25 ago 2021 - 9h30

Forma também é fôrma

Pró-feminismo e a performance de Fernanda Magalhães

Uma mulher entra. No meio da sala há um banquinho. De madeira e vermelho. A mulher tenta ficar sobre o banco. Se equilibra sobre ele, mas a massa do corpo é muito maior que a superfície para se apoiar. Ainda assim a mulher insiste. Cai e se levanta, escorrega e volta. A agonia do público cresce ao observar aquela tentativa frustrada. A vontade é de gritar: “pare, você é muito maior do que isso!”.

É cena é de uma performance da artista, fotógrafa e professora da Universidade de Londrina Fernanda Magalhães. Penso nela como imagem metafórica sobre o machismo estrutural.

Mas para isso preciso contar a segunda parte da performance: a mulher, no caso a artista citada, acaba tirando a roupa durante os movimentos e completamente nua mostra uma marreta e pergunta à plateia: alguém aqui quer quebrar esse banquinho? A parte feminina vai ao delírio. Todas querem quebrar o banquinho que, literalmente, vira migalhas ao final.

O machismo estrutural pode ser como um banquinho que limita a liberdade e no qual se autoimpõe repressão aos movimentos, se podam os gestos. A única postura que serve para a artista se equilibrar é a do encolhimento.

A cultura predominante tenta dizer a mulher como agir. É uma forma de viver pré-concebida que quer colocar todas em uma forma no banquinho.

Há uma abordagem psicanalítica sobre o feminismo que trata justamente disso: o feminismo permite dar forma ao assunto. Por meio dele é possível criar repertório para a reflexão e superação das estruturas sociais. Através do feminismo se pode chegar a críticas daquilo que é imposto: para que afinal de contas devemos tentar nos encaixar em determinada forma?

Não devemos. A desigualdade  estrutural afeta todas as esferas sociais. Uma sociedade machista é a mesma que produz atitudes do tipo ‘sabe com quem está falando’ — isso afeta homens também. Tal alienação da subjetividade de uma pessoa se vê sobretudo em grupos fundamentalistas religiosos, como o Talibã. Recentemente um líder religioso disse que as mulheres não deveriam ter vida própria, e sim viver apenas para Deus. No caso não foi um islamista, mas o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Para as mulheres brasileiras ainda há o confronto com o sistema para causar a mudança, para as afegãs não resta outra coisa a não ser apelar à comunidade internacional. O Talibã nunca vai mudar. Ele é um banquinho sórdido e que ainda por cima está armado.

De qualquer maneira a postura diante de um sistema opressor deve ser o do confronto que faz afirmar e não apenas a reatividade. Se o feminismo repertoria, deve protagonizar confronto direto com o sistema. Primeiro há que se quebrar a forma, o molde, para, então, criarmos outro modo de existir, um modo mais livre.

A reatividade pode ser apenas reclamar do banquinho sem nunca sair de cima dele. Reclamar da forma, criar maneiras de administrar a angústia de se estar dentro dela, mas nunca quebrar ela de uma vez.

A ação deve ser afirmadora e cavar um espaço para si no sistema. Construir com os cacos um novo território para ser ocupado e depois expandido.

A performance só termina quando a forma está quebrada. A partir dali é possível ir para qualquer lugar, pois nada acontece enquanto ainda aceitarmos a existência do banquinho.


Para ir além

https://www.atelieoriente.com/blog/5/12/2018/cruzando-fronteiras-fernanda-magalhes

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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