12 mar 2022 - 9h00

As referências musicais de The Batman

Trilha composta por Michael Giacchino mostra-se influenciada pelos períodos Clássico e Romântico, além de remeter a outras composições de filmes que se tornaram ícones do século XX

Tem sido recorrente na internet a publicação de reportagens, críticas, comentários e “spoilers” sobre o novo filme do Batman, dirigido por Matt Reeves e estrelado por Robert Pattinson. A escolha do ator, por si só, já carrega seu lado peculiar, porque, afinal de contas, ele ficou mundialmente conhecido pela interpretação do vampiro Edward Cullen, na saga Crepúsculo. Anedotas à parte, seu homem-morcego surpreende pela qualidade em diversos aspectos. Salvo duas cenas específicas, uma envolvendo o Comissário Gordon e outra com a Mulher Gato, diria que se trata de uma obra audiovisual impecável, principalmente por enriquecer a discussão em torno das máfias infiltradas nas instituições de poder, impulsionada pelos diversos níveis de uma corrupção sistêmica que se alastra nas entranhas de uma cidade decadente e desigual.

O vilão, Charada, vivido por Paul Dano, é um espetáculo à parte. Mostra que, para impor o medo, não é necessário recorrer a um alienígena dotado de força bruta descomunal, bastando, para isso, um indivíduo radicalizado em função das circunstâncias e que encontre no submundo da deep web o combustível para incendiar sua mente e transformar-se em terrorista. Neste aspecto, há uma carga sensível de verossimilhança na criação da personagem, em função do contexto de armamento desenfreado da população, constante nos Estados Unidos e que se espalha por outros países, inclusive no Brasil. A crítica é bastante enfática: o produto que se obtém ao serem somados o acesso às armas e os discursos de ódio resulta em calamidade e perdas de vidas inocentes.

Mulher gato e Batman. Foto: divulgação.

Trilha

Feita essa breve leitura a respeito do filme, acoplemos a música à discussão. A temática abordada por Reeves é profunda, demandando uma trilha musical de caráter incidental que acompanhe essa narrativa vigorosa. O escolhido para criar o mundo sonoro do novo Batman foi Michael Giacchino, veterano autor de partituras prestigiadíssimas e dono de uma versatilidade que o leva a transitar com naturalidade entre diferentes contextos e estilos musicais. Para se ter uma ideia, animações como Os Incríveis e Up têm suas trilhas compostas por ele.

O autor criou um leitmotiv perfeito para as chegadas do Batman, que se notabilizou desde o primeiro trailer do filme, quando o Pinguim capota o veículo e vê, ao longe e no contraluz, o homem-morcego aproximando-se a passos lentos e pesados. A música instrumental que o acompanha consiste num movimento de acordes encaixado ao caminhar do herói, não de forma triunfante, mas totalmente ameaçadora.   

Referências do Clássico e do Romântico

Giacchino parece ter mergulhado na música de concerto europeia para criar a trilha. Isso fica perceptível na instrumentação, nos encadeamentos harmônicos e nos motivos melódicos utilizados. Chama a atenção, em especial, a Sonata in Darkness, cujo título lembra ao da Sonata para Piano n. 14, em Dó Sustenido Menor, Opus 27, n. 2, de Ludwig van Beethoven (1770-1827), que, cinco anos após a morte do gênio do Clássico, ficou conhecida como Sonata ao Luar. Apesar do jogo de palavras, a referência central de Giacchino para a Sonata in Darkness pode ter vindo de um outro compositor, do período Romântico. Falo de Fréderic François Chopin (1810-1849), autor da Sonata n.2 para Piano, em Si Bemol Menor, Opus 35, que adquiriu o célebre título de Marcha Fúnebre. Não se pode dizer que Giacchino fez uma releitura da obra de Chopin, porque há diferenças sensíveis na questão rítmica. No entanto, os principais movimentos harmônicos, em momentos chave da peça, são semelhantes entre as duas obras, além do fato de que ambas são para piano solo.

Robert Pattinson no papel de Bruce Wayne/Batman: de playboy a recluso. Foto: divulgação.

Darth Vader

O Batman vivido por Pattinson, numa cena específica, na qual caminha através de um corredor escuro – cuja iluminação depende exclusivamente dos tiros, que não lhe causam danos – assemelha-se à emblemática cena de Darth Vader, em Rogue One. Na trama de uma galáxia muito distante, o Lord Sith invade uma espaçonave para tentar reaver os planos roubados da Estrela da Morte, que acabam por ser entregues às mãos da Princesa Leia Organa. Plasticamente, o Batman consegue ter o mesmo ar de imponência, com a vantagem de que, neste caso, o imponente não é o vilão.

Se visualmente há semelhanças entre Vader e Batman, na trilha sonora vai ocorrer o mesmo fenômeno. A Marcha Imperial, composição icônica de John Williams para caracterizar o vilão de Star Wars, é sonoramente inspirada na mesma Marcha Fúnebre, de Chopin,que, agora, mostra-se como fonte de inspiração ao autor da trilha do homem-morcego.

O Poderoso Chefão

Seguindo a perspectiva de que o crime organizado exerce papel fundamental no desenvolvimento desta nova história do Batman, Giacchino faz leves citações à trilha musical composta por Nino Rota para a Famiglia Corleone. Essas conexões acontecem por ao menos dois caminhos: o primeiro, devido às aproximações cromáticas, utilizadas para dar movimento e fluência às melodias; o segundo, em função da instrumentação escolhida, que prioriza as cordas, de caráter camerístico, não com a densidade de uma orquestra sinfônica, mas sempre trazendo belas linhas nos solos de violino e violoncelo.

Streaming

O filme está em cartaz nos cinemas, mas deve estrear no “streaming” da HBO no dia 16 de abril.


Para ir além

Trilha sonora de The Batman

Sonata n.2 para Piano, em Si Bemol Menor, Opus 35, a Marcha Fúnebre, de Chopin

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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