Sine Ira - Professor | Plural
13 out 2019 - 21h15

Sine Ira – Professor

Como a mente cartesiana que se fascina por conhecer-se, é no olhar de compreensão do aluno que entendo o que faço

Comecei a dar aulas aos 18 anos. Meus alunos, em um supletivo de bairro, eram todos mais velhos do que eu. Senti ali, pela primeira vez, a urgência do conhecimento. Experiência eu não tinha, história de vida também não. Aquelas pessoas cansadas e sonolentas sentavam nas carteiras estreitas e olhavam para mim à espera de algo. Não fazia sentido aquelas horas sem dormir e sem jantar se não houvesse uma compensação à altura.  Eu precisava, diariamente, refazer a conexão com eles, apresentando algo que eles não viam no seu cotidiano, algo que nunca lhes passou pela cabeça, algo que despertasse-os da anestésica rotina dos seus afazeres mal remunerados. E eu estudava e estudava para sempre ter uma história suculenta para eles. Como o artesão que capricha na peça que será admirada; como o agricultor que revolve e revolve a terra para dela tirar o fruto de encher os olhos. Eu aprendia e eu ensinava. E assim eu aprendia o que devia ensinar.  Eu era ponte, eu era isca, eu era o palhaço e o domador, o atirador de facas, o malabarista. E muitas vezes eles saiam das aulas com os olhos vermelhos de sono, cansaço, um breve sorriso, um balançar de cabeça. Eu havia chegado em algum lugar deles. Eu estava ali. Eu sei.

Chegar em algum lugar deles era fácil de perceber. Lembro-me de faze-los descolar as costas das carteiras e quererem, com o olhar, aproximarem-se de mim. Essa era a senha: quanto menos interessante é o que você fala, mais o outro quer se distanciar. Mas quando há sumo e cheiro de mistério, a vontade é de morder, é de beijar. E nesses dias eu saia da escola sabendo porque aquela seria a minha profissão para sempre. Sentia-me gente, humano. E aprendia que queria aprender mais e mais. Para repetir aquele momento. Como uma droga, como um passe no terreiro, como uma benção alcançada.

Sou professor há 37 anos. E ainda hoje, vez por outra, consigo fazer essa mágica, fruto de estudar e aprender e  estudar e estudar. Sei que não sou eu quem faz a mágica, é o conhecimento que carrego como um vaso Ming. Não há tecnologia ou outro recurso didático que substitua a carne farta de uma história contada em todos os seus detalhes, uma explicação longa e consistente, uma demonstração calma e clara. O ser humano, mesmo acossado pela grosseria do presente, pela força que desfaz as coisas belas, continua encantado por uma história cheia de conhecimentos. Fazer sentido, perceber-se entre as coisas que até pouco tempo eram estranhas e que agora acenam como velhas amigas, realizar algo que era só sombra e medo cria laços que jamais serão rompidos. Cada vez que consigo isso, realizo-me como professor. Como a mente cartesiana que se fascina por conhecer-se, é no olhar de compreensão do aluno que entendo o que faço.

Ser professor é  carregar esse novelo de confiança e responsabilidade. Como uma Ariadne, temos a chance de ajudar as crianças e jovens a saírem do labirinto, matarem o Minotauro da ignorância que aniquila com seu medo violento. Ser professor é ser um porta voz do conhecimento de outros seres humanos, uma ponte  que conecta os saberes em uma corrente que mantém os monstros dogmáticos à distância.

Sempre vivemos em guerra, sempre restamos no front. Assumir essa tarefa de ser professor é saber que não haverá o momento do descanso pra valer e que sempre o conhecimento precisará ser cultivado e ser entregue em outras mãos. Como uma espécie de herói melancólico, a vida pessoal de um professor não tem a importância de seu trabalho e ele está sempre à espera de um chamado. E o professor é assim porque quer ser assim. Cansado mas sem preguiça. Pesaroso mas nunca desesperançado. Porque o labirinto precisa ser percorrido e o Minotauro precisa ser morto muitas vezes, ou as crianças e  jovens viverão para servir de alimento para os tiranos insaciáveis.

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