Cavem mais fundo | Jornal Plural
26 ago 2020 - 12h08

Cavem mais fundo

Bolsonaro é o maior perigo que nossa democracia enfrenta desde a redemocratização do país

Desde que assumiu a Presidência da República, Bolsonaro deu inúmeras demonstrações de desprezo pela liberdade de imprensa e pelo jornalismo.

Segundo um relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras, apenas de janeiro a março de 2020, Bolsonaro fez 32 ofensas ou ataques à imprensa, sendo 15 ataques diretos a profissionais, dos quais cinco mulheres.

Um tema em especial faz Bolsonaro virar quase que, literalmente, um bicho. As transações ainda nebulosas entre seu filho Flávio e o ex-assessor Fabrício Queiroz, suspeitos de organizar um esquema de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual (e hoje senador) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Questionado sobre o assunto, o ogro que nele habita perde completamente qualquer resquício de compostura.

“Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”, disse a um jornalista em dezembro de 2019.

Na mesma entrevista, respondeu a outro repórter que o questionou se tinha comprovantes de empréstimo que dizia ter feito a Queiroz:

“Porra, rapaz, pergunta para sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, tá certo? Pelo amor de Deus. Comprovante, querem comprovante de tudo”, disse.

No domingo, 23 de agosto, ao ser questionado por um repórter do O Globo, sobre os depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta de sua mulher Michele, Bolsonaro respondeu, com a educação que lhe é peculiar: “Vontade de encher tua boca com porrada, tá? Seu safado”.

Das habituais agressões verbais, passou a ameaça de agressão física.

Autoritário, prepotente, arrogante, não aceita perguntas incômodas, despreza críticas, ameaça quem ousa questioná-lo ou confrontá-lo.

A reação de Bolsonaro não é e não pode ser encarada como apenas mais uma grosseria. É a confirmação de que ele pode chegar às últimas consequências e ultrapassar todos os limites para defender a família e os amigos – como já tinha afirmado naquela reunião ministerial. Para os seus, tudo, para os inimigos, a lei.

Ele despreza a liberdade e a verdade, faz pouco das instituições democráticas, ataca os demais poderes. Coisa boa isso não vai dar.

Que ninguém se engane: Bolsonaro é o maior perigo que nossa democracia enfrenta desde a redemocratização do país.

Por último mas nem por isso menos importante, a cobra que vive em mim teria dito ao dito cujo que a recíproca é verdadeira. Que minha vontade também é de encher a fuça dele de porrada, mas, porém, contudo, todavia, no meu caso seria apenas um extravasamento momentâneo de meu temperamento ofídico, enquanto que no dele é um comportamento incompatível com o decoro do cargo. Além de ser, obviamente, a demonstração inequívoca do medo – porque a hora da verdade está chegando.

Cavem mais fundo, colegas jornalistas. Investiguem, apurem, revelem. É isso que Bolsonaro teme e por isso ele ataca e ameaça. Follow the money, como já ensinaram aqueles colegas norte-americanos no século passado..

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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