O cinema com algo mais - e muito talento | Jornal Plural
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26 ago 2020 - 18h40

O cinema com algo mais – e muito talento

Hitchcock fazia breves aparições em seus filmes; já Fellini, com anúncios em jornal, contratava tipos estranhos para cenas de rua com transeuntes

Por conta do comentário de um amigo, que aproveitava o isolamento em casa para ouvir músicas de filmes de Federico Fellini, há quem tenha recorrido a outro mestre, Alfred Hitchcock. Cada louco com sua mania, ou melhor, no caso, cada gênio com suas magistrais provocações. Os filmes de Alfred Hitchcock (1899- 1980) tinham uma marca registrada: a sua participação como mero figurante. Ele sempre aparecia como um homem comum, atravessando a rua, alguém em um banco de praça ou saindo de uma loja. Durante toda sua carreira, Hitch apareceu em 39 de seus filmes. Mas, como justificaria, para não desviar a atenção do público no decorrer da história passou a dar as caras logo no início da projeção.  

Camafeu nas telas  

Em vários de seus filmes, Hitchcock usou o que é conhecido como cameo (literalmente, camafeu, significando uma “participação especial”, em português), quando uma pessoa famosa aparece em um filme. Porém, nas obras de Hitchcock, quem aparecia era ele próprio. E era visto em breves sequências, geralmente no início dos filmes. Alguns exemplos de Hitchcock em cena:  

Rear Window (Janela Indiscreta) – aparece dentro do apartamento do pianista.  

Psycho (Psicose) – passa pelo escritório de Marion com chapéu de cowboy.  

Torn Courtain (Cortina Rasgada) – aparece logo aos oito minutos segurando um bebê na área de recepção do hotel em que os protagonistas se hospedam.  

 Frenzy (Frenesi) – no início do filme, surge no meio da multidão que está às margens do rio quando o corpo de uma vítima aparece boiando.  

Suspicion (Suspeita) – aparece colocando uma carta no posto dos correios.  

Autor de mais de 20 trabalhos, como Oito e MeioA Estrada da VidaAs Noites de Cabíria e Ginger e Fred, FedericoFellini (20 de janeiro 1920/31 de outubro 1993) também marcava seu trabalho pelas figuras extravagantes que faziam figuração.  

De cartunista a cineasta  

Federico Fellini.

Outro mestre, Federico Fellini (1920/ 1993), autor de mais de 20 trabalhos, entre eles Oito e MeioA Estrada da VidaNoites de Cabíria e Ginger e Fred, também marcava seu trabalho pelos tipos estranhos, fora de esquadro, que faziam figuração em suas obras.  

Como foi registrado em texto de Sam Stourdzé, curador da exposição Tutto Fellini, que veio ao Brasil em maio de 2012: o primeiro emprego de Fellini, saindo da adolescência, foi o de cartunista de um jornal satírico em Roma. “Em seus primeiros traços, recém-chegado de Rimini, cidadezinha do interior, ele já mostrava figuras que iriam povoar seus filmes anos depois: mulheres grandes, homens pequenos e um humor todo particular. E desenhava mulheres bem fellinianas, como Anita Ekberg (A Doce Vida), e ele nem tinha 20 anos.”  

O cineasta colocava anúncios em jornais com o seguinte texto: “Federico Fellini receberá a todos que queiram vê-lo”. E escolhia caricaturas reais. Os figurantes eram remunerados pela aparição nos filmes. As caricaturas eram só uma parte da obsessão de Fellini pelo desenho, ao qual dedicava atividade o tempo inteiro – amigos, cenários, storyboard, tudo era alvo de seus traços.  

Ainda de Sam Stourdzé:  

– Quando não estava filmando, todos os dias, durante a vida inteira, ele trabalhava com desenhos para manter, talvez, sua inspiração funcionando. Mas é mais do que um livro dos sonhos. Ali, podemos encontrar muitas das figuras e atmosferas que depois estariam em seus filmes. Uma ligação direta pode ser feita, por exemplo, com os comerciais que Fellini fez no fim da vida, em 1992, para um banco italiano. “Num deles, um senhor de meia idade está almoçando com uma bela garota no campo e num piscar de olhos se vê amarrado numa estrada de ferro, com um trem vindo em sua direção, para, enfim, acordar e contar tudo a seu analista – Fellini era um grande admirador da obra de Carl Jung e da psicanálise”.  

Do sonho ao paparazzi  

– Apesar de sua fascinação por sonhos, o cineasta, descobriu-se, tinha também uma ligação estrita com o mundo real. A ponte do diretor com a imprensa sempre foi clara – o termo paparazzi foi cunhado por ele em A Doce Vida (1960) –, mas ele usava como referência muito do que lia em jornais e revistas. Ele trabalhava com muito cuidado para alterar fatos que aconteceram na vida real e os colocava em seus filmes.  

 A Doce Vida é uma prova cabal. Na cena de abertura, um helicóptero aparece carregando uma estátua de Cristo pelos céus de Roma. Pois uma imagem idêntica foi encontrada numa cine-reportagem, daquelas projetadas no cinema, gravada quatro anos antes em Milão – certamente Fellini a havia assistido. A sequência de strip-tease e o próprio banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi também não foram originais, mas baseados em casos similares retratados pelas revistas de celebridades da época.  

Um mandrake no Mandrake  

– Todo esse processo criativo foi exposto em Tutto Fellini, assim como um farto material de bastidores, a relação intensa do diretor com as mulheres e outras curiosidades. É o caso, por exemplo, de sua fascinação por histórias em quadrinhos: Fellini sempre sonhou em fazer um longa-metragem de Mandrake. Nunca conseguiu, mas vestiu Marcelo Mastroianni como o mágico numa fotonovela para a revista Vogue na década de 1970 e de novo numa passagem de Entrevista (1987).  

Bons tempos desse cinema e de quando não era preciso se esconder da Covid-19.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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