Ataque à universidade não é por dinheiro. É a guerra ao conhecimento | Jornal Plural
2 maio 2019 - 11h11

Ataque à universidade não é por dinheiro. É a guerra ao conhecimento

É típico de governos autoritários insistir que a cultura e o estudo são passíveis de perverter as pessoas

É mentira que o governo esteja cortando verba da universidade por economia. O motivo é puramente ideológico. O ministro encarregado da desconstrução do Ensino Superior no Brasil, Abraham Weinthraub, chegou perto de falar a verdade quando deu início a tudo, bloqueando verbas de três escolas por “balbúrdia”. Caiu em si quando a imprensa mostrou que isso era uma ilegalidade que devia lhe custar o cargo e mudou o discurso.

A saída foi bloquear 30% de todas as federais, dizendo que é preciso primeiro aprovar a Reforma da Previdência para que haja dinheiro para ensino. Mentira da grossa: o governo simplesmente não quer investir em ensino. Fosse por economia, cortaria em outros lugares. A ciência, a pesquisa, o ensino foram escolhidos a dedo, e por um único motivo: esse governo não gosta de pessoas informadas.

É típico de governos autoritários insistir que a cultura e o estudo são passíveis de perverter as pessoas. Religiões não gostam de livros que contrariem seus dogmas. Ideologias dogmáticas não querem que você tenha acesso a nenhum conhecimento que possa confrontar as “verdades” vendidas pela propaganda oficial.

O nazismo, ao chegar ao poder, queimou milhões de livros. Stálin determinou que só havia um único tipo de literatura aceitável. Ambos os regimes acreditavam em conceitos como o da arte degenerada e ambos mandavam intelectuais para campos de concentração ou gulags.

No Brasil, o golpe de 1964 foi marcado pelo discurso anti-intelectual: os esquerdistas estariam, também na época!, tomando as universidades de assalto – na época, além dos expurgos, foram colocados agentes disfarçados nos campi para dedurar alunos e professores que não se comportassem de acordo com o esperado.

Os bolsonaristas querem convencer você de que a educação é um perigo. Seu filho pode ser doutrinado desde os primeiros anos. Receberá informações sobre “ideologia de gênero”. Se não se tornar gay, vai virar comunista ao estudar em universidades claramente aparelhadas. Isso sem falar nos perigos da mídia e da literatura, da imprensa e das artes. As únicas possibilidades de salvação estão em manter seu filho estudando em casa – e num governo que expurgue o mundo desses males.

Bolsonaro se elegeu como um suposto herói destinado a combater vilões imaginários. No processo, destruirá a educação superior do país. A ciência. A pesquisa. O conhecimento.

Restarão as universidades privadas, sem Fies, sem ProUni. Destinadas às elites. E algo parecido com as atuais públicas, com bibliotecas lotadas de livros de Olavo de Carvalho.

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