Quando jornalista (quase) vira notícia | Plural
17 jul 2019 - 22h49

Quando jornalista (quase) vira notícia

Tempos terríveis. E não de agora. O país sob o tacão da ditadura (civil) militar de 64. No dia 13 de junho daquele ano, os donos…

Tempos terríveis. E não de agora. O país sob o tacão da ditadura (civil) militar de 64. No dia 13 de junho daquele ano, os donos do poder decidiram criar, via decreto-lei número 4.341, o SNI – Serviço Nacional de Informações, cujo objetivo era “supervisionar e coordenar as atividades de informações e contrainformações no Brasil e exterior”.

Pouco tempo depois, em Curitiba, um (então) jovem repórter foi pautado para fazer uma matéria sobre a instalação de uma agência do SNI na capital. Endereço anotado, um edifício, quase na Praça Santos Andrade. E lá foi o jornalista. Segundo andar, apartamento 21. Toca a campainha, um agente abre a porta e o jovem se identifica imediatamente:

– Boa tarde. Sou repórter do jornal…

Não consegue concluir.  O agente começou a esbravejar, tão apavorado quanto o repórter:

– O que você está fazendo aqui? Suma já daqui, fora, rua!

Antes de acabar virando notícia, o repórter tratou de ganhar a rua. Consolo – já na redação: pelo menos confirmamos que o SNI chegou a Curitiba.

Ainda do mesmo repórter, tempos depois: cobrindo a Auditoria Militar, no então quartel da Praça Rui Barbosa, um belo dia, ou melhor, um certo dia, nada belo, tem uma audiência importante: no banco dos réus, o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, preso após a tentativa de instaurar a guerra de guerrilhas no país.

E eis que, dos degraus da Auditoria, tímida e de passos temerosos, surge uma senhora. Com ela, uma criança, neta de Cardim Osório, que ainda não conhecia a menina.

O juiz auditor, Célio Lobão, permite um breve encontro de Cardim com a neta. O fotógrafo do jornal documenta o encontro. Uma das fotos mostra o guerrilheiro com a netinha no colo. Ambos esboçando um sorriso. No dia seguinte, com o devido destaque, a foto ilustra a matéria do jornal O Estado do Paraná. E a reação foi imediata, violenta, ameaçadora. O jornal estaria glorificando um coronel subversivo, assassino, sanguinário…

Por pouco o repórter, o fotógrafo e o editor não foram parar nos autos de um tenebroso IPM – Inquérito Policial Militar.

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