim tão repentinamente. A briga é antiga, possivelmente de antes de eu vir morar aqui.

– Ela ficou um tempão parada aqui dentro do carro dela olhando e depois foi falar com o zelador.

Eu inocentemente tocando minha vida enquanto o meio-ódio da casa lateral observava a fresca do vinte e quatro que observava meu carro parado de forma irregular. É tanta vida acontecendo enquanto a gente não percebe.

– Ela é filha do zelador.

Meu Deus, admito que por essa eu não esperava. Que plot-twist. Conspiração, intriga, ódio histórico, disputa por locais de uso comunitário.

***

Decido fugir desse encontro forçado e volto para dentro de casa. Mas já estou contaminado pela curiosidade. Resolvo levar o lixo e passar na frente da casa vinte e quatro, quero ver com meus próprios olhos a cara da alcagueta.

No meio do caminho um medo singular me acossa: agora é só curiosidade, não faço ideia de quem é a pessoa. Mas e se ela tiver um daqueles capachos em que está escrito “Que Deus te dê em dobro tudo o que me desejar” e eu até esconder na expressão, mas no íntimo esperar que algo de ruim lhe aconteça? Deus é poderoso demais, não deveria se aliar tão facilmente a gente ruim, que dedura os outros para o síndico, só porque essa gente comprou aquele capacho específico.

São esses metafísicos pensamentos que passam por minha mente tão bem ocupada quando vou me aproximando – vinte e seis… vinte e cinco… vinte e quatro.

A desilusão não poderia ser maior. O fofoqueiro do meio-ódio ainda conseguiu errar o número e a casa vinte e quatro está vazia, com uma plaquinha de aluga-se. Preferia o capacho com a ameaça divina.

Querida vizinha: caso você seja uma leitora desta coluna e tenha denunciado um morador vizinho por estes dias, desculpe. Sei que eu não deveria ter usado aquela vaga. Mas por sua própria saúde emocional, encontre algo para ocupar seu tempo e por favor não compre aquele capacho.

Querido vizinho: caso você seja um leitor desta coluna e tenha tentado envenenar mais alguém contra sua antiga algoz, da próxima vez pelo menos anote o número certo da casa. Por sua própria saúde emocional, encontre algo para ocupar seu tempo.

E passe a usar máscara. Pelo regulamento do condomínio, o uso é obrigatório nas áreas comuns. Não quero ter que te dedurar para o zelador.

Não me esperem na próxima assembleia, gente ruim.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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