Efeitos colaterais - Jornal Plural
18 ago 2021 - 8h30

Efeitos colaterais

De modo geral, os sobreviventes de AVC utilizam três tipos de remédios: os anticonvulsivos, os anticoagulantes e os estabilizadores de humor

APRESENTAÇÃO
Todos que sofrem uma grave lesão grave no corpo, devido ao tratamento de uma doença ou de acidente, tem sua caixinha de remédios aumentada. Após algum tempo, esse excesso causa transtornos no nosso dia a dia, já que é muito remédio para apenas um corpo. Não são todos que aguentam.

USO ADULTO

COMPOSIÇÃO
AAS, Amitripitlina, Atenolol, Bacofleno, Bezilato de anlopidipino, Brilinta, Carbamazepina, Clopidogrel, Clexane, Fenitoína, Gardenal, Hidroclorotiazida, Isosorbida, Lamitor, Lozartana, Mioflex, Miosan, Marevan, Morfina, Oxcarbazepina, Oxigen, Pregabalina,Sinvastatina. Estes são alguns dos medicamentos utilizados pelos meus amigos sobreviventes.

INFORMAÇÕES AO LEITOR:

PARA QUE SERVEM?

De modo geral, os sobreviventes de AVC utilizam três tipos de remédios: os anticonvulsivos, os anticoagulantes e os estabilizadores de humor. Quem teve AVC hemorrágico entra para a turma dos que tomam anticonvulsivos, já quem teve o isquêmico precisa tomar anticoagulantes (justamente para evitar a formação de novos coágulos nos vasos sanguíneos), e como o machucado do cérebro afeta o nosso emocional, muitos de nós precisamos de certos estabilizadores, geralmente antidepressivos.

É claro que cada caso é um caso. Além do tipo da lesão, cada pessoa tem seu histórico: alguns já se tratavam de outras doenças, enquanto outros (assim como eu) eram até então vistos pela comunidade médica como uma pessoa cem por cento saudável e não faziam uso de nenhum controle medicamentoso.

Não vou negar que antes do acidente adorava um xarope quando a garganta arranhava ou um analgésico quando pegava uma gripe ou tinha uma dor de cabeça. Nada comparado a imensa quantidade de remédios que tive que tomar após o meu acidente: chegando à assustadora marca de nove medicamentos diferentes por dia.

ADVERTÊNCIAS E PRECAUÇÕES

É claro que a ideia é que esse número absurdo de remédios diminua com o tempo, até porque a ideia é de que o próprio organismo se adapte e comece a produzir as substâncias que necessite para se manter estável. Mas isso não acontece com todos os corpos, e exatamente esse é o motivo pelo qual não devemos interromper as doses da noite para o dia, pois o organismo pode dar um tilt e comprometer todo o tratamento.

O ideal é que façamos o “desmame” (a diminuição progressiva das doses) mediante acompanhamento médico. Este é o modo seguro de deixar de tomar qualquer remédio controlado, e esse método exige paciência e dedicação da parte do paciente.

GRAVIDEZ E AMAMENTAÇÃO

Para as sobreviventes que queiram engravidar, muitos dos nossos medicamentos podem prejudicar a gestação e a formação do bebê, por isso é indispensável consultar o médico neurologista antes das tentativas começarem, e caso a gravidez seja acidental, o neurologista deve ser avisado assim que possível, no mesmo período que o ginecologista.

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

Nessa nova vida pós-AVE vamos nos encontrando cada vez mais com outros profissionais de saúde, seja por exames rotineiros, novas decisões (como o de uma gravidez, por exemplo), ou outros probleminhas de saúde decorrentes da lesão ou da própria deficiência adquirida. Todos os novos médicos devem ser avisados do nosso tratamento neurológico (nome do medicamento e número das doses diárias) para que não receitem remédios que interfiram no funcionamento do nosso sistema nervoso central já fragilizado. Em contraponto, todas essas novidades medicamentosas devem ser avisadas ao nosso neurologista porque ele é o big boss desse emaranhado de comprimidos. Há casos em que os medicamentos se conectam muito bem, outros não, e sempre sobra para o nosso amigo neuro refazer os cálculos e testar novas formas de colocar o nosso organismo em ordem: é uma trigonometria biológica.

REAÇÕES ADVERSAS

Além das interações entre as diversas substâncias no corpo, existem os diversos efeitos colaterais de tanto medicamento no corpo, que vão de excesso de peso até problemas na pele, tonturas e dores. Aff, tenho todos eles. Meu corpo (acostumado a lidar somente com xarope e paracetamol) não lidou muito bem com toda essa química e me sinto a rainha das reações adversas. Até hoje não sei se os perrengues que passo são devido às sequelas do AVC ou se são efeitos colaterais. Para se ter uma ideia, para lidar com a terrível dor neuropática que se apresentava como agulhadas na perna lesionada e esmagamento do meu ombro esquerdo, me foi receitado um remédio que relaxava o meu sistema nervoso, e então eu pegava no sono. Só que não conseguia acordar por nada! Para não dar uma de Bela Adormecida e passar o dia dormindo, após algum tempo, eu e o médico começamos o “desmame” e fui obrigada a lidar com o retorno da dor até que ela se estabilizasse. Não foi uma decisão fácil, mas necessária. Não me arrependo.

MEDIDAS ALTERNATIVAS

Muitos pacientes, cansados do acúmulo dos comprimidos, recorrem a tratamentos alternativos que vão desde chás e terapias holísticas até o polêmico uso do óleo de canadibiol. Apesar do óleo não ter efeito alucinógeno, ele não tem eficácia cientificamente comprovada ao ponto de substituir um medicamento químico, por isso a sua utilização é considerada alternativa. Para se ter acesso, o processo é burocrático e relativamente caro, e tudo começa com a indicação dele pelo próprio neurologista (e atualmente apenas poucos deles prescrevem). Um fato que deve ser levado em conta é que o uso do canadibiol está relacionado ao controle de crises convulsivas, e não especificamente a outras sequelas do AVE, como espasticidade, dor neuropática e depressão. Porém, já ouvi casos de pessoas que garantiam terem melhorado após o uso do óleo, e acredito nelas.

De todo modo, é imprescindível que todos essas substâncias sejam utilizadas com acompanhamento médico e que o uso delas seja uma escolha conjunta do paciente e do médico. Afinal, o objetivo dos dois é o mesmo: que o organismo melhore.

Siga corretamente o modo de usar, não desaparecendo os sintomas, informe o seu médico.

TODO MEDICAMENTO DEVE SER MANTIDO FORA DO ALCANCE DAS CRIANÇAS E DE ANIMAIS.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Um comentário sobre “Efeitos colaterais

  1. Camila, você e suas matérias me impressionam cada vez mais. E sim, muitas surpresas passamos. Algumas pesadas e para o resto da vida. Comecei com 9 pílulas e agora 5. Mas no final era pra ser menos até um treco ano passado que fez brotar coisas genéticas , as 3 no sistema auto imunológico.: Lúpus, Trombofilia e SAF. Coisas que nunca imaginei e sem cura Permanente. Agora vem o medo de visitar o Neurologista e descobrir…o que mais de surpresa???? Dá pra ser uma boa uma dessas visitas???! No meu caso ninguém sabe e usl isso pra continuar a luta pelo impossível. Afinal , ninguém sabe. Não tem estatísticas ou estudos ou sobreviventes o suficiente para se estudar. Então vamos a luta. Um dia de cada vez.
    Parabéns pelo artigo, garota brilhante!!!

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