A grande guerra - Jornal Plural
25 ago 2021 - 8h30

A grande guerra

Às vezes as coisas parecem estar tão complicadas no nosso dia a dia, que nós não sentimos que estamos vencendo as nossas barreiras (físicas ou imaginárias), mas estamos

Muitas pessoas me perguntam de onde vem tanta coragem para lidar com o trauma de ter tido um derrame e lutar pela minha comunidade. A coragem, meus amigos, vem da inspiração pela história de um jovem soldado que ainda muito novo enfrentou uma grande guerra, e que teve que lidar com isso.

Estava frio em Curitiba, e isso não é novidade porque aqui é sempre frio. Tinha uns três meses de vida pós-AVC e estava muito machucada: andava devagar e com auxílio de bengala, tinha o tronco encurvado e a mão esquerda encolhida no peito. Acredito que aquela foi a fase mais complicada da minha vida, os primeiros meses pós-acidente realmente são os mais terríveis. Fazia fisioterapia três vezes por semana, andava de bengala, e tudo era muito difícil. Tinha dificuldade em ler e escrever, não conseguia me localizar no tempo e espaço e não sentia a parte esquerda do meu corpo (para você ter uma ideia: nem a parte interna da bochecha), não conseguia me vestir sozinha, nem tomar banho, nem nada.

Foi vivendo nesse contexto, que pedi para um amigo me levar ao Museu do Expedicionário (nome dado aos soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra). A minha intenção não era admirar uniformes e a artilharia, mas buscar coragem para enfrentar todas as aquelas dificuldades físicas e emocionais que estava passando. Meu avô paterno, o vô Nelson, foi pracinha (nome dado aos soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra) e, naquele momento, precisava desesperadamente me inspirar em sua história para enfrentar a minha. Fui até lá (aos trancos e barrancos) porque queria receber alguma mensagem dele, afinal, se o aneurisma que estourou na minha cabeça era genético, a coragem também poderia ser. Esta era a lógica.

Nunca cheguei a conhecer meu avô paterno, sou uma das netas mais novas dele e, quando nasci, ele já tinha feito a sua passagem. O que tenho dele são as memórias que me contam (de um vô legal que dava balinhas de adoçante numa viagem de trem) e do que ele escreveu em seu diário de guerra. Talvez por isso eu seja tão fascinada por sua trajetória ao participar de uma das guerras mais marcantes da história mundial.

Na primeira vez em que li o seu diário, eu tinha quase a mesma idade que ele quando o escreveu: dezenove anos. Sim, ele foi mandado para a guerra aos 19 anos (um piá, como dizem os curitibanos) e voltou aos 21. Era datilógrafo, gostava de escrever (assim como eu e minha irmã), e talvez por isso não tenha ido diretamente para o front de batalha, já que foi posto para trabalhar na comunicação entre as tropas. Era apaixonado por uma menina chamada Jurema, a quem escrevia muitas cartas nesse tempo em que foi mandado para a Itália. Não gostou da viagem do navio, mas entusiasmou-se com a animação dos jovens soldados em enfrentar Hitler e acabar com a guerra. Fez musiquinhas e piadinhas como muitos, mas chegando lá, as coisas foram bem diferentes. O frio era intenso e o uniforme brasileiro de flanela não dava conta do recado: tiveram que tomar emprestados os uniformes dos americanos.

Os meninos (para mim eram meninos) tentaram se enturmar como podiam, mas tudo era muito difícil, a língua era outra, a comida não era das melhores e os sacos de dormir não aqueciam na neve. Ao acordar encharcado em gelo, vô Nelson teve a ideia de roubar um caixote, forrá-lo e dormir nele, substituindo o saco de dormir. Deu certo, e apesar de ser apelidado de vampiro pelos colegas, ficou feliz em dormir quentinho. Depois, a situação foi piorando, vieram as baixas, as injustiças e as tão esperadas férias (sim, soldados tinham férias no meio da guerra, eu também não sabia até ler suas memórias) e ele foi para Roma.

A partir desse momento, já não era mais um menino que escrevia aquilo, mas um homem desolado. Roma estava estilhaçada e a fome arrasava as famílias. Todos recebiam bem os soldados, porque hospedar um deles era garantia de sopa menos rala por alguns dias. Aquela situação tocou profundamente o rapaz que me deu seus genes. Ele se preocupou com cada uma daquelas pessoas, o futuro delas lhe preocupava. E então meu avô voltou para a guerra, contribuiu com os seus textos para repassar as informações necessárias e retornou vivo ao Brasil, mas sem se sentir vitorioso; assim como eu saí do hospital viva, mas me sentindo literalmente pela metade.

Pode parecer arrogante, mas os meus dois AVCs foram duas grandes guerras para mim. Até fisicamente eu parecia ter voltado de uma: tinha duas cicatrizes na cabeça, e as pernas tão esqueléticas que se arqueavam quando me levantavam. Realmente não estava nos meus melhores dias. Precisava de ajuda para me alimentar, para ir ao banheiro, para me lembrar de qual dia era e de onde estava. Quando eu voltei, toda aquela minha vida que tinha levado anos para construir havia sido despedaçada. Os amigos já haviam se adaptado a uma vida sem mim enquanto eu estava no hospital, assim como a Jurema cansou de esperar o belo rapaz de olhos pequenos e arranjou outro namorado.

Só que apesar de o meu avô não se sentir vitorioso quando voltou ao Brasil, ele era vitorioso, assim como eu era vitoriosa ao sair do hospital, mesmo sem saber. O que eu mais queria era voltar no tempo e evitar o acidente, e isso é impossível, ninguém pode voltar no tempo. Ninguém pode evitar uma guerra que já aconteceu.

Também fiquei traumatizada com as sequelas, também pudera, elas são feridas terríveis, assim como são as feridas de guerra. Sem contar o trauma emocional: várias noites acordando aos prantos. Não é nada fácil. Fazendo essa analogia, passei a ver a mim e a todos os sobreviventes de um derrame como sobreviventes de guerra. Só nos falta a medalha! Nesta história, a maior dádiva do meu avô não foi ter ganhado uma menção honrosa, mas foi de ter sobrevivido e continuar vivendo. Acredito que esse é o nosso desafio depois de um grande trauma: continuar vivendo, apesar de todas as dores e marcas.

Tempos depois, vô Nelson conheceu a minha avó e a nossa família foi construída. Ele começou em outro tipo de emprego e passou a fazer um trabalho voluntário em prol de estrangeiros. A guerra, apesar de desumana, o tornou mais humanitário. Ele mudou, viveu e se recuperou como pôde. É por isso que acredito na minha recuperação e na de todas as pessoas que passaram por grandes perrengues (sendo sobreviventes de AVE ou não), porque a neuroplasticidade não acontece só no cérebro, mas na nossa vida em geral.

É tudo como em uma grande guerra: às vezes as coisas parecem estar tão complicadas no nosso dia a dia, que nós não sentimos que estamos vencendo as nossas barreiras (físicas ou imaginárias), mas estamos. A gente só percebe que conseguiu sobreviver, depois que passou. Por isso é importante não desistir, tanto da fisioterapia como de um sonho. Não podemos desistir nunca! Além disso, meu avô seguiu em frente sem se deixar estagnar por suas memórias do horror da guerra. Ele passou por ela, assim como eu passei pelo AVC, mas resisto à ideia de deixá-lo dominar a minha vida. Afinal, a mensagem que recebi dele nesta visita foi de que toda vivência traumática pode nos construir ou destruir como seres humanos, mas a escolha é sempre nossa. Ainda bem.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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