Terra em Transe – ontem e hoje | Jornal Plural
19 fev 2020 - 21h44

Terra em Transe – ontem e hoje

As ações e as bravatas do atual ocupante do Palácio do Planalto fazem muita gente lembrar da obra-prima de Glauber Rocha

Embora o atual (des)governo federal esteja mais para ópera-bufa ou comédia pastelão, há quem tenha lembrado de um dos filmes nota 10 de Glauber Rocha (1939-1981): Terra em Transe (1967). Nele, temos Porfírio Diaz, o mau caráter que detesta seu povo e pretende se tornar imperador de Eldorado, um país localizado na América do Sul.

E é do cineasta baiano o grito de guerra:

– Câmera na mão e uma ideia na cabeça. Mais fortes são os poderes do povo!

O filme motivou muitos debates e controvérsias – em termos culturalmente elevados, respeitosos, o que, hoje, certamente, seria muito difícil de ocorrer.

Proibido aqui e lá fora

Com roteiro do próprio Glauber, o filme foi proibido em todo território nacional pela tal revolução redentora de 64. Para os donos do poder, sempre de plantão, Terra em Transe era subversivo e irreverente até com a Igreja – e só seria liberado com a condição de que fosse dado um nome ao padre interpretado por Jofre Soares. No poder, diante da câmera, estava Porfírio Diaz, nome de um ditador que mandou e desmandou no México por 31 anos. Finalmente liberado pela censura da ditadura civil/militar, o filme marcou sua estreia no dia 19 de maio de 1967, no Rio de Janeiro. Já em Portugal, permaneceria proibido até 1974.

O senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) vive trombando com homens que querem o poder e resolvem enfrentá-lo. No meio do tiroteio está o jornalista (e poeta) Paulo Martins (Jardel Filho). Sofrendo para exercer (corretamente) a sua profissão.

Jardel Filho faz o papel do jornalista Paulo Martins em Terra em Transe

Filme para sala de aula

Em novembro de 2015, por conta da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), Terra em Transe passou a integrar a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Tanto que, em artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição de abril de 2015, o professor Sander Cruz Castelo, da Universidade Estadual do Ceará, defendeu a exibição do filme em sala de aula, “o que favoreceria o ensino de História”. Com Terra em Transe, destacou, “Glauber ataca todos os interesses do tempo do golpe civil-militar de 1964”. Para o professor, o filme “favorece a reflexão social e política”.

De Glauber:

– Não tenho pretensões de fazer grandes filmes. Tenho apenas a justa ambição de expressar a minha realidade da maneira que posso expressar. Viso todas as camadas do público. Se meus filmes são às vezes herméticos, reconheço que isso é uma falha minha. Mas só me sentirei bem com o cinema no dia em que, sem fazer concessões à pornografia e ao mau gosto, atingir o público. (…)

– Terra em Transe é um filme sobre política e é um filme político. Ele não contém mensagens acabadas, eu não sou professor. É um espetáculo sobre política, um espetáculo sobre os problemas morais da política, um espetáculo sobre a consciência política e um espetáculo sobre os movimentos políticos.

– Técnica de filmar? Improviso total com os atores e a câmera. Mas, antes, dois anos de roteiro, 700 páginas escritas e reescritas. Depois podemos improvisar à vontade, recriando o mundo, a atmosfera, os sentimentos.

– O cinema vem do ator, do ar, da luz, dos cenários, do humor da equipe, da alegria ou da tristeza, do cansaço ou da disposição.

Da censura à prisão

Terra em Transe foi indicado para a mostra competitiva do Festival de Cannes apesar da oposição do Itamaraty, que indicou para o festival a comédia Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira.

Glauber Rocha ganhou o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes por Terra em Transe.

Glauber foi preso em novembro de 1965 por participar do protesto contra a ditadura durante uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Rio de Janeiro. Ficou preso durante 23 dias.

De 1971 a 1976, banido pela ditadura civil-militar, viveu no exílio.

Terra em Transe conquistou o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel, na Espanha, o Prêmio de Melhor Filme do Locarno International Film Festival e o Golfinho de Ouro de melhor filme do ano, no Rio. Já com O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1968), Glauber ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e, outra vez, o Prêmio Luiz Buñuel, na Espanha.

Imaginem hoje um filme de Glauber sobre o momento político brasileiro.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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