Lado B - Uma Pessoa: Maringas Maciel, retratista | Plural
21 jun 2019 - 7h00

Lado B – Uma Pessoa: Maringas Maciel, retratista

O fotógrafo conta a Bia Moraes como depois de uma carreira dedicada à música passou a registrar imagens de pessoas como profissão

Curitibano, nascido no Capanema em 1961, Maringas Maciel é daquelas pessoas que todo mundo conhece na cidade – ou, pelo menos, já ouviu falar. Fotógrafo de gente, publicou seu primeiro livro – intitulado, não por acaso, Gentes – há dois anos. Lançou o livro O Rio Negro São as Pessoas, recentemente, e prepara outro, que vai se chamar Gente Trabalhando.
Crédito das fotos: Marigas Maciel

Tanta atividade fotografando, porém, é recente na vida de quem viajou o mundo acompanhando músicos e bandas.

“Começou em 1978, depois de uma apresentação da A Cor do Som no Teatro Guaíra, pelo Projeto Pixinguinha. Fiquei amigo do Dadi, Armandinho, Mú, Ari e Gustavo, e logo caí na estrada com eles, quando a banda fazia shows no Sul do Brasil, e com o Blindagem”, relembra Maringas.
Ele fazia de tudo um pouco: colava cartazes, distribuía panfletos, montava equipamentos. Trabalhou numa produtora chamada Macobras, do Helinho Pimentel, até que em 1985 foi morar no Rio de Janeiro e trabalhar com o Cazuza, durante os últimos anos da carreira dele.
“Com o Cazuza eu fui Roadie; ele nunca ia passar o som, e era eu quem passava a voz para ele. Com o Cazuza conheci grande parte do Brasil. Em 1988, fui trabalhar com a Marisa Monte e fiquei com ela 12 anos, fazendo todos os shows de 5 turnês pelo mundo todo, do Japão à Inglaterra, de Skopje a Chicago, de Pelotas a Tenerife.”
Foram 25 anos no show business. Até que Maringas parou com a profissão em 2002, já de volta a Curitiba. “Em 2008 comprei minha primeira câmera e comecei a fotografar. De lá pra cá sempre estou carregando uma máquina fotográfica comigo”, diz.
Waltel Branco

O que te fez virar fotógrafo?

Me tornei fotógrafo com 48 anos de vida, mas eu lembro de um fato ocorrido em São Paulo quando eu tinha 13 anos: peguei um ônibus urbano, do Capão Redondo até o Vale do Anhangabaú. Mais de hora e meia de viagem. Eu, sentado na janela do coletivo, fiquei “fotografando” as pessoas nas calçadas. Imaginei até uma câmera embutida em um óculos que clicasse através das piscadas. Cada vez que eu piscasse, uma foto seria feita. Hoje sei que o fotógrafo já vivia dentro de mim, mas pelas voltas que o mundo dá, só foi se revelar bem mais tarde. Meu interesse maior na fotografia é o retrato. Gosto de fotografar pessoas. Não me considero um fotógrafo, penso que sou um retratista. Virei fotógrafo porque passei a fazer fotos diariamente, todos os dias, de forma diletante, e acabei só fazendo isso. Aquilo que era hobby acabou se transformando naturalmente em profissão. Hoje pago minhas contas com a fotografia.
 
O que você mira quando aponta a câmera?
Nunca sei o que vai vir. Cuido do enquadramento e da exposição, e o resto acaba acontecendo. Não sou técnico, estou mais pra intuitivo. Não sei programar uma foto, sou guiado pela intuição.
 
Qual emoção é mais difícil de captar?
Gosto de clicar emoções em duas situações: ou a pessoa não está te vendo, ou a pessoa já está tão acostumada com a tua presença na cena, que se comporta como se você não estivesse presente. Fotos posadas, por incrível que pareça, são as mais difíceis para mim.
O que as viagens pelo Rio Negro te acrescentaram?
Eu já conhecia a Amazônia na época que eu trabalhava com shows, mas foram só nas grandes cidades. Entre abril e maio do ano passado, a convite da Ana Rosa Tezza, da Ave Lola Companhia de Teatro, fui fotografar para um livro nas comunidades ribeirinhas do Rio Negro. É um outro universo. Estar no meio da floresta junto das pessoas do lugar foi uma descoberta maravilhosa. São pessoas riquíssimas de conhecimento, com uma qualidade de vida invejável. Quando um menino está com fome, em vez de abrir um pacote de bolacha, ele vai apanhar uma fruta, pescar um peixe fresco. As pessoas são educadas (é “bom dia, boa tarde, boa noite” o tempo todo) e alegres.
A natureza exuberante grita ao teu lado o tempo todo. Nas comunidades em que estive, na região do arquipélago de Anavilhanas, o segundo maior arquipélago fluvial do mundo, a consciência da preservação está embutida nas pessoas, pois de 2007 para cá, quando a região virou área de preservação do Parque Nacional de Anavilhanas, a vida dos ribeirinhos melhorou. Eles ganham mais dinheiro com o turismo e a preservação do que ganhavam antes, com a extração de madeira.
Essas viagens no ano passado para fazer o livro e este ano para mostrar o livro para os personagens, me transformaram num propagandista do rio e das suas pessoas. Todo mundo precisa conhecer o Rio Negro, e a maravilha que é se sentir parte daquela exuberância.
Se pudesse escolher, quem você gostaria de fotografar?
Eu tenho um projeto que farei ainda um dia: reproduzir em fotos cenas que presenciei com meus olhos. Por exemplo: Ray Charles sentado numa poltrona na coxia de um teatro, esperando o momento de entrar em cena, enquanto beberica algo numa caneca de metal, que me pareceu ser de ouro.
 

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