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Vincenzo Latronico, Perec e “As perfeições”

Algo interessante nessa escrita de Latronico é ele desmistificar não apenas Berlim, mas a Europa ou parte dela

Vincenzo Latronico, Perec e “As perfeições”
Vincenzo Latronico. Foto: Reprodução
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Talvez o subtítulo deste texto pudesse ser “tudo diferente, mas tudo igual”, frase que o narrador usa para o casal des-deslumbrado com Lisboa, quando a comparam a Berlim. Mas Lisboa igual a Berlim?  Por que tão diferentes e, ao mesmo tempo, iguais? Vamos explicar isso.

Duas historiazinhas rápidas: primeira vez em Hong Kong, a rua mais badalada da cidade, com cafés e galerias de arte. Sentei num café inteiramente preto, exceto pelas mesinhas de madeira clara. Até os guardanapos e os canudos, ainda de plástico, eram pretos. Tudo no café tinha um nome: dos lustres da Moooi aos garfos Starck, de leve curvatura e ruins para comer. Ao meu redor, europeus brancos e louros com computador no colo, trabalhando em pleno domingo. Os apartamentos, minúsculos, da frente do café, pendurados num morro, eram – e continuam sendo – um péssimo lugar para trabalhar, embora moderníssimos, com fachadas em aço recortado e pintado, com escadas em cimento queimado e guarda-corpo em madeira.

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Dia de semana no shopping Pátio Batel: eu fui procurar um lugar para fazer uma reunião online. Sim, eu também. Todas as casinhas de madeira clara da área de alimentação estavam ocupadas por homens e mulheres jovens trabalhando. Algumas pessoas carregavam malas e mochilas, provavelmente em trânsito.

De uns tempos para cá, tenho percebido que há uma unificação de coisas e usos nas mais diferentes partes do mundo, nas grandes cidades, algo que vai além do tênis Nike, da calça com três listras da Adidas e dos fones brancos sem fio. Há mais em comum entre um café numa colônia inglesa do outro lado do planeta, um restaurante pequeno na Ilha da Páscoa e um boteco com comida vietnamita em Santiago do Chile. Há uma falsa universalização das coisas, mas com discursos similares.

Mas o mundo mudou em muita coisa, nas últimas décadas, e o trabalho talvez tenha sido uma das áreas que mais sofreu mudanças, em todos os níveis e situações: o lugar físico do trabalho; as relações interpessoais; o uso de aplicativos, computadores, redes; a diluição cada vez maior dos direitos trabalhistas (veja recente decisão do ministro Gilmar Mendes sobre o PJ); o apagamento de sindicatos de trabalhadores e o fortalecimento de sindicatos patronais... mas fundamentalmente os discursos sobre o trabalho: que é bom empreender, que é bom ser livre, que é bom ser o próprio patrão, que é bom trabalhar a partir de qualquer lugar, que se pode fazer muito dinheiro “apenas com um celular e um note”.

Vincenzo Latronico está a par de tudo isso, viveu isso, conhece tanto as similaridades que citei acima quanto as grandes mudanças no universo do trabalhador, sentiu isso, e escreve As perfeições não como uma resposta ao jovem Georges Perec dos anos 1960 (o livro foi lançado em 1965), mas como um contraponto, tendo a seguinte pergunta em mente: o que teria mudado em quase sessenta anos para um jovem casal europeu? As perfeições foi resultado de uma bolsa de produção artística e Latronico diz claramente que se baseou em As coisas, de Perec.

Aqui e ali você verá que algumas pessoas confundiram As coisas com Vida, modo de usar. Não cometa esse mesmo erro. Mas citarei ambas as obras porque sim.

Uma das situações a ser observada é: o mundo do trabalho é um mundo de aparências. Segunda questão: os discursos sobre liberdade alcançaram o universo da produtividade – mais perversa – do mercado. Por um lado, retiram-se direitos e segurança financeira, de saúde, de apoio em momentos difíceis, do trabalhador; por outro, oferece-se a ele um produto: liberdade e crescimento, com todos os chavões em inglês que Latronico conhece tão bem e que explora tão bem. Terceira questão: dos anos 1960 para cá o fetiche do produto não desapareceu. Em verdade, talvez ele nunca tenha sido mais forte e presente, mas ele ganhou novas roupagens, até mesmo o discurso de que o produto de consumo não importa em si. Mas, se nos anos 1960, um casal desejava um sofá de couro natural, em marrom claro, com design inglês, ou hoje ele deseja uma luminária norueguesa dos anos 1950, clean, ou ele justamente não a deseja porque esse desejo é símbolo de futilidade “de novos ricos” ou de “pessoas vazias”, “que são consumistas e não apenas consumidores”.

 Mas é preciso colocar algo no lugar. O que se coloca? Comida “de verdade”, novos sabores, novos usos para ela, para comer de hashi, comida ancestral, kombuchas variados, grafites que saltaram de muros para galerias alternativas, roupas estrambóticas feitas com tingimento natural “indígena”, tapetes de crochê tradicional, mel verdadeiro, objetos vintage, etc. Mas, no caso do casal atual, o produto físico, que seria comprado para ser deixado em casa, para ir-se construindo uma casa com uma história, ao longo de anos, até o envelhecimento, não é possível. Até isso foi retirado do casal. Um casal atual teria muita dificuldade em comprar uma casa para chamar de sua. O casal anterior também tinha tal dificuldade, mas ele tinha ao menos o sonho de. O casal dos anos 1960 cresceu com o desejo de enriquecimento e com o desejo de um lugar sólido para viver. O casal atual vive num universo absolutamente volátil.

Então, os discursos sobre liberdade, sobre poder viajar “com um celular e um note” funcionam muito bem. Se não posso comprar nada (além do kombucha e da roupa tingida com técnicas indígenas, desde que em pouca quantidade), eu não acumulo. Em verdade, eu não posso acumular.

E terei o café moderninho em Hong Kong e as casinhas de madeira branca do shopping Pátio Batel para trabalhar. Com a vantagem, aqui, de haver um McDonald´s do lado. Em Hong Kong, há águas saborizadas, com misturas bizarras. De graça.

...

Primeiramente, precisamos afastar Latronico de Georges Perec e depois tentar alguma aproximação possível. Então, falemos um pouquinho de Perec – afinal, Latronico não apenas se debruça sobre As coisas, como que faz mais que um elogio a Perec – e depois voltamos a Latronico e a essa literatura ligeira tão em voga.

Perec começa o livro no subjuntivo, descrevendo como seria uma casa confortável, bonita e classuda. No segundo capítulo, teremos um casal específico, de “classe média”, segundo o narrador “nem ricos, nem pobres”. Moram em 35 metros quadrados e não têm quase nada. A cozinha precisou ser dividida para que houvesse um banheiro e essa casa já é a evolução da história das moradias do casal, pois começaram numa mansarda, talvez menor, talvez ainda menos confortável. O narrador descreve a vida deles, em empregos mambembes, com total insegurança (sem salário fixo, sem direitos trabalhistas, sem amparo do Estado), sobrando para eles o desejo, o sonho com as “coisas que lhes deveriam pertencer”, mas não pertencem. As grandes marcas (e a França é conhecida por elas), a boa comida, o conforto de uma casa ampla e uma casa arejada no verão e aquecida no inverno, um carro para viagens, as viagens em si, as boas roupas, tudo isso é impossível para eles. Até os cigarros precisam dividir nas semanas e nos meses em que o dinheiro acaba antes do tempo.

Em Perec, as coisas (sem trocadilhos aqui) são ditas abertamente. O casal é um casal ferrado. Perec analisa o casal como estudasse uma pesquisa, abrindo a possibilidade de pensarmos que ele, Perec, faz (um pouco) do que as próprias personagens fazem – ou deveriam fazer, pois são pesquisadores ou melhor psicossociólogos. Em As coisas, Perec é claro e cruel, algo não aparecerá tão claramente em sua obra maior, Vida, modo de usar.

Mas eles estão tão preocupados com a sobrevivência – e nunca leram “mais que três linhas de cada autor” que citam – que não têm capacidade ou a possibilidade de lerem-se a si mesmos. Sem dizer o que direi, Perec mostra com todas as cores de sua magnífica escrita que o casal é um par de assalariados escravizados (e, por vezes, nem salário têm). O autor também aponta uma das características mais paradoxais do capitalismo, que já citei muitas vezes por aqui: o capitalismo mostra com uma mão (a coisa) e a tira (a coisa) com a outra. E essa coisa é altamente simbólica, tem “o fetiche da mercadoria”, por vezes é meramente necessária para a sobrevivência (roupa, remédios, um teto) e não objeto extravagante de vida para mostrar riqueza ou grandeza, ou seja, a compra de comida ou remédio não é esnobismo e sim sobrevivência, mas o trabalhador comum por vezes nem isso tem. Nas grandes cidades, e onde o capitalismo é mais presente ou mais visível ou mais doente ou mais amargo, as pessoas vivem como autômatos. É uma crítica bastante severa, que se dilui em Vida, modo de usar, que, se lido apenas pela superfície, será um livro engraçado ou divertido, coisa que pode ser se o sorriso for bem amarelo. Em As coisas (e também em As perfeições), Paris (e depois Berlim) será mostrada como uma cidade de muitas belezas e muitas atividades, algumas de graça, mas isso não preenche a vida das pessoas que desejam algo delas e não de todos.

Mas Perec aponta outras características desse casal imerso no universo capitalista, lutando contra ou a favor do desejo (Latronico ironizará isso até o paroxismo). O casal é o que poderíamos chamar de alienado. Para demonstrar sua tese, Perec traz a Guerra da Argélia. Não que o casal fizesse vista grossa para ela. Não faz, como hoje não se faz vista grossa para o massacre em Gaza. Mas atuação deles no conflito é, no mínimo, pífia. Sabe aquele meme de pintar uma unha de branco em protesto por uma grande causa? Aqui e em Latronico teremos essa mesmíssima situação. Você, leitor, pode se perguntar pelo que podemos fazer em relação a um conflito que se nos escapa. Eu concordo. Mas usar canudo de papel em vez do de plástico não salvará a Terra de uma catástrofe anunciada, tampouco parará os mísseis de fabricação americana lançados por Israel.

O casal tentará diversas saídas até assumir um emprego com salário fixo fora de Paris. O último capítulo do livro é feito com verbos no futuro, dando a ideia de um destino indiscutível e incontornável. O máximo que um casal francês terá – um casal dessa geração – é uma vida besta, mas ao menos terá comida e um teto, e poderá vez por outra comprar um sofá chesterfield.

Os dois personagens de Perec nascem em 1940. São filhos de uma cabelereira e de uma empregada. São os “filhos da guerra”, que crescem num país devastado, mas que, alinhado aos EUA (faz parte do grupo ocidental, fora da cortina de ferro), cresce, se “desenvolve”, passa a adotar a cartilha de crescimento americano. Eles são adolescentes nos anos 1950, os quais passam a ter uma ideia de felicidade ligada ao consumo de produtos talvez como antes nunca se tenha visto. Adultos nos anos 1960, já precisando trabalhar “para ganhar a vida”, começam a enfrentar as dicotomias do grande mercado. Difícil comparar a França dos anos 1960 aos EUA da mesma década. De todo modo, o casal francês é apenas a porca do parafuso (tomo emprestado aqui uma imagem de um texto famoso de Michel Pêcheux) da grande máquina do capital. Mas não se vê assim.

Latronico entende isso muito bem. Seu livro começa também com uma descrição de um espaço. Não tem o glamour do espaço percorrido pelo olhar sonhador do narrador de Perec. Em Latronico, o espaço é desenhado meticulosamente como captado por uma lente de um aplicativo de aluguel (como o Airbnb) e mostra as coisas modernas – e sonho de consumo de um casal moderninho e antenado. O casal encontrará o espaço igualzinho, mas, claro, sem os filtros. O Airbnb capricha nas fotos, mas a poeira, o calor, os insetos, outros possíveis problemas, nada disso é mostrado, mesmo que os aplicativos permitam comentários, os quais, por sua vez, darão uma ideia mais próxima da realidade. Se não forem apagados ou editados.

O casal de Latronico nasce, então, entre o fim do século XX e o começo do XXI. Sai da Itália imaginando que uma vida em Berlim seria muito mais divertida, cheia de promessas e produtiva, “apesar do frio”. Curioso, no mínimo, que um casal saia justamente da Itália, conhecida pelo design, por grandes arquitetos, pela sua história cultural, etc., para se aventurar num país mais ao norte. Mas Berlim tem atraído gente do mundo todo, com mil promessas, seja o sexo, seja a droga, seja a oportunidade de trabalho, seja o contato com outras línguas e culturas. Seja ainda a possibilidade de aluguel mais baixo, onde antes era Berlim Oriental, algo que não tem mais ocorrido. Mas Latronico desmonta esse sonho todo, colocando pingos nos is. A Europa é cara mesmo para os europeus e a situação atual do trabalho – se é que foi boa um dia para TODOS – não é lá muito boa.

Algo interessante nessa escrita de Latronico é ele desmistificar não apenas Berlim, mas a Europa ou parte dela. Minha primeira experiência na Europa, muito jovem, encontrou países em crise. Os atendentes dos bares e restaurantes eram jovens formados em engenharia ou direito, mas sem trabalho. Atendiam aos turistas com um mau humor pouco edificante, e tratavam com ódio os sul-americanos em viagem e com dinheiro para gastar. Imagine a situação: o jovem de um país colonizado por eles em situação melhor. De lá para cá a coisa mudou, evidentemente, em alguns lugares tendo melhorado e, em outros, piorado. Mas Latronico capta a sensação geral ao escolher um casal italiano em terra alemã. Veja: não se trata de um casal brasileiro que tentará o sonho americano ou o sonho europeu (se é que isso existe). O casal é europeu, da União Europeia, e está dentro do território de um dos lugares mais ricos do planeta. Há beleza natural e artificial, há cinemas e galerias de arte, há bolsas de estudo e palácios abertos à visitação, mas grande parte disso diz respeito a uma política de entretenimento (o que tenho chamado de evergetismo moderno) que pode alimentar os olhos... mas não os bolsos. Um brasileiro poderá dizer “ah, mas a Europa é muito melhor que o Brasil” ou que “vale mais o conhecimento que o conforto”, mas talvez não para aqueles que desejam comprar Balenciaga, ou marcas mais baratas e ainda caras, e da moda, como Loewe ou outra marca da moda, a Jacquemus. Caso vc pense que isso ainda é futilidade, Latronico desenha: a questão não é comprar Balenciaga ou Loewe, é ter uma vida digna, que permita férias, por exemplo, em que o sujeito possa realmente descansar e ficar longe “do telefone e do note que o fará ser um empreendedor livre”. E comprar Loewe seria uma escolha possível. Ela não é. Latronico conhece muito bem a uberização (citada no livro) e ainda a airbnbzação dos imóveis. Não se trata de fenômenos neutros ou desinteressantes. Se você precisa alugar sua própria casa num fim de semana em que está fora, bem, isso é a selvageria do capitalismo. Se você acha isso natural e moderninho, talvez – digo talvez – você tenha comprado sem pestanejar ou questionar o discurso do William Bonner.

Tanto um casal quanto outro carregam uma situação nas costas. Nenhum dos dois, ao alcançar o que tanto procura, é feliz. Por vários motivos: talvez não exista felicidade plena, filosoficamente falando. Mas tanto o casal nascido durante a II Grande Guerra quanto o casal nascido no final do século XX não podem ser felizes porque o sistema não permite, o grande sistema capitalista. Este tipo de trabalhador, sendo bem claro e bem franco, é a grande base da grande pirâmide social do capitalismo: eles existem para sustentar o andar de cima, que tem pouca gente.

Claro, o discurso não é novo. Se voltar no tempo, vai encontrar esse tipo de discurso em diferentes lugares e formas. Outro dia, aqui mesmo, disse que Céline ironizada o sujeito “que foi súdito e voltou cidadão”, ou seja, o sujeito saiu de uma monarquia e voltou numa democracia com constituição, mas continuará sendo a sola do soldado do rei. Há um artista coreano, cujo trabalho mostra isso ou algo parecido ao discurso de Latronico (e, de resto, ao de Perec) de modo muito curioso. Uma obra dele, de 1998, chamada Public Figures, mostra centenas de homenzinhos de bronze sob um pedestal de pedra, típico daqueles que embasam estátuas de “pessoas famosas”. Se, por um lado, Do Ho Suh mostra a força que uma população pode ter, se unida, também demostra o quanto essa mesma população serve de base para o poder de um homem só. É triste.

Latronico não faz uma resposta passo a passo do livro de Perec. Este, é mais profundo e mais preciso, mas ele tenta uma conversa sobre certos temas: se em Perec, o casal vivia o tempo da Guerra da Argélia, aqui o casal vive o tempo das grandes massas de pessoas que procura refúgio na Alemanha e na Itália. O casal tenta uma participação, mas ela ou é pífia ou é vazia – ou termina sem se saber onde começou. Não é desinteresse e sim uma mescla de “pintar uma unha de branco” (ou seja, participar de algum modo) e ter as mãos atadas. Eis um ponto em comum nos livros de Perec e Latronico. No andar de baixo, temos as mãos atadas – e não é exatamente queimando agências bancárias que haverá uma mudança nas grandes estruturas sociais.

O jovem casal é um pouco ingênuo. Devemos levar isso em consideração (o mesmo eu aconselho para Perec). Na situação dos refugiados africanos, os dois decidem fazer um material de ajuda, “que seja bonito e de design bom”. Isso dá uma pequena ideia de como veem o mundo à sua volta. Na sequência, Latronico demonstra como os demais europeus como eles (lembrando que são italianos na Alemanha), enxergam os africanos como “expats” (expatriados) mas não se olham assim também no espelho. São europeus, admirando sempre de cima (e não sou eu aqui falando) o mundo.

Há muito a ser discutido, mas valeria ainda um comentário sobre o objeto na construção literária e talvez isso venha mesmo antes do famoso texto de Poe. Poucos escritores levaram ao extremo a descrição do objeto como Georges Perec. Como poucos, ele percebeu que o objeto “falaria” muito mais de um personagem – e de toda uma classe social – que toda uma explicação psicossocial cansativa. A experiência de Latronico pode ficar aquém da de Perec (nem imagino que Latronico quisesse fazer uma prova de obstáculos ou de demonstração de força), mas traz vários questionamentos sobre o fetiche do objeto. O que Perec lá em Vida, modo de usar chama em alguma situação qualquer de “inventário de suas posses” ganha um sentido bem bacana em Latronico. O inventário pode conter um saquinho de amendoins amolecidos.

O livro de Latronico foi muito criticado, por ser literatura ligeira, por se aproximar de autores como Rachel Cusk ou Sally Rooney. No meu entender, o livro dele, embora esteja a léguas de distância da qualidade literária de Georges Perec, é bem interessante, até pela coragem de mostrar a nudez nada apreciável do rei. Só tem sido mal lido. Ele é mais cruel do que parece.

 

 

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