23 abr 2021 - 0h01

Imagem ou enigma?

O objetivo de alcançar o belo (sobretudo na estética medieval cristã) parte da ideia de que a arte estaria aí para nos mesmerizar, para nos elevar por meio do que é perfeitamente agradável

Outro dia, conversávamos aqui em casa sobre shows de mágica. Há uma série na Netflix, que todos (menos eu) adoram, chamada Mágica para a Humanidade.

Não é que eu não goste, eu assisto, dou risadas. Num grau de divertimento para um sábado à noite no sofá, acho bem ok. Não me entendam mal, a série é realmente muito bem feita. Tão boa que acho que é exatamente por isso que eu não consigo produzir sentido do que se passa. Espremo os olhos forçando um efeito mental de câmera lenta para entender: como? Não consigo.

Eu gosto de ser enganada, mas depois gosto de entender a lógica por trás do engodo. Como quando o meu avô escondia um lenço vermelho num dedo falso e o fazia desaparecer. Eu não me importava em conhecer a precariedade do truque, eu me encantava justamente por causa da sua simplicidade. A mágica pra mim estava no fato de ele conseguir me enganar, mesmo sabendo que eu sabia exatamente como ele estava me enganando. E então, eu pedia, pela enésima vez: faz de novo?

Assim como me encantam até hoje as traquitanas pré-cinematográficas que tentavam animar imagens estáticas em geringonças como o Zootropo ou o Praxinoscópio, ou aqueles primeiros filmes de stop motion do Norman McLaren (esse vale dar um Google). Eu sei como acontece a “mágica”, e ela me paralisa, mesmo assim. Não apesar, mas por causa da sua precariedade.

Imagem base de um praxinoscópio (traquitana óptica criada para dar a ilusão de movimento antes da invenção do cinema).

Busco sinônimos no dicionário para a palavra “precário” e encontro “faltoso”. Será a incompletude que me abre espaço para entrar na obra? Não sei. Mas, cada vez mais percebo que a integridade na imagem, seja através do glamour comedido do belo, como nas pinturas neoclássicas, ou dos contorcionismos da técnica, como nos filmes de ação americanos com suas câmeras de altíssima definição (bocejos), mais me afasta do que me aproxima do desejo de olhá-las. Talvez o que me incomode nessa série de mágica, no fundo, seja a mesma coisa que me incomoda nas imagens em geral: a busca da perfeição, da obra “bem acabada”, Agostiniana.

O objetivo de alcançar o belo (sobretudo na estética medieval cristã) parte da ideia de que a arte estaria aí para nos mesmerizar, para nos elevar por meio do que é perfeitamente agradável, produzir em nós um efeito de ohhhhh, seguido de luzes brilhantes e sons celestiais que apaziguariam nossos espíritos perturbados e nos aproximariam de Deus.

Mas que belas proporções! Que enquadramento! Viu como está tudinho organizado na regra dos terços e nos retângulos áureos? E como os elementos de luz e sombra, as cores contrastadas foram aplicadas em perfeito equilíbrio? E o sfumato, então? Quase não se percebem as linhas! Uma beleza! Fibonacci ficaria contente.

A lógica da técnica não está exatamente separada da lógica do belo (já que o fim pode ser o mesmo), mas parte do princípio de que é no meio que reside, senão a mensagem, o segredo. Dominado o aparelho, como um animal selvagem que acaba de ser domesticado, alcançaremos a perfeição artística olímpica, a medalha de ouro, e voilá!

Nadia Comaneci, conquistando a sua primeira nota 10 na Olimpíada de Montreal (1976).

É ótimo que existam coisas que agradam aos sentidos e tornam a vida das pessoas menos miserável. Não há nada de “errado” nas imagens belas. As ferramentas não precisam ser demonizadas, mas também não podem ser um mero fetiche. Não se trata de determinar se devemos ou não ler todos os livros do Ansel Adams, aprender sobre softwares, composição, pinceladas suaves, materiais, equipamentos ou o que for necessário para produzir o que quer que seja. O que estou tentando formular é que, mesmo alcançando a técnica perfeita, usando os efeitos especiais mais sobrenaturais e as melhores ferramentas de edição, pode ser que nada aconteça.

Como assim?

Assim: pode ser que você olhe aquela foto/quadro/objeto/obra e aquela coisa não produza nenhum efeito ou afeto em você, nem em ninguém.

Porque a imagem que se forma, QUANDO se forma, não é a imagem da coisa, do objeto, aquele na parede, diante de nós, mas uma espécie de combustão que se produz simultaneamente no corpo e na memória.

Dou um exemplo.

Hoje mesmo, no café, conversávamos sobre um livro de infância, coisa de quinta série, por aí. O nome do livro era, veja só, O Mágico Desinventor. Sobre ele, meu parceiro dizia: “eu não me lembro de quase nada da história, mas lembro do quanto gostei de ter lido, do prazer que senti enquanto lia”.

É isso, pensei, é essa memória do efeito que aquela obra produz em nós que permanece gravada na carne quase quatro décadas depois.

Flipbook (traquitana óptica criada para dar a ilusão de movimento antes da invenção do cinema).

Na última Bienal, em SP, eu perdi a conta de quantas obras eu vi. Eu visitei o pavilhão por dias consecutivos, eu li antes e depois sobre as obras, eu estudei a proposta da curadoria. No entanto, se perguntassem o que me tocou, me apontando de supetão um microfone na saída do Ibirapuera, nem sei o que diria. Mas agora, mais de dois anos depois, o que ficou?

Lembro da sensação de caminhar até lá, porque fui a pé, de cruzar o parque todo. Foram dias de sol. Lembro do eco das pessoas caminhando nas rampas, do burburinho, e das muitas obras antagônicas que tentavam conversar entre si. Lembro do meu esforço em fazer essas associações. Lembro de ter comido algo exótico, Tailandês? Mas de tudo o que eu vi e sobrevoei naqueles dias, o que me atravessou foi um vídeo de 7:54 minutos do artista holandês Roderick Hietbrink.

Engraçado pensar que ele me atravessou, porque se tratava, literalmente, de uma árvore enorme sendo transportada inteira, raízes, folhas, galhos, tronco e membros, de uma janela a outra através da sala de um pequeno apartamento.

Falei por dias desse vídeo nas minhas aulas. Estou aqui, hoje, anos depois, escrevendo sobre ele. Mas o motivo dele, e não qualquer outra obra, ter permanecido em mim, não está apenas nele, nem tampouco só em mim, mas no acontecimento do nosso encontro. Algo nele me fez parar. Algo meu fez com que eu permanecesse enraizada, ao contrário daquela árvore, até o fim. E depois disso, algo outro brotou, cresceu e se espalhou até chegar aí em você, hoje, nesse texto, enquanto tento reconstituir o meu encontro com aquela imagem que ainda faz sombra nas minhas entranhas.

Você poderia argumentar, “Ah, Nicole, mas isso não tem nada a ver com a imagem ser perfeita ou imperfeita”, é pessoal. Respondo: sim e não. É pessoal, desde que haja um lugar para você se inserir na imagem. Desde que o artista projete esse espaço para a partilha (pode ser uma cena vazia do Tarkovsky, uma pincelada branca “errada” na paisagem de Cézanne, um Glitch, um ruído, um tempo dilatado, um poro aberto, um convite, qualquer coisa que produza essa entrada). Não havendo lacunas, espaços vazios, faltosos, zonas indefinidas ou permeáveis, pode ser que a imagem nem se forme, ninguém entra, ninguém sai.

Mas e a Monalisa, ela não é perfeita? Você perguntaria. Não, não é. Ela tem um segredo, que está justamente no fato de estar inacabada (alerta de spoiler para quem pretende fazer aquela visitinha ao Louvre depois da pandemia): Leonardo deixou os cantos dos olhos e da boca indefinidos, justamente para que você projete nela o sentimento que quiser.

Na minha aula de filosofia na semana passada, o professor Ricardo Fabbrini comentava um texto de sua autoria, intitulado “Imagem e enigma”. O texto parece indagar sobre qual imagem ainda seria capaz de nos deter, como uma espécie de esfinge enigmática: decifra-me ou te devoro, numa sociedade que produz um excesso de imagens que vai muito além do que Guy Debord poderia ter formulado na sua Sociedade do Espetáculo, ou mesmo Jean Baudrillard quando escreveu sobre simulacros e simulações. Essa imagem de exceção teria o poder de restituir “a visão ao olho saturado”, reagindo à “iconomania contemporânea.”

Cena de Sociedade do Espetáculo, filme de Guy Debord (1973).

Mas como alcançá-la? Imersos que estamos em imagens que flutuam sem nunca se fixarem nas nossas retinas (tão fatigadas) e meramente nos conduzem até a próxima, a próxima e então à próxima imagem, qual delas nos faria parar e olhar, sentir alguma coisa, qualquer coisa, hoje? Que imagem teria esse poder de ser única, e não uma versão remixada de todas as outras?

Acho que todos nós poderíamos fazer esse exercício. Feche os olhos por um minuto e pense. De todas as imagens roladas a esmo na tela do celular, de todos os vídeos do TikTok com áudios estridentes repetidos, de tudo aquilo que hoje conhecemos antes pela imagem da coisa do que pela coisa em si: o que nos detém? Qual foi a última coisa que você viu e que efetivamente permaneceu no seu corpo? Quando você lembra dessa coisa, lembra mais da coisa ou do que pensou, sentiu naquele momento? E por fim, o que te anestesia os sentidos, quais são as imagens que não te causam nenhum bem ou dano, nada?

Fotograma de um vídeo do reels, usado para remixagem no Instagram. Fonte: @esenachoman.

Voltemos à aula de filosofia. No meio da explanação do texto, uma aluna pergunta: “Professor, e as fotos da Nan Goldin têm esse tal enigma? Sabe aquela foto que ela tirou dela mesma depois de ser espancada pelo namorado? Então, tem enigma?”

O professor respondeu algo como, “Não sei, tem pra você?”

Eu, na minha condição de ouvinte, escondida atrás do mute e com a câmera desligada, não disse nada, mas queria dizer: “tem pra mim, tem sim, eu sei que tem.”

Muito além das manchas roxas ao redor dos olhos ainda inchados, do olhar mais pungente que aquela árvore atravessando o meio da sala do apartamento holandês, para mim, a primeira e a última coisa que existe naquela foto é o batom vermelho. O símbolo máximo da feminilidade lasciva, devassa, erótica, libertina, lúbrica, voluptuosa, e que ganhou como “prêmio” um soco na cara. Quem manda ser puta? Mereceu, diria a sociedade, que na foto Nan Goldin encara, um mês depois de ter sido espancada, quando passa aquele batom, arruma os cabelos e posa, com ares de Luiz XIV, para seu autorretrato, como quem diz: eu ainda estou viva e vocês não podem me tirar daqui.

Nan Goldin, autorretrato, um mês depois de ser espancada (1984).

Mas esse é o meu enigma, é como essa imagem vive em mim. Há outros. Há o seu. Mas sem dúvida essa imagem precária alcançou o seu destino de viver em outro corpo além do seu estatuto de quadro pendurado na parede de um museu, ou foto na tela do seu celular.

E como ela conseguiu isso? Olhe bem para essa foto. Certamente não foi com o grão do filme, com a câmera HD, ou o ring light com ajuste de temperatura de cor que usou. Duvido até que haja alguém nesse mundo que diga: mas que bela fotografia! Duvido você ter coragem de imprimir e pendurar uma cópia dela na parede do seu quarto de frente para a sua cama. E, no entanto: duvido você ser capaz de esquecê-la.

Não é magia, não é tecnologia. É enigma.

P.S.: se você misturar as letrinhas, como numa sopa de macarrão, verá que da palavra enigma se faz também imagem.


Para ir além

A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord. Editora Contraponto. 238 páginas.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “Imagem ou enigma?

  1. Nicole! Achei muito massa te ler! Algumas de suas inquietações são minhas também. Me interesso demais no precário naquilo que ele me traz de falso, de artificial. Como a obra que me diz que é o que é, é construção, é mentirinha. Das peças de Brecht ao programa de Humor Hermes e Renato (que me deslumbrou na adolescência e não sei o que seria hoje), sempre me interessou aquela obra que me convida a estar com ela em sua produção, por isso, minha paixão pela incompletude. E sigo, tentando estudar isso, fazer uma arte que tenha a ver com isso… É muito interessante, é como um convite a ser outro expectador, como dito na aula de hoje, alguém que se demora na imagem

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