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"Emprego" de MEI acompanha vagas formais e tem rotatividade menor

No Paraná, a formalização pelo MEI cresce quase no mesmo passo do emprego com carteira — mas gira menos: as vagas formais são sazonais e de alta rotatividade, enquanto os MEIs abrem em ritmo constante e, safra a safra, sobrevivem mais nos primeiros anos.

"Emprego" de MEI acompanha vagas formais e tem rotatividade menor
Centro de Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural

O emprego com carteira assinada e o microempreendedor individual (MEI) crescem lado a lado no Paraná, mas seguem lógicas opostas. As vagas formais obedecem a um calendário — a contratação se concentra no começo do ano e perde força, às vezes virando saldo negativo, no meio dele — e giram rápido: em 2026, para cada dez admissões houve mais de nove desligamentos. O MEI, ao contrário, surge em ritmo quase constante o ano inteiro e fecha numa proporção bem menor — cerca de seis fechamentos para cada dez aberturas. E dura mais: entre as que abrem, cerca de 84% seguem ativas depois de um ano, contra 65% dos vínculos formais — vantagem que o MEI mantém até perto de uma década.

O Paraná nunca abriu tantos microempreendedores individuais quanto agora — e nunca fechou tantos. Em 2025, o estado registrou 264 mil novos MEIs, o maior número da série histórica, quase o quádruplo das 80,7 mil aberturas de 2014. No mesmo período, porém, os encerramentos saltaram de 19 mil para 159,8 mil — um crescimento de mais de 700%, muito acima do avanço das aberturas.

O resultado é um mercado de microempreendedores que gira cada vez mais rápido: enquanto entram mais pessoas na formalização pela porta do MEI, mais também desistem — ou são desligadas. Em 2014, para cada dez MEIs abertos no Paraná, pouco mais de dois eram fechados no mesmo ano. Em 2025, essa proporção chegou a seis fechamentos para cada dez aberturas.

Os dados são da base pública de CNPJ da Receita Federal (posição de setembro de 2026) e consideram a data de início de atividade, para as aberturas, e a data da baixa, para os encerramentos.

Abertura e fechamento crescem juntos

A trajetória paranaense é de alta contínua nas duas pontas. As aberturas de MEI passaram de 80,7 mil (2014) para 264 mil (2025), com aceleração a partir da pandemia — 2020 e 2021 já superavam 180 mil e 200 mil registros anuais, respectivamente. Os encerramentos seguiram o mesmo caminho, mas com inclinação mais acentuada: saíram de 19 mil, em 2014, para patamares acima de 100 mil a partir de 2023, batendo o recorde de 159,8 mil em 2025.

Mesmo com o aumento das baixas, o saldo (aberturas menos fechamentos) segue positivo — foram cerca de 104 mil MEIs a mais no estado em 2025 —, mas a margem vem encolhendo à medida que os encerramentos ganham peso. Hoje, o Paraná tem 1,13 milhão de MEIs ativos, o que representa 56% de todas as empresas em atividade no estado.

Um ano destoa da tendência: 2018, quando os fechamentos de MEI dispararam no Paraná (102 mil) e, no Brasil, chegaram a praticamente empatar com as aberturas (2,03 milhões de baixas para 2,07 milhões de registros). O salto coincide com o cancelamento em massa, pela Receita Federal, de microempreendedores que acumulavam meses de contribuição em atraso — um mutirão de desenquadramento que inflou as baixas daquele ano e não se repetiu na mesma intensidade depois.

O mesmo filme no Brasil

A dinâmica paranaense não é uma exceção: espelha o que acontece no país. No Brasil, as aberturas de MEI subiram de 1,35 milhão (2014) para 3,86 milhões (2025), enquanto os fechamentos passaram de 310 mil para 2,33 milhões no mesmo intervalo. A "taxa de mortalidade" anual — fechamentos como proporção das aberturas — evoluiu de cerca de 23% para 60% no país, exatamente a mesma marca observada no Paraná.

Ou seja: tanto no estado quanto no Brasil, o MEI virou uma via de entrada cada vez mais movimentada para a formalização, mas também cada vez mais rotativa. O Paraná responde, de forma consistente, por perto de 7% dos MEIs abertos e fechados no país — e cresce em ritmo até um pouco superior à média nacional, tanto nas aberturas (3,3 vezes desde 2014, contra 2,9 vezes no Brasil) quanto nos encerramentos (8,4 vezes, contra 7,5 vezes).

AnoPR — abertosPR — fechadosBrasil — abertosBrasil — fechados
201480.69419.0171.353.242309.592
201592.02526.2131.500.020412.721
201695.83133.6311.556.008544.848
2017109.97938.3661.753.442615.936
2018135.081102.4462.071.6122.028.550
2019161.58751.2922.526.302775.767
2020179.86146.7112.700.925688.880
2021203.15871.7813.176.5561.040.356
2022202.00786.3272.976.7641.277.889
2023207.931117.4232.947.8511.722.940
2024223.285134.1363.199.2571.961.950
2025264.174159.8023.862.3272.333.951
2026*216.305131.7393.229.9341.920.717

*2026 parcial, até 13 de setembro. Fonte: Receita Federal (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), elaboração própria.

MEI ou carteira assinada?

O avanço do MEI aparece com força quando se compara a formalização individual à geração de emprego com carteira. Entre 2019 e 2024, o Paraná ganhou 600,8 mil empregos formais (+19%, dado da RAIS/Ministério do Trabalho) e, no mesmo período, 558,4 mil MEIs ativos (+90%). Em número absoluto os dois caminhos cresceram quase o mesmo — mas a formalização via MEI avançou em ritmo cinco vezes maior.

O momento em que os dois se separam é revelador. Em 2020, no auge da pandemia, o emprego com carteira encolheu 30 mil postos no estado, enquanto os MEIs saltaram 133 mil: naquele ano, praticamente toda a criação de trabalho formal no Paraná passou pelo microempreendedor individual. Depois, a carteira reagiu e voltou a liderar a geração de postos entre 2021 e 2024 — mas a distância entre as duas formas de trabalho encolheu. Em 2019, havia cinco empregos com carteira para cada MEI; em 2024, essa razão caiu para 3,2. Hoje, os MEIs equivalem a cerca de um terço de todos os vínculos formais do estado.

Em 2026, os dois caminhos praticamente empatam — mas com dinâmicas opostas. De janeiro a julho, o Paraná abriu um saldo de 66,6 mil empregos com carteira (Novo CAGED) e 69,3 mil MEIs líquidos. O emprego formal, porém, é sazonal e já perde fôlego: forte no começo do ano, despencou em abril e maio e ficou negativo em julho. O MEI, ao contrário, cria de forma quase constante ao longo dos meses. Sua engrenagem também gira — foram 181 mil aberturas para 112 mil fechamentos no período —, mas menos do que se imagina.

Paraná: MEI foi o amortecedor da pandemia — a carteira retomou depois

Criação líquida anual (aberturas − fechamentos), em milhares

Emprego formal (carteira) — variação do estoque RAIS MEIs (líquido)

Em 2026, empatados — mas em ritmos opostos

Paraná, mês a mês (jan–jul/2026)

Saldo de emprego formal (CAGED) MEIs líquidos

Fontes: Receita Federal (CNPJ) para MEIs; RAIS e Novo CAGED (MTE) para emprego formal. Elaboração própria. 2026 até julho.

Aliás, quando se comparam as duas formas de trabalho, quem mais gira é o emprego com carteira. Em 2026, para cada dez admissões formais no Paraná houve mais de nove desligamentos; entre os MEIs, foram cerca de seis fechamentos para cada dez aberturas. E o pequeno negócio ainda resiste mais: dos que abrem, 84% seguem ativos depois de um ano e 59% depois de três — contra 65% e 39% dos vínculos com carteira. Só a partir de dez anos a carteira assinada passa à frente, sustentada por um núcleo estável de trabalhadores com uma década ou mais de casa (quase 17% do total).

Quem dura mais no Paraná: o MEI ou o emprego com carteira?

Sobrevivência do que está vivo hoje — % que já dura pelo menos X anos (ref. 31/12/2024)

MEI (ativos) Emprego com carteira (RAIS)

Fontes: Receita Federal (CNPJ) para MEIs; RAIS/MTE para emprego formal. Paraná. Elaboração própria.


Como esta reportagem foi produzida

Consideramos como MEI todo CNPJ que consta como microempreendedor individual no cadastro do Simples Nacional (com data de opção pelo MEI registrada), o que permite identificar também as empresas já baixadas — cujo enquadramento é retirado no momento do encerramento. As aberturas usam a data de início de atividade; os fechamentos, a data de baixa das empresas com situação cadastral "baixada". Uma parcela de MEIs muito antigos encerrados pode ter saído do registro do Simples e não ser captada, o que torna os números de fechamento uma estimativa conservadora. Os dados de 2026 são parciais.

Para o emprego com carteira, usamos duas fontes do Ministério do Trabalho: a RAIS (estoque de vínculos ativos em 31 de dezembro, disponível até 2024) — cuja variação anual serve de medida da geração líquida de postos — e o Novo CAGED (saldo mensal de admissões menos desligamentos) para 2026. São naturezas de trabalho distintas: o emprego com carteira é assalariado, e o MEI é o trabalhador por conta própria formalizado, que pode ter no máximo um empregado; a comparação mede fontes de ocupação formal, não postos equivalentes.

A rotatividade compara, no CAGED de 2026, o total de desligamentos sobre o de admissões (emprego formal) e o de fechamentos sobre o de aberturas (MEI). A sobrevivência mede, entre o que está ativo hoje, a parcela que já dura ao menos X anos — o tempo de emprego vem do campo da RAIS; a idade do MEI, da data de abertura. Por ser calculada sobre o estoque vivo, e como o MEI cresceu mais rápido (estoque mais jovem), a vantagem do MEI na sobrevivência tende a ser, se algo, subestimada.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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