Como nossos pais | Plural
4 abr 2019 - 7h00

Como nossos pais

Marcelo Almeida conta como De Masi alerta que não temos extraído das novidades científicas e tecnológicas a ajuda que elas podem nos proporcionar

Gosto de ler autores que me ajudam a refletir sobre o mundo a minha volta, a expandir meu ângulo de visão. Fujo do ponto de vista da galinha, que tem os olhos voltados para o chão. Gosto de pensar que subi uma colina e vibrei com o que encontrei lá em cima: a amplitude de horizontes que se abriram diante dos meus olhos, cenários que eu desconhecia, a descoberta do nosso velho mundo por um ângulo novo.

Este mês receberemos Domenico De Masi em Curitiba para uma conferência que abre o Phi – Encontros de Conhecimento. Como muita gente, eu relacionava o nome De Masi com o conceito de ócio criativo, que ele cunhou e popularizou há alguns anos. Fui ver o que ele anda escrevendo atualmente e tive o privilégio de ler seu último livro antes mesmo que chegasse às livrarias. O título diz muito: Uma Simples Revolução – Novos Rumos para uma Sociedade Perdida (Editora Sextante).

De Masi é um sociólogo que adotou como tema de estudo o mundo do trabalho. Com seu treino de acadêmico, ele vai revisando a evolução do trabalho ao longo dos séculos pra nos dizer aonde chegamos. E aonde chegamos, segundo ele, é um ponto muito bom, onde tarefas repetitivas e cansativas podem ser delegadas às máquinas e onde a criatividade e a expressão da visão pessoal de cada um de nós é que fazem a diferença. Esse ponto onde estamos seria melhor ainda se… Ah, sempre tem esse “se”!

Tudo seria melhor se a sociedade, as empresas e os próprios trabalhadores aceitassem que as coisas mudaram e que não é preciso continuar fazendo tudo como nossos pais. É essa a “simples revolução”: abandonar a estruturação antiga, fordista, do trabalho, que exige que todo mundo trabalhe o mesmo número de horas, que valoriza quem sacrifica tudo pela profissão, que cobra a presença física mesmo quando a tarefa pode ser feita à distância.

A Ford criou o modelo de linha de montagem.

Eu entendo essa resistência. Mudar não é fácil, mudar desconcerta; dá medo de se perder ao abrir mão da rotina que delimita nossos caminhos diários e nos deixa com poucas opções. Com menos opções fazemos menos escolhas e, ingenuamente, pensamos que vamos errar menos. Na verdade, vamos nos expressar menos, viver menos. Que triste que isso é!

Muitas das discussões sobre o mundo do trabalho se propõem — com muita boa vontade, inclusive – a melhorar a vida das pessoas com base em soluções voltadas para o passado. O mundo em que meus filhos irão se iniciar em suas profissões é tão diferente do mundo que eu vislumbrei diante de mim quando era um estudante de Engenharia! Eu cresci analógico. Eles nasceram digitais. Por que a forma de trabalhar continua a mesma? De Masi tem razão, a sociedade está sem rumo. Mas as mudanças que introduzem novos jeitos de fazer e de viver estão acontecendo bem diante dos nossos olhos. Eu as enxergo porque convivo com pessoas de todas as idades e classes sociais – isso é uma benção na minha vida. Posso dizer que essa diversidade de relações e as leituras formam a tal colina que eu escalo todos os dias para tentar ver a paisagem lá do alto.

Logo nas primeiras páginas de Uma Simples Revolução, De Masi cita uma frase de Francis Bacon que achei muito bonita: “O tempo, como o espaço, tem desertos e solidões.” Ele usa essa citação para introduzir um tema que, notei, é muito caro a ele atualmente: o significado do tempo para uma humanidade que conhece a física quântica, que conquistou uma longevidade muito maior que a de seus antepassados, que inventou tecnologias que enganam as distâncias.

Francis Bacon, filósofo inglês.

Que um sociólogo que estuda o trabalho se ocupe também do tempo me parece bem sensato. O trabalho avança sobre o tempo das pessoas, mas quando o tempo sobra – e aí o chamamos lindamente de “tempo livre” – muitos não sabem o que fazer com ele. Deveríamos estar mais preparados para isso, diz o De Masi. Deveríamos ser tão educados para as horas de folga quanto somos educados para as horas de trabalho.

Sempre que tenho oportunidade, costumo sugerir para quem me ouve que a leitura é uma das formas mais lindas de usar o tempo. É uma viagem por “desertos e solidões” que nos permite compartilhar a grandeza do ser humano.

Como Domenico De Masi vem sendo publicado no Brasil há 20 anos, é possível acompanhar a evolução de seu pensamento. Neste seu livro mais recente, percebi que está menos “festivo” e que essa sobriedade lhe caiu bem. Ele termina o livro com um capítulo chamado “Simplicidade” – por coincidência, a virtude sobre a qual eu mais gosto de falar – em que admite que quando começou a escrever sobre a sociedade pós-industrial, há uns 30 anos, era mais otimista. Agora percebe que não temos conseguido extrair das novidades científicas e tecnológicas toda a ajuda que elas podem nos proporcionar. O que ele sugere é que se foque nas soluções porque elas estão aí, talvez um pouco escondidas pelas distrações que nos cercam. Eu diria que isso é o que fazem as pessoas simples, que reconhecem a complexidade do mundo, mas focam no que dá para fazer; que são sinceras e buscam a transparência e não a confusão. São elas que me mantêm confiante na possibilidade de uma “simples revolução”.

Para ir além

Uma Simples Revolução – Novos Rumos para uma Sociedade Perdida. Editora Sextante. 2019. 368 páginas. R$ 54,90.

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Domenico De Masi

Phi – Encontros de Conhecimento

23 de abril

Pequeno auditório do Teatro Positivo

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