Um livro sobre três gerações de homens | Jornal Plural
5 jan 2021 - 11h20

Um livro sobre três gerações de homens

Em Diário da Queda, Michel Laub fala sobre pais, filhos e cria um romance interessante

Já escrevi sobre Michel Laub aqui e talvez algo do que eu diga não seja exatamente novidade, mas hoje quero falar um tantinho sobre “Diário da Queda”.

Todas as civilizações têm um ritual de passagem para a vida adulta, e no caso do judaísmo para os meninos trata-se do bar mitzvah. Em alguns lugares, os meninos podem ser colocados na floresta munidos apenas de arco e flecha… e hoje não é improvável que possam ganhar uma passagem para a Disney. Aliás, essas ironias desses rituais de passagem são descritas por Laub nesse livro, que é um de seus mais bem acabados. Não é à toa que a “passagem” (aos 13 anos no caso) seja tão importante na construção desse romance.

Ocorre, aqui, que a passagem, é marcada não exatamente por uma situação feliz (a volta da floresta com a cabeça de um lobo ou um alce ou o retorno da Disney) e sim por uma infelicidade: um amigo não judeu de um grupo de ricos meninos judeus é ferido no dia da festa de seu aniversário de 13 anos.

É um livro que trata da masculinidade, eu diria. Há ali a relação entre pai e filho, primeiramente o avô do narrador com o pai do narrador e depois o narrador com o próprio pai. Essa tríade silencia, por assim dizer, a situação feminina (as mulhres aparecem muito pouco), mas por razões muito consistentes. Afinal, discutir a masculinidade, sua formação cultural, é tão importante quanto escarafunchar a formação dos discursos sobre a mulher. A esse trio, junta-se a figura justamente do menino não judeu ferido em plena festa de aniversário (o que seria seu bar mitzvah não judeu), que se torna amigo do narrador, embora o narrador seja um dos responsáveis pelo incidente, que quase deixa paraplégico o garoto. A oposição ente o rico e o pobre, o judeu e o não judeu, o garoto filho de pais ricos e o garoto bolsista, órfão de mãe, é importante na construção do “eu” do narrador. Há um claro jogo de oposições aí: menino versus menino, adulto versus criança, judeu versus não judeu – e isso é tudo muito consistente. [Embora eu vá tecer alguns comentários sobre isso quando escrever sobre “Solução de dois estados”]

Esse jogo de oposições nada banal (não se trata simplesmente de uma dicotomia fácil), e que silencia a voz feminina, encontra outros modos do silêncio. Laub foge do canto da sereia do manuscrito encontrado numa garrafa e do diário encontrado, que tudo revela. Mas há diários a serem revelados, e ao término do livro o leitor terá um entendimento melhor da situação dos diários. Ao ler os textos do avô, percebe que o patriarca fez uma lista de verbetes de um mundo “como deveria ser” e não “como o mundo é”, mais ou menos como as – hoje – absurdas e adoráveis descrições de Santo Isidoro. Mas é a partir do que o avô não diz que ele pode entender o que o mundo revela. Eu diria que esse é o grande mérito desse romance.

A escrita de Laub, já o disse aqui, tem ao menos duas marcas da oralidade muito atraentes: primeiro o encaminhamento vocabular típico da oralidade, o que permite que a leitura seja fluida e fácil (eu li o romance de uma vez), o que não quer dizer que seja fácil ou mal construído. Bem ao contrário. O segundo elemento seria a repetição: o que surge em outro livro dele “O tribunal da quinta-feira”, por exemplo. A repetição na oralidade visa dar ênfase, claro, ao já dito, mas ao mesmo tempo, objetiva indagar ao interlocutor: “você entendeu o que eu disse?”. A faceta ruim desse tipo de escrita é fazer com que autores distintos pareçam muito próximos, notadamente os da mesma editora, por vezes fazendo crer o leitor atento que estão copiando Bernardo Carvalho, o grande autor dessa geração, ou ainda descrições cotidianas encontradas, por exemplo, na revista Piauí. Eu fechei o livro, abri a Piauí e tive a impressão de continuar a leitura. Literatura é conteúdo e forma, já o disse aqui inúmeras vezes.

Mas. Mas há um mas no meio do caminho e isso nos interessa. O romance não se chama “Diário da queda” por motivos de eufonia. O jogo de paridades continua: há a queda física do menino no aniversário, a queda do narrador (que precisa sair de um abismo), uma queda física (em termos de saúde mental e física mesmo), há a queda digamos infinita do avô após Auschwitz, há a queda do pai devido ao Alzheimer. Há a queda da amizade entre o narrador e o amigo, que se distancia dele, há a queda no/do relacionamento entre o narrador e suas esposas, em temporalidades diferentes, esclareça-se.

E, no meio disso tudo, Laub consegue colocar ainda que mais uma vez a situação judaica, mas fugindo de outros lugares comuns. Ele mesmo ao longo da narrativa cita diversos autores que se preocuparam com isso melhor do que ele, com ênfase para Primo Levi. E ele consegue, sem grosseria, mas com um senso de precisão bastante raro, apontar a maldade comum a qualquer grupo, inclusive aos judeus. Espinhoso, mas necessário. Há nesse ponto uma reflexão sobre o já tantas vezes questionado, investigado, devassado, mas esse é um dos deveres da literatura.

Se essa literatura (até certo ponto facilitadora) é uma das marcas da atualidade e ficará no futuro como exemplo, não posso dizer. Nem sei se Bernardo Carvalho será lembrado como um dos grandes dessa geração, como eu disse. Há tantas belezas que se diferem disso, como Ana Paula Maia, e há outras vozes que acabam desaparecendo das livrarias e das salas de aula, o que é uma pena, como é o caso e Zulmira Tavares.

De todo modo, “Diário da Queda” é um romance muito interessante, que merece ser lido.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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