No dia 12 de outubro, o prefeito de Contenda, Antônio Digner (PL), divulgou um vídeo para anunciar a distribuição de adesivos de campanha do candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro. Conhecido como Mostarda, o prefeito informou que 200 adesivos seriam distribuídos durante a tarde na loja Mundo Chopp, que fica no centro da cidade da Região Metropolitana de Curitiba. “Vai lá tomar um chope e adesivar seu carro”, convidou Digner.
O empenho de Mostarda para ajudar a eleger Flávio Bolsonaro não parece limitado ao feriado ou a um espaço particular. Nesta semana, a reportagem do Plural entrou em contato com um funcionário comissionado da administração municipal e foi informada que adesivos de Flávio Bolsonaro poderiam ser retirados na sede da prefeitura – o que pode caracterizar uso da máquina pública e crime eleitoral, de acordo com o Código Eleitoral.
O funcionário é Paulo Donizete Prestes, diretor de Esportes da prefeitura. Em áudio enviado na tarde de quinta-feira (14), ele informou que os adesivos poderiam ser retirados a partir das 18h30. "Eu tenho sim, posso te arrumar. Só que lá pelas seis e meia mais ou menos. Tô treinando agora na academia, seis e meia eu tô na prefeitura, se quiser pode buscar".
A orientação foi para buscar os materiais de campanha no estacionamento da prefeitura. "Isso mesmo. Ali na prefeitura, atrás, no estacionamento. Entra por trás, nós estamos por ali. Beleza?"
Na manhã desta sexta-feira (15), a orientação foi para pegar os adesivos na recepção da prefeitura. "Passe na recepção aqui que daí vai estar com ela (recepcionista)", disse o diretor de Esportes. Em outro áudio, ele informou que o material já estava na recepção. "Viu, já deixei com a moça ali na recepção, na entrada. É só chegar ali e falar que tem uns adesivos pra você pegar".
A reportagem ligou para o telefone fixo da prefeitura de Contenda e a recepcionista confirmou que os adesivos poderiam ser retirados no local. "Está aqui comigo", disse a funcionária. Questionada se o local era a prefeitura mesmo, ela confirmou. "Isso, aqui na recepção, pode passar aqui e pegar comigo".
A assessoria de Comunicação da prefeitura de Contenda informou que desconhece o fato e que, caso a oferta tenha ocorrido, foi sem autorização e sem conhecimento do prefeito. Paulo Donizete Moreira Prestes foi nomeado no dia 2 de abril deste ano no cargo de diretor do Departamento de Esportes da prefeitura.
O que diz a lei
O advogado eleitoral Dorival Assi Júnior avalia que a conduta fere o artigo 73 da Lei das Eleições (Lei 9.504/97), que veda "ceder ou usar, em benefício de candidato, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta" e "usar materiais ou serviços, custeados pelo Poder Público, que excedam as prerrogativas do cargo". "O fato, sem dúvida, se enquadra como uma conduta vedada do artigo 73, I da Lei das Eleições. O que pode também se enquadrar como improbidade administrativa e, por fim, o crime eleitoral", diz Assis Júnior.
Para o advogado, o uso de estrutura pública também pode configurar crime previsto no Código Eleitoral. "Em tese, pode configurar o crime tipificado no artigo 346, combinado com o 377 do Código Eleitoral. Porém, a constatação do crime depende da prova de quem usou e quem autorizou o uso para que fosse distribuído o material na sede da prefeitura".
Assi Júnior explica que, diferentemente da esfera criminal, a análise de ilícitos eleitorais admite a presunção de conhecimento do prefeito. "Os ilícitos eleitorais e penais possuem uma análise um pouco divergente, pois no caso penal há uma presunção de inocência e a conduta exige a prova cabal do prévio conhecimento. Enquanto os ilícitos eleitorais, em alguns casos, admitem a presunção de conhecimento do chefe do Executivo".
O artigo 377 do Código Eleitoral define que "o serviço de qualquer repartição, federal, estadual, municipal, autarquia, fundação do Estado, sociedade de economia mista, entidade mantida ou subvencionada pelo poder público, ou que realiza contrato com este, inclusive o respectivo prédio e suas dependências não poderá ser utilizado para beneficiar partido ou organização de caráter político".
Quem é Mostarda Digner
Prefeito de Contenda entre 2021 e 2024, Antonio Adamir Digner foi reeleito em 2024, com 33,48% dos dos votos válidos, contra 31,24% de Carlão (MDB). Ele foi eleito em 2020 pelo PSL (antigo partido de Jair Bolsonaro, que se fundiu ao DEM e deu origem ao União Brasil em 2021). Digner é fundador e proprietário da Mostarda's Transportes, empresa que atua no ramo de transporte de produtos agrícolas.
Em novembro de 2021, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal de Contenda afastou da administração municipal, por 60 dias, o prefeito, a mulher dele, Angela Digner (que era secretária de Promoção e Assistência Social), dois secretários e o chefe de gabinete Abrilino Fernandes Gomes, por suspeita de nepotismo.
A secretária de Finanças na época, Simone Polak Silva, é sobrinha de Mostarda; e o marido dela, Emanoel de Souza e Silva, era o secretário de Governo. Mostarda voltou ao cargo em dezembro de 2021, após decisão da Justiça.
Abrilino Fernandes Gomes, o ex-chefe de gabinete de Mostarda, é o comentarista esportivo Fernando Gomes, preso em outubro de 2025 na Operação Fake Care, do Ministério Público do Paraná (MPPR), sob suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção no município de Fazenda Rio Grande. O prefeito, Marco Marcondes (PSD), também foi preso. Os dois foram libertados em outubro de 2025 e Marcondes voltou ao cargo em julho do ano passado. Fernando Gomes também teve um cargo na Assembleia Legislativa do Paraná,
Em dezembro de 2023, Antônio Mostarda Digner foi preso por desacato durante uma partida de futebol em Contenda. Ele teria ofendido policiais militares que tentavam apartar uma briga e foi solto após pagar fiança de R$ 5 mil. O Ministério do Público do Paraná (MPPR) ofereceu denúncia contra Digner por desacato e resistência.