Vacina, ignorância e as teorias da conspiração

O custo da ingerência de Bolsonaro se aproxima de 200.000 vidas perdidas

A flexibilização dos critérios de segurança em contextos extremos para condutas de salvação imediata é razoável, historicamente aceita e mesmo necessária, especialmente quando seguidas de medidas estruturantes, que reparem os potenciais equívocos cometidos às pressas e que somem tempo e qualidade à solução sustentável do desafio da pandemia.

A oposição à cloroquina, ivermectina e aberrações semelhantes não é uma provocação vazia – no máximo falta de fé ao Messianismo bufão de Bolsonaro -, mas sim sobre a covardia de usá-las enquanto pretexto para sonegar a importância da execução das efetivas medidas sanitárias (distanciamento social, medidas de higiene, imunização em massa e afins).

Afirmar que a natureza incipiente das evidências favoráveis à vacinação, que ainda merecem estudos mais avançados, se equipara à cloroquina, ivermectina e demais medidas lunáticas é uma aberração técnica tanto quanto uma covardia política.

A imunização por vacinas não somente é uma técnica bem difundida, conhecida e eficaz, como também a tecnologia para desenvolvê-la está na fronteira da ciência, tendo amplo respaldo teórico consolidado e, especificamente quanto ao Covid19, sólida evidência – mesmo que preliminar – favorável ao benefício de imunização.

Comparar a cloroquina – que não possui qualquer benefício comprovado contra o Covid19 na tosquice que consiste o “tratamento precoce” – à vacinação em virtude de que ambos, supostamente, não tiveram todas as etapas de estudo integralmente vencidas é opor o retumbante vazio do nada com uma extraordinária obra de arte ainda inacabada, mas com claros sinais de funcionalidade.

Assim, se por um lado equiparar a absoluta ausência de conhecimento favorável ao mítico funcionamento da cloroquina e afins às lacunas de conhecimento à serem esclarecidas da imunização por vacinas se trata de uma covardia teórico científica, por outro tem sido a estratégia do governo federal para coletivizar sua incompetência.

Ante a estupidez de que a distribuição de cloroquina equivallha à imunização em massa, espraiando sobre ambos inexistente e ignorante semelhança, o governo Bolsonaro se esquiva de suas obrigações com medidas efetivas, abraçando o negacionismo, misticismo e todo tipo de ignorância anticientífica.

Compartilha assim sua incompetência com aliados fantoches que se revezam entre acusações de conspirações e malabarismos lógicos e, ainda, sonega a importância da vacina equiparando-a em qualidade de estratégia de saúde pública à distribuição da cloroquina – droga sabiamente ineficaz. Bolsonaro deliberadamente priva o Brasil da execução das medidas sanitárias indispensáveis, além de ilhar o país em uma bolha de ignorância capitaneada por turrões e cega à razão.

Nunca houve na saúde pública gestor federal tão descompromissado, ególatra, lunático, negacionista, conspirador e ignorante. O custo da ingerência de Bolsonaro se aproxima de 200.000 vidas perdidas, fruto da pequena parcela da população já infectada, com o pior ainda por vir ante tamanho marasmo.

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