Música instrumental ou música em contexto instrumental? | Jornal Plural
5 jun 2021 - 11h23

Música instrumental ou música em contexto instrumental?

O filme Matrix pode nos ajudar a entender a diferença entre os conceitos

Há algum tempo tenho me debruçado sobre o caráter semântico das obras musicais, porque a música também carrega significados, a exemplo de outras linguagens artísticas, buscando comunicar conceitos e ideias a uma comunidade de ouvintes. Comecei pensando sobre as canções, porque estas têm sua construção baseada na soma de elementos poéticos e musicais. Entendi que uma vez unidos, esses elementos tornam-se indissociáveis e mudam o sentido tanto da parte poética da canção – feita para ser cantada e não apenas lida – quanto da parte musical, que adquire um tipo de dicção para além das articulações possíveis num instrumento melódico, como o saxofone, por exemplo. Isso tudo remete à ideia de que o escritor de canções exerce aquilo que Luiz Tatit classifica, na página 9 do seu livro O Cancionista, como “gestualidade oral”. Com base nisso, podemos intuir que a canção continuará a ser o que é, mesmo se for tocada por um instrumento ao invés de cantada por uma voz solo.

Este tema se tornou mais interessante quando participei de um curso para saxofonistas na Oficina de Música de Curitiba, em 2018, ministrado pelo músico brasileiro César Roversi. Ele propôs que escolhêssemos canções para tocar no saxofone imitando a voz do intérprete, imaginando a letra da música enquanto tocávamos a linha melódica no instrumento. Foi uma experiência arrebatadora, porque me fez entender de maneira mais precisa o caráter semântico contido na obra musical, confirmando a força que tem a canção.

A partir disso, me veio à mente uma pergunta: uma canção tocada em um instrumento pode ser considerada música instrumental? “Sim” parece ser a resposta óbvia, no entanto, arrisco dizer que a correta neste caso seria “não”. Digo isso porque a música instrumental por essência estabelece a comunicação com o ouvinte por meio de elementos sonoros, enquanto a canção o faz somando o recurso do texto ao som. Uma vez assimilado o texto, ainda que a música seja tocada por um instrumento melódico, o ouvinte que conheça o teor daquilo que o texto diz automaticamente o associará à melodia. Portanto, esta música jamais será “instrumental” por essência, estando, neste caso, inserida num “contexto instrumental”.

E como enquadrar os filmes neste debate?

O cinema lança mão das canções para ajudar a contar uma história. Não à toa, existem dois prêmios diferentes no Oscar ligados à música, um de melhor trilha sonora e outro de canção original. Ocorre que há no cinema o uso de canções em contexto instrumental, que são acopladas como apoio narrativo ao roteiro. Um bom exemplo disso surge no filme Matrix (1999), cuja trilha sonora tem forte presença de música eletrônica, afinal de contas o filme todo é pautado em tecnologia, principalmente pela temática dos riscos existentes num eventual descontrole da inteligência artificial.

Acontece que uma das cenas com a menor quantidade de efeitos visuais, porque mostra somente o protagonista, Neo, conversando com a oráculo numa cozinha, traz a melhor sacada musical de toda a trilogia Matrix, fazendo isso por meio de um clássico do jazz dos anos quarenta. Enquanto Neo ouve sobre seu futuro, toca ao fundo um trecho, em contexto instrumental, de “I’m Beggining to See the Light”, de Duke Ellington, canção eternizada por meio da voz de Ella Fitzgerald. Observe o título da canção, que numa tradução livre seria algo como “estou começando a ver a luz”, não tem tudo a ver com uma visita de alguém a um oráculo? Além disso, a música surge de forma diegética, ou seja, sendo ouvida pelas personagens em cena, porque tocava numa vitrola na sala de estar, enquanto Neo conversava com a oráculo na cozinha.

Como se percebe, existem muitas camadas de subjetividade que podem ser acrescidas e vão contribuir na construção dos significados. Essas sutilezas tornam uma obra instigante e possibilitam diferentes leituras, dando ao apreciador o papel de buscar a luz.  


Para ir além

“I’m Beggining to See the Light”, na voz de Ella Fitzgerald.

Uma releitura dessa música que gravei com o pianista Lucas Franco.

Cena do diálogo entre Neo e a Oráculo, em Matrix. O tema musical começa aos 2 minutos do vídeo.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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