Onze anos depois da Copa do Mundo de 2014, a Prefeitura de Curitiba ainda não concluiu a regularização patrimonial ligada à Arena da Baixada. Há dezesseis imóveis num procedimento de transferência ao Club Athletico Paranaense (CAP); destes, três dependem antes de serem transferidos ao próprio Município, porque estão em processo de desapropriação judicial. E a passagem final ao clube depende de uma lei específica que ainda não foi enviada à Câmara.
"Até o presente momento, não há previsão para encaminhamento da matéria ao Poder Legislativo, tampouco para conclusão do procedimento administrativo", respondeu a Secretaria Municipal de Administração e Tecnologia da Informação (SMATI), acrescentando que o processo "depende da atuação de órgãos externos". A informação foi dada em resposta a um pedido da vereadora Laís Leão (PDT), que perguntou sobre a regularização de um imóvel específico, o de Indicação Fiscal nº 21.077.087. O pedido foi protocolado em 30 de abril e respondido em 24 de junho de 2026.
Um benefício de 2012, hoje um saldo de R$ 221,9 milhões
O acordo da Arena tem duas pontas: a dívida da obra, que o clube paga à Fomento Paraná, e o benefício que o município concede ao Athletico — potencial construtivo, o direito de construir acima do limite do zoneamento, que tem valor de mercado e pode ser vendido a incorporadoras.
Esse benefício foi instituído pela Lei Municipal nº 13.620, de 2010, que autorizou a concessão de R$ 90 milhões ao clube; dois anos depois, a Lei nº 14.219/2012 elevou o valor para R$ 123.066.666,67. Esse é o valor nominal de 2012. Ao retomar a comercialização em 2024, o Decreto Municipal nº 1.061 reconheceu um saldo remanescente de R$ 240,6 milhões em títulos ainda a vender; em 31 de dezembro de 2025, esse saldo era de R$ 221,9 milhões, segundo o balanço do próprio Athletico.
As duas leis decorrem de um convênio de 2009 entre o Governo do Paraná, o Município e o clube para a realização da Copa, cuja sede curitibana foi a Arena da Baixada, estádio do Athletico. Entre 2013 e 2016, parte do potencial foi efetivamente concedida. Em 2017, a Prefeitura interrompeu a concessão, alegando "inadimplência por parte do Clube Atlético Paranaense" nos compromissos do convênio. O clube conta a história ao contrário: em seu balanço, atribui o impasse a "atrasos por parte do Município de Curitiba no fluxo de comercialização dos títulos de potencial construtivo" — os mesmos títulos que garantiam a dívida da obra e serviriam de moeda para quitá-la. A retomada só veio em 2024, por um acordo administrativo firmado no âmbito de duas ações judiciais (processos 0001208-24.2015.8.16.0179 e 0003104-45.2015.8.16.0004).
Como o dinheiro chega ao clube
Foi esse acordo que definiu o modelo atual. Pelo Decreto Municipal nº 1.061/2024 e pela Lei nº 16.361/2024, o benefício passou a ser pago na forma de Cotas de Potencial Construtivo (CPC), vendidas pela Prefeitura exclusivamente pela internet, no serviço "Aquisição de Potencial Construtivo Adicional". "Os valores arrecadados são repassados ao clube quando solicitado em processo próprio", informou a Secretaria Municipal do Urbanismo (SMU).
O ritmo dessa arrecadação já foi motivo de atrito. Em 2025, o presidente do Athletico, Mario Celso Petraglia, reclamou publicamente de que a Prefeitura repassava menos do que o previsto. A Prefeitura respondeu, em julho de 2025, que havia vendido R$ 20,5 milhões em cotas no primeiro ano do acordo, superando a meta, e que o valor efetivamente repassado ao clube fora de R$ 8,04 milhões — a diferença, atribuída ao parcelamento das cotas em até doze vezes. A resposta à Câmara, um ano depois, não atualiza esses números.