Velhos tempos e o desafio dos novos tempos | Jornal Plural
Clube Kotter
2 set 2020 - 15h20

Velhos tempos e o desafio dos novos tempos

O que Juca Chaves, o menestrel maldito, diria/cantaria hoje sobre a situação do Brasil cada vez mais sem eira nem beira por conta do bolsonarismo?

Músico e humorista, Juca Chaves, nome artístico de Jurandyr Chaves, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 22 de outubro de 1938. Nos bons tempos do rádio, ficou famoso por suas modinhas que satirizavam as mazelas do governo e da sociedade em geral.  

Ainda criança, levado pela família, foi morar no Jardim Europa, em São Paulo. Interessado por música e poesia, com 6 anos compôs “Hino aos Cachorros”. Aos 7 anos, aprendeu a tocar violão. Com 12, compôs “Semente Bonitinha”, uma modinha de amor, dedicada a Neusa, que tinha 10 anos. Matriculado em um curso de piano, após 5 aulas abandonou o curso:  

– A professora batia em minha mão e eu batia na mão dela.  

Com 13 anos, reuniu a coletânea de 11 poesias Meus Primeiros Versos, dedicado a musas diversas. Com 16 anos, frequentava o Clube Pinheiros e foi ali que conheceu Ana Maria, sua mais famosa musa e para quem fez várias canções.  

Crônicas e versos  

Em parceria com Lemos Brito e Ricardo Amaral, Juca fundou a revista Rua Augusta Chic, onde publicava crônicas e versos. Passo seguinte, no Centro de Oratória Rui Barbosa, em 1955, recebeu o diploma de História e Composição da Música Brasileira. Foi nessa época que começou a se revoltar com a sociedade, dai o espírito satírico que o acompanharia em todas as suas modinhas.  

Emprego e cabelo cortado  

Aos 19 anos, reprovado no curso científico, foi levado pelo pai a trabalhar em um banco, sendo obrigado a cortar o cabelo, o que o deixou revoltado. Os problemas com o pai provocaram a saída de casa. Juca foi morar com a avó. Para ganhar uns cobres, passou a dar aulas de violão – “mas só para meninas”, dizia.  

Com mais tempo livre, realizou seu primeiro recital no Teatro Leopoldo Fróes, apresentação patrocinada por jovens da alta sociedade.  

A outra face  

Em 1960, pela RGE, com arranjo de Henrique Simonetti, lançaria o LP As Duas Faces de Juca Chaves, com a música “Por Quem Sonha Ana Maria?” Ela foi composta para a sua musa:  

Na alameda da poesia  

chora rimas o luar  

Madrugada e Ana Maria  

sonha sonhos cor do mar.  

Por quem sonha Ana Maria  

nessa noite de luar?…  

Presidente Bossa Nova 

Em 1961, Juca compôs “Presidente Bossa Nova”, sátira inspirada no presidente Juscelino Kubitschek, o JK:  

Bossa nova mesmo é ser presidente  

desta terra descoberta por Cabral  

Para tanto basta ser, tão simplesmente,  

simpático, risonho, original,  

depois desfrutar da maravilha  

de ser presidente do Brasil…  

A música foi proibida pela censura. Graças a um mandado de segurança, Juca, pela primeira vez no Brasil, levou a melhor numa questão judicial com a censura. Dias depois, Juca conseguiu uma entrevista com o presidente – compareceu descalço ao encontro.  

E as sátiras continuaram – incomodando muita gente.  

Em 1962, Juca lançou a sátira “Caixinha Obrigado”, onde batia nas mazelas político-administrativas da época. A música causou polêmica e o autor  teve que retirar da letra o nome de uma deputada.  

Caixinha, Obrigado  

A mediocridade é um fato consumado  

na sociedade  

onde o ar é depravado.  

Marido rico, burguesão despreocupado  

que foi casado  

com mulher burra, mas bela  

o filho dela é político ou tarado.  

Caixinha… obrigado!…  

E tem ainda o porta-aviões:  

– Brasil já vai a guerra, comprou um porta-aviões  

Um viva pra Inglaterra de oitenta e dois bilhões  

Mas que ladrões…  

Exílio na Europa  

Em 1963, Juca partiu para a Europa. Esteve em Portugal onde se consagrou como ídolo dos jovens. Na Itália, começou tocando órgão numa igreja. Pouco depois estava tocando em cabarés e apresentou-se na televisão, gravou oito compactos e um LP.  

A música “Pequena Marcha Para um Grande Amor” foi um sucesso de vendas. Em 1969, retornou ao Brasil e começa a fazer shows pelo país.  

“Pequena Marcha Para Um Grande Amor”  

A lua vai dormir encabulada  

na passarela da madrugada.  

Meus olhos vão sonhar sob a janela  

dos olhos dela, dos olhos dela.  

meu amor de amor se esconde  

se esconde aonde  

o teu não vê  

não vê porque  

Meu amor não é segredo  

morre de medo  

do segredo  

que é você.  

Menestrel Maldito  

No Rio, Juca criaria o Circus Sdruws (S de snob, D de divino, R de ralé, U de wonderful, W de water closed e S de souvenir), nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde apresentava o show Menestrel Maldito. Depois, Juca Chaves voltou a fazer shows por todo o país e, ao se apresentar em programas de televisão, tascava sua irreverência.  

Um bordão famoso do menestrel, como gostava de ser chamado: – Vá ao meu show e ajude o Juquinha a comprar o seu caviar.  

O governo João Goulart (1961 a 1964) ficou marcado por conta do golpe civil-militar de 1964. E aí temos “Dona Maria Tereza”:           

Dona Maria Tereza,  

diga a seu Jango Goulart,  

que a vida está uma tristeza, que a fome está de amargar,  

E o povo necessitado,  

precisa um salário novo,  

mais baixo pro deputado,  

mais alto pro nosso povo.  

Dona Maria Tereza,  

assim o Brasil vai pra trás,  

quem deve falar, fala pouco,  

Lacerda já fala demais.  

Enquanto feijão dá sumiço,  

e o dólar se perde de vista,  

o Globo diz que tudo isso,  

é culpa de comunista.  

Dona Maria Tereza,  

diga a seu Jango porque,  

o povo vê quase tudo,  

só o parlamento não vê,  

Dona Maria Tereza,  

diga a seu Jango Goulart,  

lugar de feijão é na mesa,  

Lacerda é noutro lugar háháhá!  

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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