Inovação e seu "estado" da "arte" | Plural
18 jun 2019 - 7h00

Inovação e seu “estado” da “arte”

Inovação, escreve Jac Fressatto, envolve criar algo que seja impactante

Imagine uma caixa cheia de mecanismos, que ficam expostos quando se abre as portas frontais. Para você ter certeza que se trata de um mecanismo mesmo, pode-se abrir as portas traseiras.

Na parte superior desta grande caixa tem um tabuleiro de xadrez e a figura de um homem (dorso, braços e cabeça) vestido como um turco de meados do século 18. Esta máquina pós-idade média tem a capacidade de jogar xadrez.

Hoje, ler uma descrição desta traz uma sensação insignificante, cotidiana, pois nossos celulares jogam xadrez conosco.

Mas durante 120 anos, começando em 1770, O TURCO foi apresentado a multidões de curiosos na Europa e Estados Unidos, que assistiam à máquina jogar partidas de xadrez, algumas vezes com pessoas famosas como Napoleão Bonaparte (em 1809, no Palácio Schönbrunn).

Durante doze décadas, ninguém – absolutamente ninguém – se interessou em saber tecnologicamente como esta máquina funcionava. Seu funcionamento era interessante. Tratava-se de um dispositivo magnético, com compartimentos ocultos, parecido com as caixas que os mágicos ilusionistas usam em seus truques.

No interior desta caixa, operando os dispositivos magnéticos que provocavam os movimentos dos braços do TURCO, ficava um habilidoso jogador de xadrez.

Mesmo após 1804, quando um cientista mecânico descobriu e publicou como esta máquina funcionava, as exibições continuaram por 50 anos até ela ser destruída num incêndio em 1854.

Muitos anos depois, uma máquina venceu realmente um homem numa partida de xadrez!

Esta poderosa máquina era chamada Deep Blue, um supercomputador avançado da IBM. Em fevereiro de 1996, foi apresentado para a humanidade como um hábil jogador de xadrez. Também foi a inteligência do robô Opportunity, que chegou a Marte em 2004 e foi desativado pela NASA em fevereiro deste ano.

O supercomputador Deep Blue, 142 anos depois do advento do TURCO, não só revolucionou o mercado tecnológico para as áreas de serviços de softwares (quando ganhou de verdade uma partida de xadrez contra o premiado Kasparov) e aeroespacial (com a missão de Marte que durou 15 anos) como deu o start numa série de soluções inteligentes, como robôs industriais com inteligência aplicada e serviços online em geral.

Como um construtor de tecnologia, me impressiona mais a criação de Kempelen (O TURCO, de 1770) do que da IBM (Deep Blue, de 1996).

Pois o que motivou o criador do TURCO foi a ideia singular de encantar a rainha Tereza da Áustria e sua corte com algo INOVADOR, diferente dos shows dos ilusionistas à época.

O TURCO também foi um mecanismo de ilusão, que teve atenção e sucesso durante 120 anos. Mas, principalmente, foi uma das maiores demonstrações da capacidade humana de projetar o futuro, antes mesmo de ter a capacidade de executá-lo. Quase como uma previsão do futuro, quando mostrou o que poderia ser feito por uma máquina. O que hoje parece ser tão fútil, considerando que temos jogos de xadrez em nossos celulares, foi há 249 anos uma ideia inovadora.

Kempelen foi um homem inovador, não apenas um oportunista tecnológico.

Hoje muitos ilusionistas tecnológicos “vendem” soluções maravilhosas baseadas em suposta inteligência artificial ou visão computacional alegando serem inovações.

Inovação, para mim, envolve criar algo que seja impactante e/ou desconhecido, ainda não experimentado, mas que, quando executado, muda a vida de dezenas, centenas e milhares de pessoas.

“Criar” algo baseado em soluções que já existem, não é inovação, é oportunismo.

Inovação não está relacionado necessariamente a tecnologia, mas a motivação de “encantar o público alvo” assim como fez durante 120 anos o TURCO.

Então SER HUMANO, livre, conectado e inovador, quer saber como inovar de verdade e deixar de ser um ilusionista?

Faça algo que nunca fez, pela primeira vez.

Pegue um caminho diferente.

Compre uma roupa nova.

Prove que ama alguém de uma forma diferente.

Ouça uma criança com os seus ouvidos.

Ouça um idoso com os seus ouvidos.

Experimente os calçados de outra pessoa antes de criticar os seus passos.

Faça de forma nova aquilo que não é mais novo. Invente o novo, ou seja: INOVE.

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