25 maio 2021 - 8h48

Sete horas

Sem delongas, ele me informou que, infelizmente, precisaria ir para outra cirurgia de emergência

De acordo com Einstein, o tempo é relativo: para alguns, um determinado instante passa muito rápido, enquanto para outros, dura uma eternidade. Mas quanto vale o tempo determinado como sendo os seus últimos instantes? O meu foi de sete horas.

TIC TAC. Após a cirurgia para conter o rompimento do aneurisma (motivo pelo qual sofri o AVC hemorrágico), fiquei alguns dias me recuperando na UTI. Lá, fui medicada e recebi os primeiros cuidados para que eu voltasse a movimentar o lado esquerdo do meu corpo que fora lesionado. No nono dia de internação fui dormir feliz, porque, provavelmente, no dia seguinte seria liberada para a enfermaria, e logo depois, teria a tão sonhada alta. De acordo com os médicos, eu precisava ficar dez dias na UTI após a primeira cirurgia, porque esse era o tempo em que possíveis complicações do procedimento poderiam ocorrer. Eu estava no meu nono dia e, como nenhuma complicação tinha acontecido, já estava contando com a minha liberação. Porém, justamente nesta noite, eu acordei de madrugada com uma forte dor na cabeça e senti que tinha algo de errado, e pedi socorro ao enfermeiro de plantão.

Na manhã do dia seguinte fui levada para um consultório em que estava o neurocirurgião responsável por mim. Sem delongas, ele me informou que, infelizmente, uma complicação chamada vasoespasmo havia se manifestado no meu cérebro, causando um segundo AVC, agora isquêmico, e que, além de eu não poder ser liberada da UTI, agora precisaria ir para outra cirurgia de emergência. Nesta nova operação, eu teria 30% de chance de sobrevivência (na primeira, eu só tinha 12%), porém, sem ela, morreria em aproximadamente sete horas. Sete horas. Institivamente, olhei para o relógio pendurado na parede e vi que eram sete horas da manhã, e após um rápido cálculo, disse: “Então, você quer dizer que vou viver até a hora do almoço?” E ele respondeu – “Sim.”

Obviamente, optei pela cirurgia. E logo após assinar os papéis, fui reencaminhada à UTI, para talvez viver as minhas últimas horas. Aprendi com os longas-metragens americanos que, quando passamos pela experiência de saber que estamos vivendo os nossos últimos momentos, podemos fazer uma lista de pedidos para os instantes finais. Só que dentro de uma Unidade de Tratamento Intensivo, a realidade está mais para um filme noir francês: os minutos demoram a passar e a sensação é que não acontece nada. Eu queria ver meus amigos, mas a burocracia do hospital não permitia. Queria ler os livros que tinha recém-comprado, mas eles estavam na minha casa e, além disso, estava ficando cada vez mais fraca e com a vista embaçada: não iria conseguir ler muita coisa.

Pelo menos eu estava entorpecida pela morfina, porque além de inconveniente, o vasoespasmo dói horrores. Então, em boa parte dessas horas, fiquei “viajando” no tédio de esperar a minha vida passar. Também tive a sorte de perder a noção do tempo, mas não o suficiente para não perceber o trauma que é perder novamente todos os meus movimentos do lado esquerdo do corpo: todos reconquistados com tanto esforço desde o primeiro AVC. Resumindo: estava novamente acamada, com sonda e de fraldas. Não me desesperei, porque na altura desse campeonato, lutar pela vida é cansativo. Então, comecei a me entreter pensando no tempo.

É engraçado que quando pensamos em tempo de vida, só nos vem na cabeça as décadas que temos pela frente e esquecemos da importância dos minutos. Já parou para pensar que as grandes coisas na nossa vida acontecem em minutos e os relembramos a vida inteira? Coincidentemente (ou não), a vítima de AVC precisa ser socorrida nos primeiros minutos para sobreviver sem sequelas, por isso é tão importante que a pessoa ao lado dela reconheça os sinais… São nos minutos, talvez nos segundos, que as grandes ações são planejadas ou executadas. E nós queremos décadas para gastar esse tempo reclamando de tédio.

Depois do acidente, é comum os sobreviventes estipularem um tempo absurdo para se recuperarem, como: dois meses, seis meses ou um ano. Só que o cérebro não funciona nesse tempo maluco em que estamos situados. O tempo dele é em anos. Demoramos anos para voltar a nos movimentar e falar, e não se engane, nunca é do mesmo jeito que antes. Toda essa demora gera uma baita frustração no indivíduo, fazendo com que ele se sinta estagnado, sem perceber que está se reabilitando, ou pior: que pense que nunca mais vai se recuperar, porque o seu tempo de evoluir passou. Hoje eu digo que essa percepção é uma grande mentira, pois nesses dois anos de vida AVCista, conheci pessoas que continuaram melhorando anos depois do acidente, ao ponto de voltarem a mexer a mão e a andarem sem apoio. E foram elas que me fizeram acreditar que conseguiria o mesmo, principalmente em um período em que nem eu acreditava nisso. Sou extremamente grata a elas por me fazerem acreditar em mim.

A gratidão pela minha vida mediana também preencheu os meus pensamentos naquelas horas da tarde do dia 23 de maio de 2019. Até o momento em que, em um quartinho em que um enfermeiro me preparou para a temida cirurgia, ele descobriu uma guia de proteção do meu orixá enrolada no meu pulso esquerdo. Na UTI, o recomendado é jogar tudo o que se encontra com o paciente fora, mas ele foi legal comigo: banhou a guia no álcool e a colocou no meu pescoço, debaixo da camisola cirúrgica, para que eu me sentisse protegida. Até hoje também o agradeço por essa atitude. Depois, ele me deitou na maca e me levou até um elevador, especificamente até o quinto andar, onde fui encaminhada para uma sala cirúrgica bem pequena. Lá estavam todos me esperando, me deitaram em seu centro e logo adormeci no coma induzido.

Toda essa experiência me deu uma nova percepção do tempo. Atualmente, tenho 36 anos, estou numa idade em que as pessoas percebem que estão envelhecendo e começam a lutar contra as rugas. Eu, pelo contrário, desejo muito ficar bem velhinha. Uma velhinha fofa e sarcástica que sobreviveu a dois derrames e que gosta de contar histórias. Hoje, não quero mais lutar contra o tempo, quero dançar com ele. TIC TAC. 


Para ir além

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