Conceitos fundamentais | Jornal Plural
27 out 2020 - 12h52

Conceitos fundamentais

Nem todo mundo tem vontade de ler ou de pensar sobre suicídio

No primeiro post dessa série, falei sobre como a depressão, assim como uma perna quebrada, é uma doença. Tem um CID específico, requer tratamento e não tem nada a ver com frescura.

A partir de agora, vamos começar a tratar de assuntos um pouquinho mais densos dentro do #SetembroAmarelo que, afinal, é a campanha de prevenção ao suicídio. E o compromisso que firmei comigo mesma foi o de abordar a depressão e também as suas consequências. Infelizmente, “a grande consequência” é a tentativa de interromper a própria vida. Ou melhor, de cessar a própria dor. Explicarei em detalhes essa minha escolha de palavras nos próximos posts.

Mas sim, eu tenho ciência de que é um assunto incômodo. Nem todo mundo tem vontade de ler ou de pensar sobre isso. Porém muita gente por aí está, nesse exato momento, fazendo planos para dar fim à própria dor. Essa pessoa pode ser você ou alguém muito próximo. Logo, tratemos de respirar fundo e olhar para esse tema com todo o respeito, seriedade e cautela que ele merece. E, justamente para que possamos estar “na mesma página”, vale tratar de alguns conceitos fundamentais:

⁃ A ideação, ou concepção, do suicídio normalmente está associada a um transtorno mental, como a depressão. Mas ela também é diagnosticável e avaliação sistemática do risco de suicídio deve fazer parte da prática clínica rotineira. Logo, um paciente com pensamentos suicidas, sejam eles esporádicos ou recorrentes, deve ser tratado;

⁃ O indivíduo que realizou tentativas de suicídio tem o direito de ser atendido por um médico e essas tentativas são, inclusive, classificadas por CID específicos;

⁃ Existem protocolos médicos para a posvenção do suicídio, que é o luto experimentado por membros da família, amigos e contatos afetados pela perda.

Levando em conta esses três pontos, que são de caráter científico, fica muito claro que o risco de suicídio é uma urgência médica e que o pós suicídio também exige tratamento. Logo, creio que não há nenhum tipo de dúvida de que o tema sobre o qual tratamos aqui é de saúde pública. Essa premissa é fundamental para que possamos avançar em nossa conversa. 

Além disso, a Associação Brasileira de Psiquiatria – no manual “Suicídio: Informando para Prevenir” – reforça que:

“Diversos fatores podem impedir a detecção precoce e, consequentemente, a prevenção do suicídio. […] Durante séculos de nossa história, por razões religiosas, morais e culturais o suicídio foi considerado um grande ‘pecado’, talvez o pior deles. […] Lutar contra esse tabu é fundamental para que a prevenção seja bem-sucedida.”

E quando olhamos para a história ocidental, entendemos que o conceito de suicídio como o pecado máximo foi introduzido por Santo Agostinho no século V. Isso parece explicar, ao menos em partes, o caráter estigmático da morte autoinfligida e o porquê de termos – ainda hoje – tanto receio de falar, de ouvir e de tratar deste assunto. Por isso é fundamental que aqui – nesse nosso espaço – independente das nossas crenças, religiões e convicções pessoais, possamos encarar o tema como exclusivamente ligado à saúde. 

Se não rompermos com o modelo que nos foi ensinado, se não estivermos realmente abertos para olhar por outro ângulo e, principalmente, se não passarmos adiante novas ideias, as campanhas de conscientização terão pouca ou nenhuma eficácia. Precisamos assimilar novos conceitos e, assim, ajudar mais pessoas a ouvir, a falar e a buscar tratamento adequado. E que a saúde seja o nosso foco. 

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Últimas Notícias