3 mar 2022 - 8h30

Nas tumbas e territórios de Giovanna Rivero

De saída, no primeiro conto, Rivero nos oferece a história de uma mãe que perdeu o filho. Como?

Um livro com apresentação de Carola Saavedra não é para qualquer autora.

No Subterrâneo da Alma é um título poderoso para dar boas-vindas a uma autora inédita no Brasil. Estou falando de Terra Fresca da sua Tumba, nome (também recheado de significados) do livro da boliviana Giovanna Rivero. 

Além de escritora, Rivero é doutora em literatura hispano-americana. Ela recebeu várias premiações internacionais, por seus livros de contos e romances, e uma bolsa Fullbright. Terra Fresca é sua obra mais recente. 

Saavedra é escritora. Assina O Mundo Desdobrável, uma coletânea de ensaios, editado pela Relicário – mais recente obra da autora – além de outros livros da Cia. das Letras.

As editoras Incompleta e Jandaíra nos trouxeram uma joia. Espero que seja o primeiro de muitos livros de Rivera. O livro é inquietante. Merece mais de uma leitura. Nas palavras de Saavedra, “a morte, nossa principal anfitriã, (…) a loucura, o ódio, a vingança, o medo”.

De saída, no primeiro conto, Rivero nos oferece a história de uma mãe que perdeu o filho. Como? Vem um mundo desconhecido para nós, brasileiros. O corpo foi jogado no mar pelo outro náufrago. Mortos de fome, os dois comiam o que conseguiam. Coronado, o filho, comeu uma pequena gaivota – crua, evidentemente – que estava envenenada. Amador, o outro, sobreviveu. Não se sabe como, aí é que está. A mãe o recebe na sua casa, conversa longamente com ele, e oferece tortillas recém assadas. Uma delas está envenenada. Amador, no final, sabe disso.

“Não há túmulo, senhor. Onde eu escrevo: meu filho amado partiu, afundou, desapareceu na noite 102? Onde eu ponho isso? Olhe, escolhe a sua tortilla, por favor”.

A Mansidão trata de estupro cometido por um pastor em uma comunidade terrivelmente religiosa. A culpa é da mulher, e do diabo.  A narrativa carregada de erotismo, nas recordações da menina Elise que nem sabe o que lhe aconteceu, é poderosa. Na verdade, não é erótica, é violenta. Rivero domina as palavras como poucas autoras.

O livro requer atenção e, para mim, levou um tempo para terminar. Cada conto é um veneno adocidado que vai se entranhando no sangue. Não mata, mas me fez sonhar.

Paloma Franca Amorim, escritora e artista plástica que assina o posfácio, diz que o livro “contribui para o alargamento de um imaginário contemporâneo que rompe a conexão entre tabu e morte”. É verdade. Rivero transita pelos povos e comunidades sul-americanas em diversos cenários, tendo como ponto em comum uma certa morbidez, em oposição a uma surpreendente inocência e, porque não, amor.

Vamos às editoras. A Incompleta é uma pequena editora paulista, comandada por Laura del Rey, também tradutora de Terra Fresca. Capricho, acho eu, é o sobrenome da editora. Cada livro é finamente trabalhado. Já a Jandaíra é de Lizandra Magon de Almeida, editora, tradutora, repórter, poeta e diretora editorial. 

A história da empresa, nascida em 2014, daria um conto. Cresceu apostando em vozes femininas e diversidade – Ailton Krenak e Djamila Ribeiro, numa parceria com outra editora, dão ideia da saga da Jandaíra. O nome, aliás, é de origem indígena e nomeia a abelha nordestina, sem ferrão, que dá mel.

Vida longa a todas essas mulheres.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Um comentário sobre “Nas tumbas e territórios de Giovanna Rivero

  1. Esse livro é uma preciosidade, Bia. Parabéns pela iniciativa de resenhá-lo. Giovanna Rivero, ao lado da Magela Baudoin que foi publicada pela Arte & Letra, é uma tremenda escritora.

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