Há 50 anos, o mundo reconhecia a obra de Neruda | Jornal Plural
13 jan 2021 - 11h13

Há 50 anos, o mundo reconhecia a obra de Neruda

Prêmio Nobel foi a consagração do maior dos poetas chilenos

Há alguns escritores que todo mundo sabe que um dia vão receber o Nobel, é só uma questão de tempo. Infelizmente, em alguns casos, a Academia demora tanto que o prêmio, dado como certo, acaba nunca saindo: caso do argentino Jorge Luis Borges, por exemplo. Mas às vezes tudo dá certo e o “milagre” acontece.

Foi justamente como “milagre” que Pablo Neruda classificou sua escolha para o Nobel de Literatura de 1971. “Enfim parece que sou mesmo agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ótimo, vocês sabem que nós, poetas, sempre estamos esperando milagres. E o milagre realizou-se”, disse ele à época.

Em 1971, Neruda já era louvado por meio mundo como um dos grandes escritores de nosso tempo. Autor de clássicos como Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, Canto Geral e Cem Sonetos de Amor, o poeta tinha 67 anos e uma longa carreira, tanto na literatura quanto na diplomacioa.

Gabriel García Márquez saudou o prêmio (que ele próprio receberia em 1982) como uma homenagem àquele que considerava “o maior poeta do século vinte, em todas as línguas”. O crítico Harold Bloom, anos mais tarde, definiria Neruda como um dos momentos áureos da literatura contemporânea.

O Nobel, cujo cinquentenário se comemora neste ano não só no Chile, veio sacramentar tudo isso na forma de um reconhecimento universal. Num discurso que se tornaria famoso, ao receber o prêmio, Neruda fez várias afirmações sobre a poesia, a dele e a dos outros:

  • “A poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em igual medida a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si próprio, a intimidade do homem e a revelação secreta da natureza.”
     
  • “De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos.”
  • “O poeta não é um pequeno deus. Não, não é um pequeno deus. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao daqueles que exercem outros misteres e ofícios. Tenho expressado frequentemente que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não pensa que é deus.”
  • “E se o poeta chegar a alcançar esta consciência simples, poderá também a consciência simples converter-se em parte de um colossal artesanato, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega de uma mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos.”

É curioso que o cinquentenário de um Nobel seja objeto de comemoração. Afinal, o prêmio é concedido todos os anos. Mas nem sempre vai para escritores que conseguiram abalar uma geração. O próprio Nobel reconheceu isso ao definir o motivo que levou à escolha do escritor:

“Pela poesia que, com a ação de uma força elemental, reaviva o destino e os sonhos de um continente.”

Neruda, além de seus livros, galvanizou o imaginário da juventude latino-americana com seu modo romântico de ver a vida e a política. O título de sua autobiografia, Confesso que Vivi, mostra isso em pouquíssimas palavras.

Na sua carreira, Neruda não só fazia o ofício solitário da poesia, como também tinha atuação política e declamava para multidões. Uma dessas ocasiões ocorreu no Brasil, quando diante de um Pacaembu lotado homenageou Luiz Carlos Prestes.

No Chile, com a posse de Salvador Allende, é convidado a ler para mais de 70 mil pessoas no Estádio Nacional, de Santiago – que se tornaria famoso anos mais tarde como local de prisão política no governo de Pinochet.

Neruda morreu dois anos após receber o Nobel, de um câncer na próstata. Seu país já estava sob uma ditadura, que duraria 18 anos e ele era considerado um inimigo político do regime – sua casa foi saqueada por ocasião do golpe de 1973.

No entanto, hoje o que ficou foi sua obra: um catálogo imenso e generoso de poesia romântica e moderna, uma obra que lhe valeu o reconhecimento não só de seu tempo como também da posteridade.

Esta coluna é uma parceria entre o Centro Cultural Hispano e o Plural.

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