22 maio 2021 - 9h26

Não é você que está ansioso. É o agora que está muito estreito

Com parâmetros cada vez mais imediatos, relações cada vez mais passageiras, metas cada vez mais para ontem, estruturas cada vez menos perenes, é difícil ficar no presente

Há dezenas de centenas de anos, num dia muito parecido com este, em que o Sol se levantou mais ou menos no mesmo lugar em que costuma atualmente se levantar -, um nativo de algum lugar das Américas decidiu que precisava derrubar uma árvore.

Ele pensou muito sobre isso. Pois sabia que as consequências dessa atitude, não tinham reflexo no futuro. Tinham consequências, sim, no agora. Talvez, seu neto precisasse da sombra daquela árvore em algum momento. Talvez seu bisneto gostasse de comer os frutos que as árvores filhas daquela dariam.

Talvez simplesmente aquela árvore fizesse falta, por alguma razão, no todo, um todo que, mesmo sem a ciência, só de olhar, ele sabia ser muito maior que ele.

Claro que ele não processou isso do modo utilitarista, com os mesmos prós e contras que nós utilizaríamos. Mas pesou as consequências imediatas, no agora, do corte daquela árvore.

Enfim, não temos como saber. Mas ele pensou no agora antes de decidir.

Acontece que o agora, com que ele estava intuitivamente tão comprometido, era um agora que durava uma geração depois da dele. Um agora de dezenas de anos. Não era para ele a sombra da árvore, mas para seus filhos e netos.

Um agora cada vez mais estreito

Um dos sensos comuns mais repetidos sobre a ansiedade é que o ansioso está ou remoendo o passado ou preocupado com as coisas que acontecerão e que talvez nem aconteçam no futuro. Ou seja, não está no agora.

Porém, o que observamos na nossa sociedade tecnológica é a velocidade das coisas. O agora está cada vez mais curto.

Nas redes sociais, não queremos saber se tem alguém ali, no sentido de lugar. Mas se tem alguém agora, naquele instante.

As fotos que vemos no Instagram, que têm um quantum de significado para quem a postou, tem menos significado para quem a fez rolar para cima. Para a rede que possibilita a publicação, não passa de um efêmero código em bits que faz com que o usuário permaneça mais uns segundos para consumir a publicidade que está logo abaixo.

O fato de hoje já é notícia velha amanhã. Amanhã não. Depois do meio dia, já é passado.

Iniciar um relacionamento mais duradouro é um desafio. Os relacionamentos duram o tempo de mais um match no Tinder. Se você fizer planos para a semana seguinte, isto é, sete dias depois do primeiro encontro, já está colocando sua mente muito à frente no futuro. A fila anda. Um dito que se popularizou em nossa época veloz.

O projeto concluído com sucesso na empresa não pode nem ter seus louros saboreados num guisado, pois antes que o guisado esteja pronto, já é preciso estar com algo novo no forno.

O Relógio do Longo Agora

A Fundação do Longo Agora se baseia em iniciativas que tornem as pessoas mais conscientes do tempo, iniciativas para alongar o agora. Entre elas, está na construção de um relógio cujas badaladas só se deem apenas a cada dezenas de anos.

Há algum tempo, li o livro O Relógio do Longo Agora, de Stwart Brand, que faz parte dessa fundação, em que ele justifica tal mecanismo para medir a passagem do tempo:

Mais e mais, o ritmo da civilização vem fazendo com que fixemos nossa atenção por períodos patologicamente curtos. A tendência pode ter chegado com a aceleração da tecnologia, com a perspectiva de curto prazo que marca a economia de mercado, com a perspectiva da democracia voltada para a próxima eleição ou com nosso afã de querer fazer cada vez mais coisas ao mesmo tempo. Tudo isso está em alta. É preciso alguma espécie de correção para contrabalançar a preocupação com o curto prazo – algum mito ou mecanismo que estimule uma visão de maior alcance e a disposição para assumir responsabilidades a longo prazo, em que o “longo prazo” seja medido, no mínimo, em séculos.

O que propomos é ao mesmo tempo um mecanismo e um mito. Partiu de uma observação e uma ideia de Daniel Hills, autor dos projetos de vários computadores. Ele escreveu em 1993:

Quando eu era criança, as pessoas costumavam falar sobre o que aconteceria no ano 2000. Agora, trinta anos depois, elas ainda falam sobre o que vai acontecer no ano 2000. O futuro tem encolhido um ano a cada ano ao longo da minha vida.

É hora de começarmos a elaborar um projeto de longo prazo, que faça as pessoas pensarem de modo a transpor a barreira mental do milênio. Gostaria de propor um grande relógio mecânico (pense em Stonehenge), cuja energia seria extraída das mudanças de temperatura no decorrer das estações do ano. O seu tique é ouvido uma vez por ano, um bong a cada século e o cuco sai do relógio a cada milênio.

Se equilibrando sobre uma lâmina

Apenas acontecimentos espetaculares causavam mudanças notáveis de uma hora para a outra na vida das pessoas. Hoje, não é preciso mais que uma mensagem no WhatsAapp. Que deve ser visualizada e imediatamente respondida, de preferência, em seguida. As comunicações por carta não têm mais lugar: levavam dias, semanas, entre uma resposta e outra.

Há algumas décadas era possível fazer planos para daqui a um mês e não ficar ansioso com isso: nem com a realização, nem com a não realização dos planos. Um mês, um ano, dez anos já foram momentos razoáveis para se colocar adiante.

Marcava-se um encontro (por carta) e uma vez confirmado (por carta), duas semanas depois estavam lá as duas pessoas na frente do bondinho, na hora combinada. Estou exagerando, mas antes dos celulares, esses encontros eram marcados por telefone e não era preciso nem confirmar: eles aconteciam. Hoje, quinze minutos antes, quando você já está no ônibus, recebe o aviso de desistência da outra pessoa que “se sentiu indisposta”.

Hoje, estamos mais e mais confinados entre um passado e um futuro cada vez mais próximos, como paredes que nos espremem em um presente cada vez mais estreito.

As incertezas do que acontecerá no dia seguinte colocam qualquer um que tente se prender a uma possibilidade futura mais ou menos certeira, em estado de ansiedade: não há mais possibilidade certeira. É como tentar escalar uma parede de azulejo, sem pegas e escorregadia.

Não é à toa que a ansiedade é um mal cada vez mais comum. Não são as pessoas que mudaram: é a relação com o tempo, um tempo que passa cada vez mais rápido, um tempo em que não é possível contemplar a permanência de algo. Então, o ansioso se equilibra em uma lâmina estreita por onde corre esse cada vez mais delgado agora.

Não só tudo como está neste instante pode desaparecer, como essa não-estrutura cada vez mais se torna a estrutura: agora é e, enquanto você lê esta curta frase, já era. Agora é outra coisa. E, de novo, não é mais. Toda solidez se tornou frágil, principalmente no que diz respeito às relações entre as pessoas, mais superficiais e fugazes.

Veja, não sou uma pessoa saudosa e nostálgica a respeito de como as coisas eram, como se há vinte anos as coisas fossem necessariamente muito melhores. Não tenho planos de voltar a enviar cartas e, embora tenha alguns planos que só vão se concretizar em algumas décadas, até sou afeito a alguns aspectos dessa velocidade toda. Porém, penso que individualmente podemos repensar a maneira como encaramos o agora, alongá-lo, de alguma forma, um pouco mais tanto para trás, no passado, como para frente, no futuro. Uma semaninha que seja.

O ansioso, nesse contexto, não é necessariamente uma pessoa doente. Ele é uma pessoa normal enfrentando uma realidade coletiva cada vez mais doente.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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