Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem | Jornal Plural
15 abr 2021 - 0h01

Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem

A partir de obra de Saramago, é possível fazer um paralelo com o cenário de desumanização no país, potencializado em atitudes do atual presidente

Nestes dias de tantas incertezas, tantas perdas, comecei a refletir sobre a fragilidade da vida e também como a humanidade é contraditória, capaz de gestos tão nobres e, ao mesmo tempo, atitudes desumanas, antiéticas e egoístas. Também pensei em como estas contradições se potencializam frente a uma crise.

Para além do que está registrado em legislações, como a Constituição Federal, ou documentos na área de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil, quais os valores que verdadeiramente regem a nossa sociedade?

Os pensamentos me trouxeram à lembrança um livro que li há algum tempo, quem sabe duas décadas: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Alguns também devem ter assistido ao filme, algo que ainda não tive a oportunidade. O drama se desenrola a partir de uma cegueira repentina que acomete um homem, dentro do seu carro, enquanto aguarda o semáforo abrir. Saramago sempre nos surpreende. Esta cegueira não é caracterizada pela escuridão, mas por uma névoa branca que impede a visão. A mesma se espalha sobre a cidade e atinge um grande número de pessoas, causando um enorme colapso e obrigando as pessoas a viverem de uma forma totalmente diferente da que costumavam até então. O autor narra diversas situações ao longo da estória nas quais as pessoas trazem à tona o que há de melhor e também o que há de pior no ser humano.

Recordo que por diversas vezes tive que suspender a leitura, exausta! A forma como o autor descreve as cenas é tão real que nos faz mergulhar naquela realidade, em que a degradação humana é avassaladora. Mesmo entre os mais fragilizados e excluídos, na trama há aqueles que, para garantir condições de sobrevivência um pouco melhores, oprimem os demais. Ao mesmo tempo há personagens que procuram acolher e prestar auxílio a todos que necessitam.

Voltando à nossa vida concreta identificamos a exclusão e a desigualdade sociais como características marcantes de nossa sociedade. Um dado importante para ilustrar a nossa realidade é que em 2020, os quatro maiores bancos do Brasil lucraram quase 60 bilhões de reais, segundo a Ibovespa. No entanto, estes mesmos bancos demitiram, no mesmo período, 11.273 trabalhadores. O lucro está acima da vida das pessoas. A vida é determinada pelas leis do mercado, figura abstrata, que invisibiliza a grande concentração de renda e os poucos bilionários do mundo. A revista Forbes divulgou que o número de brasileiros bilionários subiu de 45, em 2020, para 66 em 2021. Eles detêm um patrimônio conjunto de US$ 220,4 bilhões, contra US$ 127,1 bilhões do ano passado.

Por outro lado, de 2018 a 2020, o total de pessoas que passam fome no Brasil saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan). Neste dia 13, o Brasil chegou à triste marca de 358.718 mortes em decorrência da Covid 19. E a pergunta é: as crises sanitária e econômica atingem a quem, afinal?

Não há dúvida de que as desigualdades sociais são decorrentes do sistema capitalista que “organiza” nossa sociedade, elas sustentam este sistema. A pandemia apenas deu maior visibilidade a essas desigualdades.

A condução desastrosa do governo federal no enfrentamento à Covid 19 está intimamente ligada aos valores que o presidente prega: pessoas são descartáveis, o mercado é a prioridade. O sarcasmo, o egoísmo e a falta de empatia diante do sofrimento alheio são características de sua personalidade, que dão um toque de crueldade às suas atitudes e declarações.

Por outro lado, em contrapartida a isso, há diversos setores da sociedade se mobilizando para arrecadar alimentos para minimizar a fome, pessoas que demonstram solidariedade para com aqueles que perdem seus entes queridos, que expressam sua gratidão aos profissionais da saúde, que se colocam em risco para salvar vidas, grupos que produzem marmitas e doam às pessoas em situação de rua, dentre outros.

Esta ambiguidade diante do abismo moral em que vivemos nos faz alternar momentos de angústia e de esperança. Penso que a solidariedade é um valor que devemos cultivar cotidianamente para superarmos este tsunami de desumanização que atinge não só o Brasil, mas o mundo como um todo.

Nesse sentido, lembro do trecho da canção “Coração Civil” (Milton Nascimento e Fernando Brandt) que expressa em grande medida, para mim, o que dá sentido à nossa luta cotidiana:

“Quero a utopia, quero tudo e mais

Quero a felicidade dos olhos de um pai

Quero a alegria muita gente feliz

Quero que a justiça reine em meu país …”

Para finalizar, reproduzo o último diálogo entre personagens do romance de Saramago: “Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem

  1. Muito bom o texto! Gostei especialmente da forma como a Professora Josete fez o fechamento: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”
    Acredito que os apoiadores do genocida que ocupa a cadeira de presidente (mas não exerce a função) vão mais além: Cegos que, vendo, não veem, mas também não querem ver.

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