15 maio 2022 - 11h00

Um livrinho, o passado e o exílio

Sobre Gore Vidal e “A cidade e o pilar”

Há um livrinho que passa despercebido mesmo pelos mais experientes leitores: “The city and de pilar”, de Gore Vidal. Sem querer resumi-lo, um sujeito caminha quase toda uma vida preso a um acontecimento do passado e, quando está cara a cara com a possibilidade de resgatar tal acontecimento, percebe que apenas ele viveu o passado. As demais pessoas, não. Daí o título quase misterioso dado por Gore Vidal, título que durante muito tempo despertou toda sorte de especulações até que ele mesmo explicasse a menção: a mulher de Lot. Ela olha para trás, vira uma coluna de sal, um pilar de sal.

Alguns livrinhos pequenos são consistentes. Diga-o “O jovem Törless”. Claro que Vidal não teve a mesma sorte de Musil e seu livro da juventude não passou a ser ele também uma metáfora para sua época. Poderia ser. Mas carecia de algo para que a história não deu aval. Nem digo que a temática tenha assustado, porque assim ela também aparece (mesmo que escamoteada) em Musil. Outros livrinhos similares tiveram destino parecido, embora tivessem sido lidos em sua época por um número bem razoável de leitores e também pudessem servir de metáfora para um período, seja “Alexis” ou “Brideshead Revisited”. Nestes dois livros, também o passado é uma personagem. Mas de repente parece que os grandes livros do passado, mesmo em livrinhos, foram esquecidos.

Hebreus e gregos tinham isto em comum: imaginar que o passado fosse algo a ser esquecido. Então, possivelmente tal ideia nos habita. Mas se esquecemos o passado, como aprender com ele? A questão não é assim tão simples e não se trata de um jogo de sim/não. Não se trata de esquecer todo o passado e sim “certo” passado, para não se estar acorrentado a ele. O passado pessoal, por exemplo, pode trazer tanta dor que revivê-lo é estar em constante sofrimento. Então, talvez seja caso de nos exilarmos do passado, mas o esquecendo. Ou conviver com ele como algo natural, que não nos consuma. Já a história, se for esquecida, vai provocar erros similares, como os que estamos vendo, com o crescimento quase exponencial, nada silencioso, em verdade, do fascismo. Então, há diferenças imensas e consistentes entre a psicanálise e a história, nesse sentido. Um demônio atirado de costas para o inferno poderia narrar toda a história, de trás para a frente, mas nós, atirados ao futuro, deveríamos deixar para trás os tormentos vividos.

A pergunta que eu poderia fazer aqui é: onde colocamos a literatura? No terreno das questões pessoais ou no da história? Não é uma pergunta retórica. É desonestidade mesmo. Se o leitor prestar atenção, vai perceber que há um jogo verbal aqui. E maldade e provocação.

Brodski, numa fala sobre o exílio, diz que há autores demais hoje. Eu diria que cada época tem seus autores, e assim vão sumindo os antigos, aqueles que perdem o sentido, o gosto dos editores mais jovens, o interesse das editoras. É quase um milagre ver Háldor Laxness republicado, assim como Gide. Sim, Gide, que marcou tantas gerações.

A mulher de Lot durante séculos serviu de metáfora para um certo tipo de prisão. O sujeito tem liberdade de escolha, mas, ao olhar para o passado, prende-se a ele. No caso dela, a prisão será eterna. Talvez ela não consiga viver sem suas joias, sem o cheiro das especiarias do mercado, sem os tapetes pendurados na janela. Sua dor da perda é múltipla: ela imagina ter perdido o que é físico e o que é dos sentidos. Mais ou menos o que ocorre com os amantes rejeitados.

O que tenho achado incrível é como certa esquerda brasileira tem dificuldade de deixar para trás o passado das especiarias, tapetes e joias. Ou seja, a prisão do pensamento, pois aí só reside a memória, frágil como uma fumaça, dúbia como um abantesma. Também é uma incômoda sensação a de a esquerda não pode aprender com seus erros — assumi-los e encontrar saídas. Entre o pilar de sal e o amante fustigado pela dor do abandono, estamos muitos de nós. Da mesma forma, chega a ser irônico como dentro da esquerda há críticas de quem nunca pisou num sindicato. Nem falarei do deserto das críticas da direita, repleta de áspides.

Bem, voltando a falar do Gore Vidal, durante quase toda minha vida fui questionado por colocar esse livrinho dele e não outros (como “Criação”) no topo da lista de quem deseja conhecer a obra de Vidal. Outros, como eu, criam que Gore Vidal era mais interessante como provocador midiático do que como escritor.  Para os jovens que veem “Me chame pelo seu nome” como o hino ao amor urânio (aquele discutido por Gide há mais de um século), só podemos dizer “não sabe de nada, inocente”.  Sim, obras distintas de escritores distintos em épocas distintas. Mas há algo em “A cidade e o pilar” que não fica datado: ela serve para todas as gerações posteriores.

Há uma tradução de Eliana Sabino em sebos virtuais. Para quem lê minimamente em inglês, não se trata de uma leitura complexa no original.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Assuntos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários feitos em textos do Plural são moderados por pessoas, não robôs, e não são publicados imediatamente. Não publicamos comentários grosseiros, agressões, ofensas, acusações sem provas nem aqueles que promovem tratamentos sem comprovação científica.

Últimas Notícias