O deputado estadual Ricardo Arruda (PL) ofendeu a deputada Ana Júlia (PT) na sessão da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) desta segunda-feira (12) e virou alvo de uma representação protocolada pela oposição ao governador Ratinho Júnior (PSD).
Em seu pronunciamento, o bolsonarista se referiu a Ana Julia como “uma pessoa que tem problema cognitivo”, atribuiu o pedido de seu afastamento da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a uma suposta “falta de trabalho” da parlamentar e disse que ela “deu piti”.
Ana Julia pediu o afastamento de Arruda da CCJ, já que o bolsonarista faltou a três sessões seguidas sem justificativa (uma delas para criticar a vacina contra a covid-19 em Marechal Cândido Rondon). Depois de apresentar uma declaração de um dentista, o deputado apresentou um atestado, assinado pelo mesmo profissional, 40 dias depois da falta.

“É um assunto tão ridículo, é típico de quem não tem trabalho. A deputada Ana Júlia não tem trabalho, ela brinca de ser parlamentar”, disse Arruda. Segundo ele, seu pedido de afastamento da CCJ foi apresentado “por uma pessoa que tem problema cognitivo”. “Você aqui não vai se criar, Maria do Rosário 2, Maria do Rosário Mirim. Essa é a senhora. Não vai colar a outra Maria do Rosário, aqui não”, afirmou, citando a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS).
O deputado disse que as faltas à CCJ foram informadas com antecedência ao presidente da comissão, Ademar Traiano (PSD) – o que não pode ser confirmado, já que Traiano optou por se omitir em relação ao assunto e não informa se as ausências foram previamente informadas.
Uma indicação de que Arruda faltou com a verdade é o fato de seu substituto na CCJ, Gilmar de Souza (PL), não ter sido convocado para substituí-lo nas reuniões em que esteve ausente, como determina o regimento interno da Alep. Arruda faltou às sessões dos dias 18 de março, 25 de março e 2 de abril.
O bolsonarista ainda chamou os projetos de Ana Julia e “inúteis” e disse que ela “não tem vergonha na cara”. “A maioria projetos inúteis, que eu posso ler depois, mas vou por na minha página, é apoio a LGBT, é não sei o quê, só projeto inútil”, atacou. E voltou a relacionar a ministra Gleisi Hoffmann ao termo “amante” – o que já lhe rendeu uma condenação por danos morais.
Acusações sem provas
O deputado do PL ainda aproveitou seu tempo para dizer que “todas as estatais estão sendo roubadas, Petrobras, Itaipu, BNDES, Caixa Econômica, Correios” e que “todos os programas sociais” do governo federal têm fraudes – sem apresentar qualquer prova.
Arruda insinuou que a primeira-dama Janja Lula da Silva viajou para a Rússia para levar “malas de dinheiro” desviado do esquema do INSS. “Dona Janja, o que vocês carregaram, será que levaram malas de dinheiro para sumir com a prova do crime?”, questionou o deputado, que considera a Rússia um “país comunista”. “Foi para um país comunista encontrar com o (Vladimir) Putin e com o (Nicolas) Maduro”.
O parlamentar ainda chamou a eleição de 2022, em que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi derrotado por Lula, de “combinada”. “Essa eleição foi toda combinada”, afirmou. “O Lula voltou à cena do crime para roubar tudo que não tinha roubado. Pior agora, com apoio da 'globolixo’ e com apoio do Supremo Tribunal Federal".
"Desinfetante no microfone"
O líder da oposição na Alep, Arilson Chiorato (PT), disse em deu pronunciamento que a falta de punição tem fomentado esse tipo de discurso na Assembleia. "Uma artilharia misógina e machista. Os termos disparados à ministra Gleisi Hoffmann hoje merecem punição dessa Mesa. Só com mulheres são valentões. Sabem aproveitar o espaço para alimentar o gado raivoso. "Essa mesa precisa tomar providência. Todo dia uma ofensa ao STF, xingamentos ao presidente da República."
"Um show de horror e baixaria. A gente precisa lavar aquela tribuna, passar desinfetante naquele microfone."
Arilson Chiorato, líder da oposição na Alep, sobre a fala de Ricardo Arruda
Em entrevista, Chiorato disse que a oposição vai preparar uma representar contra o bolsonarista. "A oposição vai representar à Mesa com um pedido de providências quanto às falas que ele tem com as deputadas mulheres. É violência de gênero isso, é um discurso machista, desrespeitoso e incabível com o tamanho da capacidade que a essa Casa tem para dialogar com a sociedade. Não dá para admitir que tenha ofensas às mulheres dessa forma aqui. É contra a Gleisi, contra a Ana Júlia, no fundo é contras as mulheres. Vai ter resposta disso de qualquer jeito, não vamos mais aceitar isso".
A deputada Luciana Rafagnin (PT) disse que os palavrões "devem fazer parte" do cotidiano de Arruda. "Vindo da pessoa que a gente já conhece nessa Casa, eu acredito que a Mesa precisa tomar uma posição. Não podemos continuar vendo deputados se pronunciarem dessa forma, inclusive com colegas. Falta de respeito e falta de caráter de usar germos pejorativos, de usar palavrões, acredito que isso faz parte da sua vida e do seu cotidiano. Tem uma obsessão pelo PT e agora pelas deputadas do PT". A deputada foi a única e criticar as declarações de Ricardo Arruda nesta segunda-feira.
O presidente da Alep, Alexandre Curi (PSD), não estava no plenário na hora da fala de Arruda e disse que vai analisar o conteúdo.
Ricardo Arruda é réu suspeito de ter cometido os crimes de associação criminosa, desvio de dinheiro e tráfico de influência.
Nota da oposição
NOTA DE REPÚDIO
A Bancada de Oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) vem a público manifestar seu repúdio às falas misóginas, ofensivas e incompatíveis com o decoro parlamentar proferidas pelo deputado Ricardo Arruda (PL) durante a sessão plenária do dia 12 de maio de 2025.
As declarações, direcionadas à deputada Ana Júlia Ribeiro (PT) e à ministra Gleisi Hoffmann (PT), ultrapassam os limites da divergência política e configuram mais um grave caso de violência política de gênero. Ao utilizar o espaço institucional da tribuna para desqualificar, atacar e ofender mulheres, o deputado agride não apenas as parlamentares citadas, mas também a dignidade do Parlamento e da democracia.
A naturalização desse tipo de conduta representa risco direto à integridade das mulheres na política e à credibilidade do Legislativo junto à sociedade. Não se trata de opinião, mas de ofensa. Não é debate, é agressão. Não é liberdade de expressão, é violência.
A Bancada de Oposição informa que tomará todas as providências regimentais cabíveis, incluindo representação à Mesa Diretora da Alep.
Violência política de gênero é crime. O Parlamento paranaense não pode ser palco para práticas misóginas e autoritárias. É dever desta Casa proteger seus integrantes, garantir o respeito entre seus membros e preservar os princípios republicanos que sustentam o processo democrático.
Deputadas e deputados da Bancada de Oposição na Alep:
Arilson Chiorato (PT) – Líder da Bancada
Ana Júlia Ribeiro (PT)
Dr. Antenor (PT)
Goura (PDT)
Luciana Rafagnin (PT)
Professor Lemos (PT)
Requião Filho
Renato Freitas (PT)
Curitiba, 12 de maio de 2025.