Curitiba aprendeu a se ver como uma cidade planejada, verde e preparada. Mas a emergência climática exige mais do que reputação, e os dados mostram uma cidade menos pronta do que a propaganda sugere. O Plural doClima reúne quatro décadas de dados públicos sobre o clima da cidade — de governos, da ciência e de organizações da sociedade civil — e os traduz em reportagem. Ao fim da leitura, você vai entender os riscos e ter uma ferramenta para cobrar quem decide.
Nas últimas décadas, os dias em Curitiba ficaram mais quentes. A temperatura mais alta registrada a cada dia, na média do ano, subiu de forma estatisticamente comprovada. A chuva, antes relativamente previsível, passou a oscilar entre secas e dilúvios sem padrão claro. A vegetação nativa foi cedendo espaço para uma cidade cada vez mais impermeável. E alagamentos, enxurradas, vendavais e deslizamentos se tornaram mais comuns. Segundo o Atlas Digital de Desastres, quase metade de todos os registrados em Curitiba desde 1992 aconteceu apenas em 2023 e 2024.
A temperatura máxima média de Curitiba subiu cerca de 0,8 °C em 45 anos, uma alta pequena na média anual. Como a temperatura varia muito de um ano para outro, os pesquisadores usam um cálculo para saber se uma subida assim poderia ser só oscilação normal ou se é uma tendência real. Nesse caso, a chance de ser coincidência é menor que 0,1%: a cidade está de fato mais quente. O aquecimento, porém, não aparece onde se imagina. Os dias de calor extremo não estão ficando mais frequentes. Quem está esquentando são as noites: o calor da cidade se concentra nas temperaturas mínimas, não nas máximas do meio-dia.
Ao contrário da temperatura, o total de chuva de Curitiba não tem tendência nenhuma. Em 45 anos, a variação de longo prazo é estatisticamente indistinguível de zero, com 95% de chance de qualquer inclinação ser apenas ruído. O que define o regime de chuva da cidade não é chover mais ou menos, e sim a volatilidade: anos de seca e anos de excesso se alternam com saltos bruscos, o tipo de instabilidade que pega cidades despreparadas no contrapé.
Em 2024, Curitiba lançou na atmosfera 2,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, uma medida que soma todos os gases de efeito estufa e os converte no impacto correspondente de gás carbônico. É o segundo maior volume entre os municípios do Paraná, atrás apenas de Araucária, que abriga a Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras.
Dividido pelos 1,77 milhão de habitantes do Censo, dá cerca de 1,5 tonelada por pessoa no ano — abaixo da média brasileira e mundial, o esperado para uma cidade sem desmatamento em larga escala, sem lavoura extensa e sem indústria pesada.
O retrato importante está na composição: o transporte rodoviário responde sozinho por 57% de tudo o que a cidade emite. Somando trilhos e aviação, o transporte chega a dois terços. A cidade-modelo do transporte público tem nas ruas o coração do seu problema climático.
Em quase 40 anos, a área urbana de Curitiba cresceu mais de 10 mil hectares — cerca de 100 km², mais que o dobro da Cidade Industrial, o maior bairro da cidade — e hoje cobre 74,9% do município, um dos maiores índices entre as capitais. Por muito tempo esse avanço não veio das matas, e sim da agropecuária, das antigas chácaras e pastagens dentro da cidade. Mas a vegetação nativa perdeu 40% da área em quatro décadas, e o corte segue ano a ano: no dado consolidado mais recente, de 2022, foram 55 hectares de floresta suprimidos (mais de um terço do Parque Barigui) contra 88 em recuperação — um saldo cada vez mais apertado para o maior ativo ambiental da cidade.
Toda cidade tem terrenos baixos, na beira de rios e córregos, para onde a água tende a ir quando chove demais. O módulo urbano do MapBiomas mede quanto da cidade foi construída nesses terrenos, e o retrato de Curitiba revela um alerta: em 2024, dado mais recente, 9.015 hectares de área urbanizada tinham diferença vertical de até 3 metros em relação à drenagem natural mais próxima. São áreas potencialmente mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações.
Em 1985 eram 6.200 hectares: nas últimas quatro décadas, essa ocupação cresceu 45%. Enquanto isso, o verde dentro da malha urbana avançou em ritmo menor: a área urbanizada vegetada aumentou 25%, de 2.047 para 2.552 hectares — metade da taxa de expansão da área urbanizada, que foi de aproximadamente 50%.
O módulo também mapeia as favelas — as áreas urbanizadas dentro dos perímetros oficiais de Favelas e Comunidades Urbanas delimitados pelo IBGE. Elas mais que dobraram em quatro décadas, de 520 hectares em 1985 para 1.202 em 2024, e seguiram crescendo mesmo nos anos em que a área construída da cidade como um todo desacelerou. A maior parte está em terreno plano e baixo, potencialmente mais exposto a alagamentos, e cerca de 155 hectares ficam em encostas com declividade acima de 10%, onde o risco associado é o de deslizamento. É o retrato de quem ocupa a terra que sobra: a população mais vulnerável vive onde o clima tende a apertar primeiro.
O AdaptaBrasil, sistema do Ministério da Ciência e Tecnologia, projeta como os riscos climáticos de cada município devem evoluir até 2050. Para Curitiba, um indicador se destaca pela velocidade do agravamento: o estresse hídrico, que sai de risco médio hoje para alto já em 2030. A capital ecológica pode enfrentar a água como seu maior desafio climático.
Cada risco resulta de três fatores: a ameaça climática (o quanto o clima projetado favorece o problema), a exposição da população e da infraestrutura, e a vulnerabilidade, que considera a capacidade do município de responder. Clique em qualquer linha para abrir essa decomposição. Inundações e deslizamentos aparecem com índice final próximo de zero, mas a ameaça e a exposição estão entre as mais altas da cidade; o que derruba o número é a capacidade de resposta atribuída ao município no modelo. O histórico de 2023 e 2024 mostra que o risco é real.
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O Atlas Digital de Desastres no Brasil, que reúne os registros oficiais da Defesa Civil, contabiliza 25 desastres em Curitiba desde 1992, quase todos ligados à água. O dado mais revelador está no quando: doze deles, quase metade da série histórica, aconteceram apenas em 2023 e 2024. A curva de eventos extremos disparou exatamente quando as projeções diziam que dispararia.
A disparada não foi coincidência. Entre 2023 e 2024, o Paraná esteve sob um El Niño de forte intensidade, que aqueceu o Oceano Pacífico e bagunçou a circulação da atmosfera sobre o Sul do Brasil. Setembro de 2023 foi o mês mais quente em Curitiba em 80 anos. O El Niño deixa a chuva mais irregular: longos períodos secos seguidos de temporais intensos. Em dezembro de 2024, um único fim de semana despejou 129 mm sobre a cidade, com alagamentos em 23 bairros.
O El Niño é um gatilho natural e temporário. Mas ele age sobre uma cidade que já vinha esquentando e impermeabilizando seu solo — inclusive sobre os 9 mil hectares construídos em áreas baixas, mais vulneráveis a alagamentos. É a soma desses fatores que transforma um evento de chuva em desastre.
Os riscos deste painel já têm respostas conhecidas, testadas em outras cidades e recomendadas pela literatura técnica. São frentes de trabalho que dependem de planejamento, orçamento e acompanhamento público para sair do papel.





Quem mora na cidade tem todo o direito de perguntar o que está sendo feito e de esperar uma resposta. Escolha um dos assuntos que mais preocupam Curitiba e gere uma mensagem pronta, em linguagem simples, contando que você viu esses dados e quer um retorno da prefeitura ou de um vereador.
Os textos são sugestões editáveis. Personalize com seu nome, seu bairro e o que você observa no dia a dia: mensagens pessoais têm mais peso.
Os dados deste painel ganham contexto na reportagem. Acompanhe a cobertura do Plural sobre clima, meio ambiente e cidade. As matérias mais recentes aparecem aqui.
O Plural doClima não produz dados próprios: ele reúne, cruza e traduz bases públicas brasileiras e internacionais. Parte delas é oficial, produzida por governos e agências públicas — como o AdaptaBrasil (MCTI), o Atlas Digital de Desastres (Defesa Civil) e o Censo (IBGE). Outra parte vem de redes científicas e organizações da sociedade civil de referência, como o MapBiomas (rede de universidades, ONGs e empresas de tecnologia), o SEEG (Observatório do Clima) e o Climate Hazards Center da Universidade da Califórnia (CHIRPS e CHIRTS). Todo número deste painel pode ser rastreado até uma das fontes abaixo. As séries históricas vão de 1980 a 2025, conforme a disponibilidade de cada base.
Nota metodológica. Os índices de risco seguem a lógica do IPCC, combinando ameaça, exposição e vulnerabilidade, em escala de 0 a 1. Dados do AdaptaBrasil podem apresentar defasagem frente a registros municipais mais recentes; por isso cruzamos projeções com o histórico real de desastres. Versão preliminar, em aprimoramento contínuo.