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Curitiba vai leiloar R$ 366 milhões em potencial construtivo

A Prefeitura publicou nesta quarta (16/09) o Anúncio de Início da 5ª Distribuição de Cepacs da Linha Verde — meta quase 5x maior que tudo vendido desde 2012, 1º leilão em 15/10 — e ao menos 8 das 13 obras prometidas repetem, por valores menores, promessas que a distribuição anterior não bancou.

Curitiba vai leiloar R$ 366 milhões em potencial construtivo
Linha Verde em Curitiba. Foto: Daniel Castellano/SMCS (arquivo)
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Curitiba irá realizar novo leilão de potencial construtivo da Linha Verde — e desta vez a meta é a maior da história do mecanismo. A Prefeitura, através do IPPUC, publicou nesta quarta-feira (16/09) no Diário Oficial Eletrônico o Anúncio de Início da 5ª Distribuição Pública de Cepacs, documento que formaliza perante o mercado o registro da oferta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), concedido em 3 de setembro sob o nº CVM/SRE/TIC/2026/005. Serão ofertados 690.800 títulos a partir de R$ 530,00 cada — novo recorde de preço mínimo —, no montante total de R$ 366.124.000,00.

Para comparação: em 13 anos e 11 leilões, entre 2012 e 2025, a Prefeitura arrecadou, ao todo, R$ 76,9 milhões — menos de um quarto do que pretende levantar agora, sozinha, numa única distribuição. O primeiro leilão da nova distribuição já tem data marcada: 15 de outubro de 2026, com liquidação financeira prevista para o dia 19. A partir da publicação de hoje, a Prefeitura tem dois anos — até 16 de setembro de 2028 — para encerrar a distribuição.

O que é um Cepac

O Certificado de Potencial Adicional de Construção (Cepac) é o instrumento que financia a Operação Urbana Consorciada Linha Verde (OUC-LV), criada pela Lei Municipal nº 13.909/2011 e regulamentada pelo Decreto nº 657/2012. A lei reconhece um potencial construtivo adicional de 4,47 milhões de m² ao longo de todo o eixo da Linha Verde — do Atuba à CIC/Tatuquara — e permite à Prefeitura convertê-lo em títulos negociáveis, vendidos em leilão público na B3, sob coordenação do BB — Banco de Investimento S.A., com o IPPUC como coordenador da Operação Urbana e a Caixa Econômica Federal como agente fiscalizador. Quem compra o título pode usá-lo para construir acima do limite do zoneamento, em qualquer lote elegível da faixa da Linha Verde.

Por lei (art. 14 da Lei 13.909/2011), nenhum Cepac pode custar menos de R$ 200 — o preço mínimo praticado no primeiro leilão, em 2012. Desde então, subiu para R$ 325 (2014), R$ 336 (2016 a 2021), R$ 430 (2023-2024) e R$ 450 (março de 2025). Os R$ 530 anunciados agora continuam essa escalada, com um salto de 18% sobre o último recorde.

O primeiro leilão da nova distribuição oferta 60 mil títulos, o equivalente a R$ 31,8 milhões ao preço mínimo — sozinho, mais do que a Prefeitura arrecadou em toda a 2ª Distribuição (R$ 5,8 milhões, três leilões entre 2016 e 2018) ou na 3ª (R$ 12,9 milhões, quatro leilões entre 2019 e 2021).

Para onde vai o dinheiro

O próprio Anúncio de Início lista as 13 intervenções que a 5ª Distribuição deve financiar em toda a Operação Urbana Consorciada Linha Verde — a numeração oficial do documento começa na Intervenção 2, sem que a Intervenção 1 apareça no texto publicado:

Intervenção
2Implantação de Trincheiras Verdes
3Extensão da Linha Verde Norte — Lote 4 (trecho entre a Estação Fagundes Varela e a Estação Atuba)
4Linha Verde Norte — Lote 2: Complexo Av. Victor Ferreira do Amaral
5Medidas mitigadoras e compensatórias
6Extensão do Projeto Linha Verde Sul — Trecho 4
7Ações para população de baixa renda em área de ocupação irregular: Intervenção Habitacional Vila Paraná (Vila Papelão) e outras
8Estações complementares de embarque e desembarque de transporte coletivo
9Outras obras e ações necessárias à Operação Urbana
10Implantação de viadutos: R. Anne Frank, R. Ten. Francisco Ferreira de Souza e outras interseções relevantes
11Execução de vias estruturantes
12Implantação de trincheiras e pontes complementares
13Implantação de passarela(s) de pedestres

O Anúncio de Início não abre o valor em reais de cada intervenção — só o total da distribuição. Essa quebra por obra está na Portaria Conjunta nº 3 da Secretaria Municipal do Urbanismo (SMU) e da Secretaria Municipal de Planejamento, Finanças e Orçamento (SMF), publicada no Diário Oficial Eletrônico de 14/09/2026 (edição 170, páginas 53 a 56) — dois dias antes do próprio Anúncio de Início. A "Tabela 1 — Intervenções da 5ª Distribuição" veio publicada como imagem, não como texto pesquisável; o Plural recuperou o conteúdo por OCR:

IntervençãoValorPrazo
2Implantação de Trincheiras VerdesR$ 30 milhões18 meses
3Extensão da Linha Verde Norte — Lote 4 (Fagundes Varela–Atuba)R$ 50 milhões24 meses
4Linha Verde Norte — Lote 2: Complexo Av. Victor Ferreira do AmaralR$ 42 milhões24 meses
5Medidas mitigadoras e compensatóriasR$ 10 milhões
6Extensão do Projeto Linha Verde Sul — Trecho 4R$ 10 milhões
7Vila Paraná (Vila Papelão) e outrasR$ 30 milhões18 meses
8Estações complementares de embarque/desembarqueR$ 0,3 milhão6 meses
9Outras obras e ações necessárias à Operação UrbanaR$ 5 milhões
10Viadutos: R. Anne Frank e R. Ten. Francisco Ferreira de SouzaR$ 84,5 milhões36 meses
11Execução de vias estruturantesR$ 30 milhões
12Implantação de trincheiras e pontes complementaresR$ 30 milhões18 meses
13Implantação de passarela(s) de pedestresR$ 33 milhões
Total das intervençõesR$ 354,8 milhões
+ Custos administrativosR$ 11.279.964,23
= Meta da 5ª DistribuiçãoR$ 366.124.000,00

O histórico não é animador

Desde 2012, a Prefeitura já promoveu 11 leilões em quatro distribuições anteriores — e o padrão é de baixa procura. Das 729.277 Cepacs já ofertadas, menos de 4 em cada 10 (37,1%) encontraram comprador. Vários leilões venderam menos de 20% do lote ofertado; um deles, em 2019, vendeu apenas 4,2%. A única exceção completa foi o leilão mais recente, em março de 2025, que vendeu 100% da oferta — mas foi um lote pequeno, de apenas 20 mil títulos.

DistribuiçãoLeilãoDataOfertadoVendido% vendidoPreço/CepacArrecadado (bruto)
26/06/2012300.000141.58847,2%R$ 200,00R$ 28.317.600,00
24/04/2014120.00019.89816,6%R$ 325,00R$ 6.466.850,00
30/06/201634.2776.75019,7%R$ 336,00R$ 2.268.000,00
20/09/201730.0007.61925,4%R$ 336,00R$ 2.559.984,00
14/05/201830.0003.02410,1%R$ 336,00R$ 1.016.064,00
08/05/201930.0001.2734,2%R$ 336,00R$ 427.728,00
27/11/201920.00011.81759,1%R$ 336,00R$ 3.970.512,00
28/10/202030.00010.12533,8%R$ 336,00R$ 3.402.000,00
25/03/202130.00015.07150,2%R$ 336,00R$ 5.063.856,00
04/05/202360.00020.40834,0%R$ 430,00R$ 8.775.440,00
23/04/202425.00013.10352,4%R$ 430,00R$ 5.634.290,00
28/03/202520.00020.000100%R$ 450,00R$ 9.000.000,00
Total (11 leilões)2012–2025729.277270.67637,1%R$ 76.902.324,00

Por distribuição, somando os leilões de cada rodada:

DistribuiçãoPeríodoLeilõesOfertadoVendido% vendidoArrecadado
2012–20142420.000161.48638,5%R$ 34,8 milhões
2016–2018394.27717.39318,4%R$ 5,8 milhões
2019–20214110.00038.28634,8%R$ 12,9 milhões
2023–20253105.00053.51151,0%R$ 23,4 milhões
Total2012–202511729.277270.67637,1%R$ 76,9 milhões

A distância entre meta e resultado é ainda mais visível na distribuição anterior. A 4ª Distribuição, encerrada em abril de 2025, tinha uma meta de R$ 594,4 milhões para financiar onze intervenções — e arrecadou, nos três leilões que promoveu, apenas R$ 23,4 milhões, ou 3,9% da meta. O próprio edital da época já previa esse cenário, ao admitir que "existe a possibilidade de o Poder Público [...] realizar parcial ou totalmente as Intervenções com recursos próprios" — ou seja, sem o dinheiro do Cepac.

Por trás desses números está um estoque que praticamente não sai do papel: segundo o edital do último leilão, apenas 4,56% de todo o potencial construtivo planejado para a Linha Verde (4,83 milhões de m², limite legal) tinha virado obra de fato — vinculado a alvará de construção — até dezembro de 2024, treze anos depois de o mecanismo ter sido criado.

As mesmas obras, de novo?

Com a Tabela 1 completa da 5ª Distribuição em mãos, dá para comparar item a item com a "Tabela 3 — Intervenções da 4ª Distribuição", publicada no edital do último leilão daquela rodada (26/02/2025). O resultado: 8 das 11 obras da 4ª Distribuição reaparecem na 5ª, quase sempre por valores bem menores — e uma delas, no valor de R$ 82 milhões, simplesmente sumiu da lista.

IntervençãoMeta na 4ª DistribuiçãoMeta na 5ª Distribuição
Extensão da Linha Verde Norte — Lote 4 (Fagundes Varela–Atuba)R$ 162,19 milhõesR$ 50 milhões
Linha Verde Norte — Lote 2 (Complexo Av. Victor Ferreira do Amaral)R$ 85,42 milhõesR$ 42 milhões
Viadutos R. Ten. Francisco Ferreira de Souza + R. Anne FrankR$ 145,78 milhões (duas obras)R$ 84,5 milhões (uma obra, mesmas ruas)
Extensão da Linha Verde Sul — Trecho 4R$ 42,35 milhõesR$ 10 milhões
Intervenção Habitacional Vila Paraná (Vila Papelão)R$ 23,73 milhõesR$ 30 milhões
Medidas mitigadoras/compensatórias ambientaisR$ 13,56 milhõesR$ 10 milhões
Trincheiras VerdesR$ 10 milhõesR$ 30 milhões
Estações complementares de embarque/desembarqueR$ 8,92 milhõesR$ 0,3 milhão
Desapropriação para o Metrô CuritibanoR$ 82 milhõesnão consta na 5ª Distribuição
Marcos paisagísticosR$ 2,95 milhõesnão consta com esse nome — pode estar em "outras obras e ações" (R$ 5 milhões)

Só três itens da 5ª Distribuição não têm equivalente claro na 4ª: "Execução de vias estruturantes" (R$ 30 milhões), "Implantação de trincheiras e pontes complementares" (R$ 30 milhões) e "Passarela(s) de Pedestres" como linha própria (R$ 33 milhões) — esta última pode ter sido desmembrada de alguma das obras maiores da rodada anterior, mas os documentos consultados não permitem confirmar.

Como funciona o leilão

O documento publicado hoje também detalha as regras de colocação dos títulos — e ajuda a explicar por que é tão difícil saber quem compra. Os Cepacs serão vendidos "em regime de melhores esforços", sem reservas antecipadas nem lotes mínimos ou máximos, e o Banco Coordenador (BB — Banco de Investimento) organizará o plano de distribuição podendo levar em conta, textualmente, "suas relações com clientes e outras considerações de natureza comercial ou estratégica" — uma margem de discricionariedade explícita na alocação dos papéis. Não haverá coleta prévia de intenção de investimento: cada um dos leilões previstos terá edital próprio, publicado com pelo menos dois dias úteis de antecedência.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Assuntos: Curitiba Urbanismo

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