2 fev 2022 - 10h00

Um judeu pode ter sido o delator de Anne Frank: e daí?

Esse fenômeno da coerção irresistível imposta pelo aparato nazista sobre os povos dominados não pode ser subestimado. Os nazistas sempre recorreram aos subjugados para cumprir sua meta genocida. Por meio do temor e do terror, ele manipulava e controlava a sociedade (tanto judaica quanto a população geral ocupada, no caso da Holanda)

Há algumas semanas, um livro lançado nos Estados Unidos presumiu um advogado e tabelião judeu como o principal suspeito de ter denunciado o esconderijo de Anne Frank e sua família aos nazistas, em Amsterdã. A obra “The Betrayal of Anne Frank” (“A Traição de Anne Frank”), de autoria da premiada biógrafa canadense Rosemary Sullivan, resgata o nome de Arnold van den Bergh, já investigado em 1963, como do suposto responsável pela traição.

Parte das conclusões da equipe de investigadores, que inclui um ex-agente do FBI e um rabino, assenta numa premissa segundo a qual Otto Frank, por diversas vezes, mencionou acreditar saber quem os traiu. No entanto, ele nunca revelou publicamente o nome. Seguindo tal lógica, os pesquisadores presumem que, diante da vergonha de ser um judeu o suposto traidor, Otto ocultou a identidade de van den Bergh. Há descrença e controvérsias, caso do professor holandês Johannes Houwink ten Cate, dedicado aos estudos do Holocausto, que afirmou que as evidências fornecidas são muito “fracas”. “Grandes acusações precisam de grandes provas. Não há”, afirmou o acadêmico num jornal local.

Dúvidas e faltas de evidências à parte, essa investigação contribui para a reconstrução não apenas da trajetória da jovem Anne e de sua família, mas também do contexto do Holocausto.

O mais relevante dessas descobertas tardias não é a questão histórica em si – e que ainda será preciso aprofundar, pesquisar, validar essas fontes históricas e autenticar tal hipótese junto à comunidade internacional – o que, cá entre nós, será tarefa árdua em função da desconfiança de muitos historiadores, que já apontaram erros e “imprecisões” no processo. Enfim, faz parte da metodologia científica. O que mais interessa, no entanto, tem a ver com a recepção e a capacidade de compreensão, por parte do grande público, do que o nome de van den Bergh significa – não para a narrativa específica da jovem Anne Frank, que se tornou um fenômeno literário em todo o mundo e explica a atenção da mídia, e sim para a conjuntura geral da perseguição e do extermínio de judeus por parte dos nazistas.

A evidência de que teria sido Arnold van den Bergh é apenas circunstancial, não é forense. Não há sobreviventes vivos que possam dilucidar o caso. No entanto, a notícia de que um judeu teria sido o responsável por delatar a família de Anne Frank repercutiu fortemente na imprensa internacional, incluindo a brasileira. E antes de tirarmos conclusões precipitadas, é necessário, portanto, refletir de forma mais profunda sobre as estratégias nazistas de controle e de repressão que envolviam medo e a ideia de colaboração coercitiva.

Família Frank.

Repressão e coerção

Já há algumas décadas, o historiador austríaco Raul Hilberg escreveu sobre os papéis que os personagens do Holocausto desempenharam na Europa: de perpetrador, de vítima e de observador (seu livro “Perpetrators, Victims, Bystanders: the Jewish Catastrophe”, de 1992, é um clássico da historiografia do Holocausto). Hoje, sabemos que esses papeis não eram tão estáticos, e sim muito mais fluidos e ramificados: perpetradores, colaboradores, salvadores, vítimas, fugitivos e observadores passivos se mesclavam em determinadas circunstâncias. Hoje, sabemos que homens e mulheres podiam desempenhar papeis diferentes, inclusive simultaneamente – e sem qualquer tipo de juízo de valor da nossa parte. Conhecemos muitos casos de papeis fluidos, como do oficial do exército alemão Wilhelm Hosenfeld, que servia em Varsóvia a partir de 1940 e ajudou o pianista Wladyslaw Szpilman a sobreviver, fornecendo-lhe um esconderijo e alimentos. Trata-se de um perpetrador que assumiu o papel de salvador, como o próprio Oskar Schindler – e que também poderia ser o caso do holandês Arnold van den Bergh: uma vítima que assumiu o papel de colaborador.

Um dos fatores que proporcionava essa fluidez era justamente o caráter opressor, repressor, tirânico e genocida do regime nazista. Esse fenômeno da coerção irresistível imposta sobre os povos dominados não pode ser subestimado. Os nazistas sempre recorreram aos subjugados para cumprir sua meta genocida. Por meio do temor e do terror, eles manipulavam e controlavam a sociedade (tanto judaica quanto a população geral ocupada, no caso da Holanda). Usaram franceses para delatar franceses, holandeses para delatar holandeses, belgas para delatar belgas, gregos para delatar gregos – incluindo, obviamente, judeus para delatar judeus, sob o princípio da responsabilidade coletiva.

Uma curiosidade: a Holanda é um país com um dos maiores índices proporcionais de judeus que foram capturados e deportados por causa de delação, de quem quer que seja. Mais do que na Polônia, na Alemanha ou na Ucrânia.

Cobertura jornalística

No geral, este foi um erro da cobertura de jornais e redes de televisão sobre o assunto: não colocaram em xeque a perseguição nazista, e sim a figura central do possível delator de Anne Frank. Como se inexistisse um sistema coercitivo propício para as denúncias, como se o modus operandi da Gestapo, a polícia secreta oficial da Alemanha nazista, não tivesse prosperado nas áreas ocupadas durante a 2ª Guerra Mundial, como se houvesse sido uma decisão íntima e unilateral de van den Bergh. Na maioria das vezes, as matérias jornalísticas sugeriam uma desinformação: que supostamente seria por culpa exclusiva de um judeu que Anne Frank e sua família tiveram seus trágicos destinos.

Tal ênfase leva a conclusões simplistas ou historicamente questionáveis – assim, seria possível afirmar que “judeus entregavam judeus” como se diz que “africanos escravizavam africanos”, numa perspectiva rasa e ideologicamente deturpada. Isso é resultado de uma cobertura jornalística que não questionou o sinistro sistema de perseguição nazista, mas apenas a posição do suposto delator. E este é um olhar muito cruel, que “lava as mãos” dos verdadeiros perpetradores e culpa quem não pode mais se defender.

Hannah Arendt.

Novamente, constatamos que o trabalho de pesquisadores acerca de trajetórias individuais precisa vir acompanhado de adequadas intervenções sobre o contexto e, nesse caso, sobre o complexo regime de repressão, medo e cumplicidade que os nazistas impunham aos judeus durante o Holocausto. É um exemplo do uso do micro para refletir sobre o macro. E aqui, mais uma vez, nos desprovemos de julgamentos éticos e relativizamos a discussão proposta por Hannah Arendt, que condenou, de maneira efusiva, as lideranças judaicas que entregavam listas com endereços de judeus em cidades ocupadas pela Europa.

Para a história individual da Anne (e para todas as outras milhões), é importante que resgatemos e saibamos de cada detalhe. No entanto, para uma visão histórica mais abrangente – e que auxilia na construção da memória coletiva da tragédia, conhecendo os procedimentos do aparelho genocida nazista, a autoria da delação não é o x da questão. Importante é entendermos que a responsabilidade é do caráter opressor e repressor dos próprios nazistas. Parece óbvio, mas a culpa é sempre do agressor.  

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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