Dois dias depois de a revista Piauí e o jornal O Estado de São Paulo revelarem que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) destinou R$ 200 mil para uma entidade a pedido do miliciano Robson Calixto, na segunda-feira (21), o presidenciável do PL pediu votos para o candidato do partido ao governo do Paraná, Sergio Moro, na manhã desta quarta (23). Calixto foi condenado a 9 anos de prisão por envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco (PSOL), em 2018.
A emenda que destinou R$ R$ 199.999,79 para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), no Rio de Janeiro, foi negociada por Calixto, que é conhecido como Peixe, com a secretária parlamentar de Flávio Bolsonaro no Senado, Maria de Fátima Bezerra Castro, como mostram cópias de diálogos trocados no WhatsApp. A emenda apresentada por Flávio garantiu o repasse de recursos do Ministério do Esporte e foi paga no dia 29 de novembro de 2023.
Robson Calixto foi condenado a 9 anos de prisão, apontado como elo entre os executores dos assassinatos de Marielle e seu motorista, Anderson Gomes, e os mandantes – os irmãos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão, condenados em fevereiro deste ano. Chiquinho era deputado federal e Domingos era conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.
A área de atuação do IFOP, a entidade beneficiada pela emenda de Flávio Bolsonaro, é a Zona Oeste do Rio – a mesma onde os irmãos Brazão tinham influência política antes de serem presos e condenados.
De acordo com a Piauí, uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos. O IFOP contratou o escritório de advocacia do presidente da entidade, José Rômulo de Oliveira Ales, para coordenar o projeto esportivo "Jogadores do Futuro". O objeto seria incompatível com a atividade do escritório e não teria havido concorrência para a realização de contratações.
"Nosso senador"
Em conversa com Maria de Fátima pelo WhatsApp no dia 24 de outubro de 2023, Peixe chamou Flávio Bolsonaro de "nosso senador" para pedir a apresentação da emenda.
"Amiga vê com o nosso senador se consegue nos ajudar."
Robson Calixto, miliciano condenado a 9 anos de prisão, para Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária de Flávio Bolsonaro no Senado
A assessora pediu para ele enviar um e-mail. "Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou um ofício". Ela perguntou quando Peixe estaria em Brasília. "Vou em novembro, será que nos consegue ajudar com alguma coisa?", respondeu ele.
Em 26 de outubro de 2023, dois dias depois, a secretária de Flávio perguntou se o miliciano "ainda estava" com Chiquinho Brazão. "Positivo", respondeu Peixe. Ela enviou então um convite para Brazão participar de uma cerimônia de entrega de coletes balísticos para a Polícia Militar do Rio. "Leva o deputado", afirmou a secretário. Chiquinho Brazão foi preso cinco meses depois, em março de 2024.
Em nota enviada à Piauí e ao Estadão, Flávio Bolsonaro negou irregularidades e disse que a emenda seguiu a legislação vigente.
Moro chama Flávio de "presidente"
Moro participou de uma live com Flávio Bolsonaro na manhã desta quarta, transmitida pela TV Celular, canal do presidenciável do PL. Sem citar nomes, ele falou sobre candidatos que teriam se afastado de Jair Bolsonaro e que agora tentam ligar sua imagem à do ex-presidente – uma possível referência a Sandro Alex (PSD).
“Tem um pessoal no Paraná, presidente (sic) Flávio, que não te apoiava, que estava querendo ficar longe, dizia ‘vamos deixar as brigas de Brasília lá em Brasília, não queremos saber de Bolsonaro’. E agora, como você ultrapassou o Lula nas pesquisas (sic), voltaram a falar de Bolsonaro", disse Moro.
O senador paranaense também se afastou da família Bolsonaro, em 2021. Ao deixar o governo de Jair Bolsonaro, acusou o então presidente de tentar interferir na Polícia Federal para proteger o próprio Flávio Bolsonaro em investigações sobre a prática de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio.
Durante a live, Flávio pediu votos para Moro. "Quero deixar claro que o candidato da Força Bolsonaro no Paraná ao governo é Sergio Moro”.
Também participaram os candidatos ao Senado Deltan Dallagnol (Novo) – que está com a campanha suspensa – e Filipe Barros (PL).
Moro e o caso Marielle
Sergio Moro era ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro quando começaram as investigações sobre as execuções de Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Em 2019, ele se recusou a federalizar o caso, apesar de indícios de interferência na investigação conduzida no Rio de Janeiro. A Polícia Federal chegou a investigar possíveis interferências no caso.
Em outubro de 2019, a TV Globo revelou que o porteiro do condomínio Vivendas da Barra (onde Jair Bolsonaro tinha uma casa) afirmou em depoimento que o executor de Marielle, Élcio de Queiroz, tinha ido ao local no mesmo dia do crime. Dias depois, Moro solicitou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que o porteiro fosse investigado por falso testemunho e denunciação caluniosa, por supostas inconsistências no depoimento.