Javier Contreras e a verdade dos crocodilos | Jornal Plural
13 jul 2020 - 11h39

Javier Contreras e a verdade dos crocodilos

A morte é um dos temas mais recorrentes da Literatura. Desde tempos remotos

A morte é um dos temas mais recorrentes da Literatura. Desde tempos remotos. Costumamos dizer que a Literatura tem alguns temas realmente universais, como o amor, a guerra e justamente a morte, mas é este tema que, vez por outra, acaba atravessando os demais e ela, a morte, aparecerá de mãos dadas com a guerra, por motivos óbvios, e com o amor, como oposição (pense em Eros e Tanatos; não em Anteros) ou como uma presença maligna que pode por fim ao amor (veja o romance grego antigo em que a morte separa ou pode separar os amantes, assim como piratas, terremotos, guerras). A morte surge personificada, como pessoa (Brad Pitt já foi a morte num filme…) ou lugar (Hades, Xeol, Xibalba), ou como um manto que é sombra ou cenário para toda uma narrativa, mesmo que não pensemos nela ao ler romances como “Dom Casmurro” ou novelas/contos como “Morte em Veneza” (bem; está no título…) ou ainda de forma irônica, sendo exemplo “A rose for Emily”, curioso conto de William Faulkner, e por aí vai. Já foi tratada na sua máxima dor (se a Ilíada pode ser uma Aquileia, faz todo sentido, afinal há um morto ali que desencadeia toda uma série de desastres) e como produto cômico (pense em Luciano e em seu “Diálogo dos mortos”). Já foi tratada como enigma máximo, como algo a ser desvendado, como o fim supremo, como a chance da bem-aventurança.

No mundo contemporâneo, é estudada pela Sociologia, pela Psicanálise, pela Antropologia, pela Medicina, e hoje aparece em variados discursos, como é o caso do que trata da necropolítica, expressão segundo a qual há uma política — um poder — que decide quem pode viver e quem deve morrer (ver o livro de mesmo nome de Achille Mbembe). Há textos em que a morte é natural (aconselho o relato maravilhoso de Paul Auster, “A invenção da solidão”), ou como algo que poderia ser evitado (veja o requintado relato de Imre Kertész, “Kadish para uma criança não nascida”). Aconselho muito os livros de Elias Canetti sobre o tema.

Quando um autor se debruça sobre a morte, ele sabe que tem toda a tradição espiando por seus ombros. É ousado.

Em “Crocodilo”, há três tipos de busca da verdade: o jornalismo, a editoração, o cinema. O pai e narrador é um jornalista, editor-chefe “do maior jornal do país”; há uma mãe também jornalista, que segue a carreira de editora e um filho que, após abandonar dois cursos, decide pelo cinema e, ao fazer documentários, fica famoso e premiado em várias partes do planeta. Ele tem 28 anos quando decide pular de um prédio, deixando pai e mãe sem chão e sem saberem “os motivos” que teriam levado o jovem a se matar. A partir desse evento, o pai começa uma busca por um entendimento da morte do filho. Sendo um jornalista, “acostumado a entrevistar pessoas em busca da verdade”, ele procurará as pessoas ligadas ao filho na vã tentativa de descobrir a verdade, uma verdade, certa verdade. Mas não há verdade. Não há explicações fechadas e cartesianas para uma morte como a de seu filho. Nem a namorada, nem os amigos, nem o psicólogo, ninguém saberá ao certo o que houve. Um dia o sujeito decidiu morrer. Não deixa um bilhete, não há conversas explicativas em suas redes sociais, não houve nenhum evento traumático no dia anterior, nada.

Vários autores brasileiros contemporâneos têm investigado as violências cotidianas (não seria uma invenção do hoje, claro, haja vista Euclides da Cunha, Lima Barreto ou Rubem Fonseca) ou as novas violências, notadamente e mais recentemente no contexto do aumento dos discursos e das práticas fascistas da atualidade: Ana Paula Maia, Joca Terron, Michel Laub, Bernardo Carvalho — e não poderia ser diferente. Se há a violência e se a morte é cada vez mais próxima (suicídios, feminicídios, assassinatos de LGBts aumentam nesses períodos), a literatura trabalhará isso. O contexto é mais amplo, e não caberia discuti-lo aqui. Mas dentro desse universo está a obra de Contreras, preocupado com os excessos, a obsessão, a dúvida, o vazio hipermoderno já alardeado por tantos teóricos desde os anos 1980 ou mesmo antes, década em que essa geração nasceu ou estava na adolescência.

Para quem desejar mergulhar mais profundamente na narrativa de Contreras, seria interessante tomar dois símbolos muito importantes no livro: a sequoia e o crocodilo, que dá título ao romance. Ambos são mostrados como seres antidiluvianos, misteriosos e silenciosos. O rapaz tímido que usava uma câmera para ele também correr atrás da verdade, de uma verdade, de certa verdade, é esse animal — o crocodilo — que fica abaixo da linha da água, apenas com os olhos de fora, observando o mundo. Veja-se que o menino não escolhe os olhos de um búfalo (como no famoso conto de Clarice Lispector), não escolhe o olhar devorador de um felino ou o olhar perscrutador de um falcão. É o olhar ancião e silencioso do crocodilo que o define. A sequoia, por sua vez, é uma das maiores árvores do planeta, ao lado do Baobá e da Sumaúma. Muitas sequoias existem desde antes a descoberta da América e talvez sobrevivam depois da próxima grande guerra ou do próximo vírus mortal. Ela nos observa em silêncio. Ao mesmo tempo em que uma árvore dessas é forte, anciã, resistente, ela pode ser derrubada em minutos, porque o homem destrói coisa belas…

Talvez não se possa entender uma sequoia e um crocodilo. São inescrutáveis. E Pedro, filho de Ruy e Marta, assim era.

Há um texto satírico do jovem Dostoiévski chamado “O crocodilo”. Nesse conto estranho (que lembrará Rabelais em algum momento), um homem é engolido por um crocodilo enquanto quem está do lado de fora — do lado de cá — se pergunta sobre o que ocorrerá lá dentro — o lado de lá. Aqui, em Contreras, o rapaz não vive uma simbiose com o crocodilo: de um modo ou de outro passará a “ser” o animal. Seria interessante tentar uma ponte entre Contreras e esse misterioso conto russo.

Ainda para quem tem interesse no romance atual, há de reparar que grande parte das narrativas atuais dá mais ênfase para o conteúdo do que para um trabalho com a linguagem, algo que preocupava em muito gerações anteriores. Vez ou outra, nem eu saberia dizer se uma narrativa pertence a um autor x ou a um autor y porque todas se parecem muito. Há de se pensar se assim é, se faz parte da produção atual essa semelhança e se ela não é ou não será um problema a ser analisado no futuro, se é o mercado que assim tem agido, se as duas coisas, ou se ainda é uma mera impressão de um leitor que não pode ler tudo. De todo modo, mérito de Contreras é dedicar-se sucintamente a temas tão espinhosos, e com uma linguagem muito clara e objetiva, de modo a tornar a leitura algo fluido, mas não menos emocionante.

Em uma parte do livro, o jornalista velho e experiente confessa que se preocupa mais com números do que com os fatos das notícias. Se você é da área, entenderá bem isso. Se acompanha o jornalismo atual, pode questionar-se sobre com que tipo de verdades andamos lidando.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Últimas Notícias